Há cada vez mais pessoas a arrendar a mesma casa a estudantes e a turistas

Forte concorrência em algumas zonas de Lisboa e Porto e mudança nas regras do alojamento local levam muitos proprietários a virar-se para o arrendamento a estudantes durante o ano letivo.

São cada vez mais os proprietários que optam por dar uma utilização dupla aos seus imóveis: durante o ano letivo, arrendam-nos a estudantes e, no verão, colocam-nos no alojamento local. Esta combinação já tinha começado a sentir-se no ano passado, mas está a crescer, sobretudo depois da mudança das regras no alojamento local. São também cada vez mais os que começaram a pensar em ganhar um dinheiro extra com o arrendamento a turistas e que acabam por "desviar-se" para o mercado dos estudantes.

Eduardo Miranda, presidente da Associação do Alojamento Local em Portugal (ALEP), vê esta tendência como uma resposta normal do mercado a todo o processo de discussão de mudança das regras do alojamento local - que culminaram na recente aprovação de um novo pacote legislativo. Tudo isto, afirma, fez que muitas pessoas que estavam a pensar em investir em imóveis para os colocar no alojamento local estejam agora a repensar os projetos e a ajustar estratégias. A par das mudanças de regras junta-se a perceção de que a oferta de alojamento, sobretudo nas zonas mais centrais de Lisboa e do Porto e a sul do país, é hoje bastante mais elevado do que há um par de anos e de que o ritmo de crescimento do número de turistas não irá manter-se indefinidamente nos níveis registados nestes últimos dois anos.

Em julho do ano passado contavam-se em todo o país cerca de 55 mil registos de alojamento local; atualmente são quase 73 mil - dos quais 18 719 estão em Lisboa e 8361 no Porto.

Perante este panorama "é natural que comecemos a ter pessoas a repensar os projetos e a verificar alternativas e outras possibilidades de negócio", acentuou ao DN/Dinheiro Vivo. E, neste contexto, o mercado dos estudantes (nacionais, estrangeiros) e das pessoas que se deslocam por um curto período de tempo por motivos profissionais perfilam-se como alternativas de negócio.

A Uniplaces, especializada em arrendamentos para estudantes, já tinha dado conta do crescente interesse dos proprietários em dar uma utilização mista aos seus imóveis e ainda o primeiro semestre deste ano não tinha acabado quando um inquérito realizado junto dos senhorios que arrendam as suas casas através desta plataforma revelava que 60% combinavam o arrendamento a estudantes com o arrendamento a turistas.

Entre os projetos na calha está o da austríaca Milestone, que pretende abrir uma residência universitária até ao final deste ano no Campus da Universidade Nova

Nestes últimos meses, Miguel Santo Amaro, cofundador da Uniplaces, tem igualmente registado um crescimento no número de senhorios interessados em direcionar os seus imóveis para o mercado académico. "Temos registado um aumento de pedidos e também observado um crescente número de pessoas a pedirem-nos ajuda e informações sobre o enquadramento fiscal dos arrendamentos a estudantes", adiantou, acrescentando que, quando se apercebem que basta fazer um contrato de arrendamento habitacional e que o enquadramento é mais simples do que o do AL, acabam por optar pela utilização mista.

A cada vez maior aposta dos senhorios neste mercado dos estudantes universitários tem expressão nos resultados da Uniplaces, que este ano conta atingir os cem milhões de euros em contratos de arrendamento - o dobro do valor registado em 2017.

À Autoridade Tributária e Aduaneira têm também chegado pedidos de informação vinculativa sobre o enquadramento fiscal de imóveis reabilitados, que pretendem afetar atividades relacionadas com residências de estudantes por períodos não superiores ao ano letivo e a atividade turística nas férias letivas.

O mercado do alojamento de estudantes já entrou no radar dos grandes investidores internacionais. Entre os projetos na calha está o da austríaca Milestone, que pretende abrir uma residência universitária até ao final deste ano no Campus da Universidade Nova. O ramo é tanto mais apetecível quanto se sabe que 42% dos mais de 360 mil estudantes que frequentam as universidades portuguesas estão deslocados de casa e que a oferta de camas (entre residências públicas e privadas) ronda as 12 mil.

Menezes Leitão, presidente da Associação Lisbonense de Proprietários, não se surpreende que a oferta de casas para estudantes esteja a aumentar e que também haja mais gente que combine este tipo de atividade com o alojamento local. Ainda que não disponha de dados, sabe que a oferta de casas destinadas ao arrendamento habitacional tradicional tem registado uma forte redução porque os senhorios receiam a insegurança legislativa.

Ler mais

Exclusivos

Premium

robótica

Quando os robôs ajudam a aprender Estudo do Meio e Matemática

Os robôs chegaram aos jardins-de-infância e salas de aula de todo o país. Seja no âmbito do projeto de robótica do Ministério da Educação, da iniciativa das autarquias ou de outros programas, já há dezenas de milhares de crianças a aprender os fundamentos básicos da programação e do pensamento computacional em Portugal.

Premium

Anselmo Borges

"Likai-vos" uns aos outros

Quem nunca assistiu, num restaurante, por exemplo, a esta cena de estátuas: o pai a dedar num smartphone, a mãe a dedar noutro smartphone e cada um dos filhos pequenos a fazer o mesmo, eventualmente até a mandar mensagens uns aos outros? É nisto que estamos... Por isso, fiquei muito contente quando, há dias, num jantar em casa de um casal amigo, reparei que, à mesa, está proibido o dedar, porque aí não há telemóvel; às refeições, os miúdos adolescentes falam e contam histórias e estórias, e desabafam, e os pais riem-se com eles, e vão dizendo o que pode ser sumamente útil para a vida de todos... Se há visitas de outros miúdos, são avisados... de que ali os telemóveis ficam à distância...

Premium

João César das Neves

Donos de Portugal

A recente polémica dos salários dos professores revela muito do nosso carácter político e cultural. A OCDE, no habitual "Education at a Glance", apresenta comparações de indicadores escolares, incluindo a remuneração dos docentes. O estudo é reservado, mas a sua base de dados é pública e inclui dados espantosos, que o professor Daniel Bessa resumiu no Expresso de dia 15: "Com um salário que é cerca de 40% do finlandês, 45% do francês, 50% do italiano e 60% do espanhol, o português médio paga de impostos tanto como os cidadãos destes países (a taxas de tributação que, portanto, se aproximam do dobro) para que os salários dos seus professores sejam iguais aos praticados nestes países."