Mistérios da ficção

Um romance será tanto melhor quanto mais sólido for o pacto narrativo que estabelece com os seus leitores.

Em 1860, na sua viagem ao encontro de Garibaldi na Sicília, Alexandre Dumas fez uma paragem em Marselha e foi visitar o Castelo de If, cenário do seu romance O Conde de Monte Cristo, em que a personagem principal, Edmond Dantès, passara 14 anos injustamente preso, na companhia do abade de Faria. Descobriu com espanto, e certamente com gozo, que os visitantes eram levados à cela do conde de Monte de Cristo e que os guias falavam dele e do abade de Faria como se fossem personagens históricas, mas ignoravam que uma personagem real, Mirabeau, tinha estado presa naquele mesmo castelo. Mais tarde, Dumas escreveu nas suas memórias: "É um privilégio dos romancistas criar personagens que matam as personagens dos historiadores. Isto porque as personagens que os historiadores evocam são meros fantasmas, enquanto os romancistas criam personagens de carne e osso."

A história é contada por Umberto Eco em "O Invisível", brilhantíssimo ensaio publicado no seu livro póstumo Aos Ombros de Gigantes (Gradiva, 2018). Nesse texto, Eco interroga-se sobre o que torna reais - ou visíveis - as personagens de ficção, e até que ponto elas são mais "verdadeiras" do que as personagens históricas. O abade de Faria foi uma criação literária de Dumas mas também uma personagem real, que até tem uma rua em Lisboa com o seu nome; chamava-se José Custódio de Faria (1756-1819), cientista luso-goês que fugiu para França em 1788, esteve envolvido nas turbulências da Revolução e foi pioneiro no estudo da hipnose, mas dele não se sabe muito. Do fictício abade de Faria sabemos tudo o que há para saber, pois dele apenas existe aquilo que Dumas nos conta e descreve, nada mais. A sua biografia e a sua realidade são, digamos assim, "fechadas", e estão definitivamente encarceradas nas páginas de O Conde de Monte de Cristo. Em contrapartida, sobre o abade de Faria histórico, o padre de carne e osso, podemos sempre saber novos factos, até descobrir que não se chamava Faria nem era sacerdote, ou que não nasceu em Goa e que nunca esteve em Paris. Para muitos, Hitler não morreu no bunker e Elvis vive numa ilha recôndita. Mas ninguém duvida ou ousa pôr em causa que Anna Karénina se suicidou numa linha de comboio (ou, como diz a versão brasileira da Wikipédia, se "jogou na linha do trem entre carruagens em movimento", depois de "um bate-boca" com Vronsky).

Umberto Eco diz que conhece melhor certas personagens de ficção do que o seu próprio pai. Há inúmeros episódios da vida do seu pai que ele ignora, as viagens que fez, o que pensava e sentia no mais íntimo, onde estava no dia tal às horas tais, se teve amantes ou filhos fora do casamento, até que ponto acreditava em Deus, quais os seus pensamentos secretos, as taras, as manias. Já de Madame Bovary tudo o que há a saber é aquilo, e apenas aquilo, que Gustave Flaubert nos conta, e ninguém irá descobrir que Emma afinal não se chamava Bovary ou que vivia em Itália, não em França. No entanto, cada qual pode ter - e tem - a "sua" Bovary, e aí reside um dos mais fascinantes mistérios da ficção: sendo única e universal, exacta e talqualmente Flaubert a descreve, Bovary é objectiva na sua literalidade, mas vista de acordo com a subjectividade de cada um. Quer dizer, há uma só Bovary, a que Flaubert cristalizou nas páginas do seu romance, e, a par dela, existem milhões de Bovarys, tantas quantas os seus leitores. Por outro lado, a Bovary de cada um de nós varia com o tempo, e a que lemos na adolescência será, naturalmente, muito diferente da que relemos agora, na meia-idade. Emma flutua ao sabor de quem a lê, e do tempo em que a lê, mas o que foi escrito por Flaubert nunca varia, é definitivo e imutável. Poderíamos preferir que ela não se matasse no final, ou que Romeu e Julieta casassem, tivessem filhos e fossem felizes para sempre, mas não foi assim que Flaubert e Shakespeare decidiram que fosse, e são eles que mandam, na sua suprema autoridade autoral.

