A Europa é nossa

A uma semana das eleições europeias, o DN desafiou o consultor em assuntos europeus Henrique Burnay a escrever sobre a Europa. "Fazermos parte da União Europeia ajuda-nos a ser mais como os ricos e menos como os pobres, mas a Europa não é um milagre lá de longe, é o que é possível quando se junta tanta diferença", garante.

Em Bruxelas, a meio de Abril os dias já são longos e aquele estava particularmente agradável. Soprava um vento manso, quase quente, e o trânsito cortado no bairro europeu, por causa da cimeira, dava uma ilusão de sossego. Mas às 20.30, quando o Sol finalmente se pôs e se levantou o frio, o dia estava longe de acabar tranquilamente.

Na sala onde se reuniam os chefes de Estado e de governo que fazem parte do Conselho Europeu, depois de uma longa discussão entre diferentes interesses, decidia-se o último adiamento do Brexit. Os britânicos saem mesmo (a bem ou a mal) até 31 de Outubro. Ou não. Veremos.

A dois quarteirões dali, num restaurante bem conhecido dos eurocratas, os deputados Marisa Matias, Carlos Zorrinho, Sofia Ribeiro, Pedro Mota Soares, uma funcionária do PCP e um apoiante do Aliança explicavam a um grupo de portugueses por que razão deviam votar nas eleições europeias, em geral, e nos respectivos partidos, em particular. A mim cabia-me moderar o debate. Coisa fácil, quando não há câmaras de televisão e a plateia é intimista.

Umas horas antes tinha sido exibida, para enorme espanto do mundo, a primeira fotografia de um buraco negro. Mesmo para um ignorante em coisas da astrofísica, era evidente a importância do momento. Tinha-se provado uma teoria fundamental. E tinha-se feito graças a uma colaboração à escala global que incluiu um grande contributo da investigação europeia e de fundos europeus. Naquela tarde, o comissário europeu Carlos Moedas, português, deu uma conferência de imprensa a dizer isso mesmo. No dia seguinte, nas páginas do Diário de Notícias, um outro português que participou no projecto, o cientista Hugo Messias, aparecia a explicar a importância daquela fotografia que parece um donut cor de laranja mal focado.

Para a primeira parte do debate, aquela em que se pedia aos representantes dos partidos que explicassem por que razão a União Europeia (UE) é importante, talvez não tivesse sido necessário dizer mais nada. Uma fotografia do impressionante buraco negro e outra da triste Theresa May podiam bem resumir o dia e o assunto. De um lado, uma descoberta incrível, tornada possível pela colaboração entre muitos, e em especial pela UE. Do outro, um dos mais importantes países do mundo há dois anos à deriva porque quer sair da União Europeia mas não sabe como e entretanto vai perdendo influência na Europa e no mundo.

Nos dois últimos anos os britânicos estão desorientados na NATO, perdidos no G7, e não podem ser coisa nenhuma - por enquanto - na Organização Mundial do Comércio. Pelo contrário, nesse mesmo dia Portugal tinha boas razões para celebrar. Por fazer parte da União Europeia participava, mesmo que indirectamente, na enorme descoberta da ciência. E por fazer parte da União Europeia, os seus interesses, os das suas empresas e dos portugueses que vivem no Reino Unido estavam a ser negociados por quem representava mais de 400 milhões de europeus, e não apenas dez.

A importância da União Europeia para Portugal é esta: dá-nos escala, dá-nos dimensão, dá-nos um tamanho que de outro modo não temos. A mesma importância que tem para a Alemanha, de resto. Com a diferença de que nesse campeonato nós ganhamos muito mais, porque a nossa influência no mundo seria, certamente, muito menor fora da UE do que a da Alemanha se a União Europeia não existisse. Mesmo em África, é evidente que além da língua, dos sentimentos, da memória, a nossa participação na União Europeia dá-nos muito mais importância lá, e sermos a porta de entrada deles cá.

Em Portugal, quando alguém quer falar da "Europa" é costume invocar as estradas e auto-estradas, os fundos (são tantos os fundos), o Erasmus e, agora, o roaming. Como se a Europa fosse uma espécie de Pai Natal que devesse ser medida pelo que deixa na meia. Não é. É um processo (gosto muito mais dessa ideia do que da ideia de projecto, que pressupõe um objectivo definido e quase um só caminho), e são vários resultados. E é por serem maioritariamente positivos que é tão importante fazer parte.

