Referendo ao Brexit? Há trabalhistas contra e conservadores a favor. E vice-versa

Se fosse necessário mais provas de que os britânicos estão divididos até ao tutano, eis que um grupo de deputados conservadores pediu novo referendo e outro, trabalhista, ameaçou demitir-se caso Jeremy Corbyn aceite a ideia.

Já se sabe que por ironia do destino coube a uma defensora da permanência do Reino Unido na UE negociar a saída e que o líder dos trabalhistas é um eurocético, ao contrário da maioria dos apoiantes do seu partido. Agora coube aos deputados conservadores tomar a iniciativa de prever um segundo referendo.

A deputada Sarah Wollaston vai propor uma emenda ao plano de saída do Reino Unido a apresentar por Theresa May, o qual prevê a realização de um segundo referendo. A conservadora pediu ao líder trabalhista para apoiar a sua moção. É que na sua bancada deve receber o apoio de uma dúzia de colegas, mas só será aprovada se receber o apoio de Jeremy Corbyn.

"Espero sinceramente que Jeremy Corbyn se mantenha fiel ao seu compromisso de apoiar um segundo referendo, que é o que a maioria dos seus militantes quer", disse a deputada tory.

No entanto, e até agora, o líder do Labour não deu sinais de apoiar um segundo referendo. Ontem, Corbyn disse que o seu partido iria apresentar a sua própria emenda ao plano do Brexit a apresentar por May. Essa emenda exige uma união alfandegária, uma relação estreita com o mercado único, proteção reforçada para os trabalhadores e direitos do consumidor assegurados depois de o Reino Unido deixar a UE.

Mas se é verdade que 71 deputados em 256 (e 13 eurodeputados) trabalhistas escreveram a Corbyn a pedir que este defenda um novo plebiscito, há também uma minoria ativa que não quer essa via.

Segundo o The G uardian, até 12 deputados, ministros-sombra, poderiam demitir-se nesse cenário. O motivo é puramente tático: alegam que devolver a decisão aos eleitores poderia ter consequências nos círculos eleitorais que escolheram o Brexit.

56% querem ficar na UE

Um argumento frágil, no mínimo, se tivermos em linha de conta que 78% dos eleitores do Labour querem um novo voto e que há agora 56% dos britânicos a escolher a permanência e 44% a saída, segundo uma sondagem YouGov realizada após a derrota do acordo de Theresa May no Parlamento.

Os inquiridos apoiam ainda mais a permanência na UE, caso o cenário fosse a saída com o acordo proposto por May e a UE ou ficar no clube europeu. Neste caso, 65% escolhem a permanência e 35% a saída.

Há ainda outros dados em que trabalhistas e conservadores devem atentar. Por exemplo, nove em cada dez círculos eleitorais representados por deputados conservadores na Câmara dos Comuns defendem a realização de um novo referendo. A análise dos dados foi realizada pela campanha Best for Britain.

"Através de conversas privadas no Parlamento sei que o apoio dos meus colegas a um referendo existe e está a crescer rapidamente. O nosso objetivo é acelerar esse processo com o lançamento, hoje, da campanha Right to Vote, liderada pelos conservadores", disse o deputado tory Phillip Lee. "Os políticos conservadores têm de prestar atenção às conclusões de hoje. Em todos os assentos parlamentares conservadores, 55,8% dos eleitores querem um referendo se o Parlamento estiver num impasse sobre o Brexit, como continua a estar", concluiu.

A campanha Right to Vote foi iniciada na quinta-feira e, além de Lee, estiveram presentes os deputados Dominic Grieve, Anna Soubry ou Sarah Wollaston, entre outros, numa altura em que se diz nalguns círculos que também vários ministros e secretários de Estado começam a admitir a hipótese do segundo referendo.

A ideia recebe também o apoio expresso de 130 empresários que, numa carta publicada no TheTimes pediram para não se perder mais tempo. "O tempo está a esgotar-se antes que estejamos prontos para sair, os políticos não devem perder mais tempo em fantasias. Pedimos à liderança política dos dois partidos para apoiarem mais um referendo."

Um ano ou seis meses para realizar referendo?

Porém, um documento que o governo mostrou aos líderes dos liberais-democratas e dos nacionalistas galeses alega que o processo de realização de um novo referendo demoraria até um ano. As autoridades preveem que o tempo necessário para elaborar uma nova lei parlamentar e respetiva aprovação, testar a questão nos boletins de voto pela Comissão Eleitoral, designar os períodos de campanha e por fim um período de campanha de dez semanas podem significar que uma nova votação não poderia ser realizada antes do início de 2020.

Esta demora é rebatida por um estudo da Constitution Unit, centro de investigação sobre alterações constitucionais da University College de Londres, datado de agosto. Os investigadores concluem que as diversas barreiras podem ser vencidas no prazo de 24 semanas - metade do tempo que o governo diz demorar.

Os deputados vão debater e votar no dia 29 de janeiro o que a primeira-ministra vai apresentar na segunda-feira. Os membros do Parlamento têm liberdade para apresentar uma série de alterações à declaração de May. Espera-se a apresentação de outras emendas, como uma alternativa dos trabalhistas e outra, do conservador Nick Boles, que torne ilegal a saída sem acordo do Reino Unido.

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