Não é apenas no cinema que existe a "suspensão da descrença", o estranho mecanismo psicológico que nos leva a acreditar, enquanto assistimos a um filme, que existem castelos de fadas ou naves espaciais, ou que as personagens que se beijam ardentemente na tela estão deveras apaixonadas uma pela outra. Sem isso, o cinema não existiria nem conseguiria produzir efeitos reais nos espectadores. Para que sintamos medo ao ver um filme de terror, temos de acreditar, durante um par de horas, que há mesmo um monstro à solta nas ruas da cidade, ou que um tubarão gigante vai abocanhar aquela criancinha indefesa no mar. Com a ficção literária passa-se o mesmo, ou parecido. Enquanto lemos um livro, estabelecemos um pacto com o autor, em que este finge dizer uma coisa verdadeira e nós fingimos acreditar nela. Para nos deleitarmos com as páginas de Eça, temos de imaginar o bucolismo de Tormes e estarmos ali, ao lado de Jacinto, no preciso instante em que ele leva o garfo à boca e prova as deliciosas favas de Melchior. Mas temos de imaginar tudo isso não como ficção mas como realidade. Se a todo o momento estivermos a pensar que nada daquilo existe ou existiu, que tudo não passa de uma criação do génio de Eça, o romance não funciona, e a literatura morre. Outro dos mistérios da ficção, da boa ficção literária, é esse encantamento, essa capacidade de sedução que nos faz acreditar em coisas que sabemos que não existem ou que nunca existiram. Um romance será tanto melhor quanto mais sólido for o pacto narrativo que estabelece com os seus leitores.