Em 2005, quando se comemoravam os 60 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, uma troca de e-mails entre funcionários no Parlamento Europeu fez-me descobrir uma evidência. Entre vários apelos a participar numa festa de comemoração da data, surge um lituano a dizer que não tem nada para comemorar. Como assim? Isso mesmo. Para ele, e para o seu país, em 1945 acabou um horror para começar outro (a ocupação soviética), que só terminou com a queda do Muro de Berlim, primeiro, e a adesão à UE depois.

Para a maior parte dos fundadores do que viria a ser a União Europeia, nos anos 50 do século passado, a "Europa" fez-se por causa da paz, por causa da absoluta necessidade da paz. Para nós, que aderimos muito mais tarde, a Europa foi o destino que garantiu a democracia, primeiro, e o desenvolvimento, depois. Para quem aderiu em 2004, os países a que chamamos de Leste, a "Europa" foi o ponto de chegada de uma longa fuga para a liberdade e o Ocidente. Este simples facto, o facto de a razão de aderir ser diferente para cada um dos Estados membros, devia ser um sinal para os mais euroentusiastas de que a Europa não é sonho, uma utopia e muito menos um futuro único: é a coordenação, a concretização de diferentes interesses nacionais. É isso, e não uma espécie de Império do Bem, que a justifica. É sentar 28 histórias à volta de uma mesa e negociar todos os dias.

Nos últimos anos Portugal estabeleceu um importante acordo comercial com o Canadá (há dados que indicam que podem ser criados 12 mil novos empregos cá), outro com o Japão, e está a negociar um difícil mas fundamental acordo com o Mercosul (o Brasil e a Argentina, entre outros). Portugal, não, claro. A União Europeia. Foi a força da UE, a economia de 500 milhões, que pesou nestas negociações. De que nós e as nossas exportações e importações beneficiámos, ao mesmo tempo que nove dos 15 países para onde mais exportamos são igualmente europeus. Para ser preciso, 76% das exportações nacionais, em 2018, foram para países da União Europeia, a começar por Espanha, França e Alemanha. Todas elas beneficiando de não terem de cruzar fronteiras nem pagar taxas. As mesmas fronteiras que cada um de nós deixou de ter de transpor quando atravessa a Europa para fazer turismo ou, muito mais importante, para viver e trabalhar.

No pico da crise, muitos dos portugueses talentosos e com ambição - uma das coisas que as pessoas deviam perceber sobre migrações é exactamente isso, que muitas vezes os emigrantes são os mais talentosos e ambiciosos, e os países que os recebem os maiores beneficiários dessas virtudes -, continuando: no pico da crise, muitos dos portugueses talentosos e com ambição fizeram as malas e emigraram. A maior parte escolheu países da Europa, por algumas razões óbvias: é perto, é onde se vive melhor, e é para onde podem ir sem ninguém os impedir ou lhes perguntar porquê. Mesmo quem ache que foi triste ver tantos partir, terá de reconhecer que foi importante poderem ir para onde havia oportunidades. Foi para isso que se fez a liberdade de circulação de pessoas no interior da União Europeia. Quando se diz que a Europa não é apenas um mercado, é também por causa disto, porque além dos bens e mercadorias também as pessoas podem circular livremente. Ou quase, porque no capítulo do mercado interno ainda há, e haverá sempre, muito que fazer.

Quem acha que a Europa é casar-se com a menina mais rica e mais bonita do bairro pede o divórcio à primeira ruga ou ao primeiro saldo negativo na conta. É por isso que nos últimos tempos a União Europeia teve tão má fama. Se houve crise, troika, pouco (ou nenhum) crescimento económico, a culpa é da fada madrinha que afinal não fez magia. O que esta discussão ignora é que o dinheiro da troika (pois, não foram só regras) não teria vindo da mesma maneira, que não teríamos crescido mais se estivéssemos isolados, que o nosso lugar no mundo não era mais importante se não houvesse "Europa".

Nós temos este hábito esquizofrénico de achar, simultaneamente, que somos os maiores e os mais irrelevantes do mundo. Não somos. Somos dez milhões de habitantes, fazemos parte dos países do mundo onde é melhor viver, temos problemas de país pouco rico e insuficiências de país que foi bastante pobre. Fazermos parte da União Europeia ajuda-nos a ser mais como os ricos e menos como os pobres, mas a Europa não é um milagre lá de longe, é o que é possível quando se junta tanta diferença. É a obra de 28 Estados membros, entre eles nós. Antes assim.

Consultor em assuntos europeus. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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