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Há um ponto que Umberto Eco aflora, mas não explora. E é o seguinte: também as personagens históricas, de carne e osso, são fictícias. Ou, pelo menos, "narrativas". Sabemos que está a chover ou que faz calor lá fora, mas não podemos garantir com 100% de certeza que Gengis Khan, o abade de Faria ou mesmo Hitler existiram de verdade. O que deles sabemos, das suas vidas, do que fizeram, é apenas o que nos dizem os manuais que estudámos no liceu, as enciclopédias e as wikipédias, os jornais e os filmes da época, os documentários do Canal História. Mas também aí, e à semelhança dos romances de ficção e das obras literárias, tem de existir uma "suspensão da descrença" e um pacto tácito com o narrador/historiador que nos garante que Hitler nasceu numa cidadezinha do norte da Áustria, Braunau am Inn, no dia 20 de Abril de 1889, e que morreu em Berlim a 30 de Abril de 1945. Nesse sentido, Hitler é também uma personagem de ficção, o produto de uma crença, a crença que temos na fiabilidade das nossas fontes. Contudo, se preferirmos confiar noutras fontes e noutros narradores, passaremos a acreditar que o Führer e Eva Braun fugiram num submarino para a Argentina, onde foram recebidos por Juan e Evita Perón, que se instalaram numa quinta chamada Hacienda San Ramón, que mais tarde se mudaram para uma casa em estilo bávaro em Inalco, na fronteira com o Chile, que por volta de 1954 se separaram, e que Adolfo morreu em Fevereiro de 1962. Parece louco? É o que afiançam Simon Dunstan e Gerrard Williams no livro Grey Wolf. The Escape of Adolf Hitler, do qual foi feito, inclusive, um documentário recente, de 2014. Mesmo no Canal História, na série Hunting Hitler, alguns investigadores asseveram, com base em documentos secretos e entrevistas a testemunhas oculares, que Hitler conseguiu escapar da Alemanha e chegou à América do Sul a bordo de um submarino. Razão tinha Alexandre Dumas quando dizia que "as personagens que os historiadores evocam são meros fantasmas, enquanto os romancistas criam personagens de carne e osso". Hitler é uma personagem fantasmagórica (e Norman Mailer tem um livro intitulado precisamente O Fantasma de Hitler), cuja realidade ou veracidade históricas dependem das fontes em que acreditamos. Já o conde de Monte Cristo, que nunca existiu de verdade, acaba por ser mais verídico: ninguém duvida de que se chamava Edmond Dantès, que foi vítima de uma falsa acusação e encarcerado injustamente no Castelo de If, onde penou 14 anos, e que aí teve por companheiro o abade de Faria, que conseguiu fugir da prisão, amealhar uma enorme fortuna e vingar-se dos seus inimigos. Nada disto existe a não ser na imaginação de Dumas e dos seus leitores. Porém, tudo isto é tão real, objectivo e verídico que seria caricato afirmar que Edmond Dantès conseguiu fugir da prisão para a Argentina, no bojo de um submarino nazi. A realidade histórica é precária e revisível, sempre sujeita e aberta à descoberta de novos factos e provas; a realidade literária é fixa e imutável, cristalizada na forma exacta com que o narrador a descreve: num dado trecho de Anna Karénina, ela está vestida de preto e com um colar de pérolas, e nós não podemos lê-la doutra maneira, de biquíni azul e óculos de sol, nem existirão nunca documentos ou testemunhas que garantam que a personagem de Tolstoi não morreu e vive algures numa ilha recôndita, na companhia de Elvis Aaron Presley. Nesse sentido, os criadores, literários e não só, são os seres mais poderosos e tirânicos do mundo: tudo o que decidem pôr no papel de um livro, na tela de um cinema ou no palco de um teatro, passa a ser assim, exactamente como eles mandam, e ponto final. Podem fazer-se sequelas, recriações, finais alternativos, mas só faz sentido brincar com a hipótese de Karénina ou Bovary não se terem suicidado porque sabemos que elas se suicidaram mesmo.

Há um ponto, porém, em que o poder dos criadores não é absoluto. Talvez esteja errado, mas tenho pensado nisto: não há obra de ficção, por mais imaginosa que seja, que possa prescindir da realidade. Mesmo nos filmes passados em planetas a milhões de anos-luz da Terra, há montanhas geladas e desertos ardentes, florestas frondosas, monstros que se assemelham a répteis ou insectos gigantes, qualquer coisa que faça a ponte e estabeleça uma ligação ao nosso mundo, tal como o conhecemos. Azuis ou verdes, os extraterrestres têm de ter vagas parecenças com animais ou seres humanos, com boca e olhos, braços e pernas, pois de outro modo não seríamos sequer capazes de os imaginar. No filme Avatar, por exemplo, tudo é produto de ficção, nada daquilo existe, mas as plantas e as árvores são versões distorcidas ou ampliadas das nossas plantas e das nossas árvores, e as personagens têm traços humanos ou animalescos, sexo e sentimentos. Mesmo o tenebroso Alien tem braços e pernas, uma cauda, a boca voraz. E ninguém consegue imaginar o demónio de O Exorcista puramente como demónio: para surgir diante dos nossos olhos, ele tem de se apoderar do corpo e do espírito de uma pobre rapariguinha, que grita blasfémias e vomita lodo. É também por isso que somos incapazes de representar Deus ou os anjos sem uma referência a nós próprios, como um ancião de barbas brancas ou como jovens púberes e virginais. Até Cristo, para aparecer ao mundo, teve de se fazer Homem. E se Deus criou o Homem à sua imagem, a imagem que o Homem tem de Deus é humana, profundamente humana, pois somos incapazes de a conceber de outra forma. Não há ficção capaz de dispensar a realidade, ainda que por vezes a realidade ultrapasse - e muito - toda e qualquer ficção. Mas hoje não é dia de falarmos do comendador Berardo.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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