Já há testes para populações​​​​​​​ menos educadas? 

Foi uma conversa corrida por Portugal inteiro, fresquinha, desta semana. Uma televisão publicou uma reportagem sobre o norte do país ter mais casos de covid-19 e sobre as causas disso. Para anunciar a reportagem, juntou-se um título e uma imagem, o duo mais impactante desde que foi descoberto o dizer baixinho palavras doces ao ouvido de alguém. Mostrar uma imagem do Porto - único porque só o Porto tem Ribeira, ponte e rio - e juntar-lhe o título "População menos educada", esse duo, teve a mesma reação de palavras doces ao ouvido. Só que ao contrário.

Eu não disse o nome do canal porque derrapagens dessas são possíveis de acontecer sem vontade de acinte. Mas vou falar do escândalo porque é necessário tirar a limpo a estrangeirinha ali montada. De que estamos a falar quando dizemos "população menos educada"?

Retiremos da polémica qualquer prurido regional, já que estamos a falar do Porto, caragos, terra do lisboeta e transmontano Camilo, da mulher portuguesa de Machado de Assis, das fachadas da Ribeira irmanando-se ao Brabante flamengo culto e industrial, dos miúdos a preto e branco a saltar da ponte de ferro para o rio do vinho, dos pais que geraram Velásquez... Relacionar falta de educação e Porto é como falar de mulheres feias e exemplificar com a Claudia Cardinale. Reparem, é que não estou a falar do patamar, já alto, da Sophia Loren, dos olhos grandes, ou da Lollobrigida das mamas. O Porto é educado como a Claudia Cardinale é a beleza a passear-se de mala pelos meus vinte anos fora.

Regiões, pois, à parte, deixem começar pela minha avó Madalena - por acaso nascida em Braga e vivida no Porto, mas que trago aqui como exemplo do quanto pode ser equívoco isso de "população menos educada." Ela, menos educada? Órfã de casal morto na pneumónica, analfabeta e operária têxtil quando a indústria, antes de emigrar para o Vale do Ave, ainda era na portuense Boavista. Aos 29 anos, Madalena ficou viúva, com duas filhas pequenas e vivia numa ilha de Ramalde, mais pobre não podia ser. Lá está, quantos doutores não sabem que "ilha" é um pátio nas traseiras, ainda mais pobre do que o bairro à volta?

Uma vez perguntei-me o que diria de Trump a minha avó. Ela já morreu há muito mas sei o que diria: "Esse homem é mau."

A minha avó sabia. Por isso é que apesar de ter ficado viúva tão jovem, e por ter duas meninas em casa, nunca casou. Dedicou-se a elas. E as duas meninas, graças à educação da mãe, foram felizes. Madalena teve cinco netos: três são professores universitários, um é dono de colégio e o quinto sou eu, o menos educado de todos. Um dia, estando eu, 10 anos, internado no melhor colégio do norte, o Brotero, na fina Foz do Douro, a minha avó Madalena foi visitar-me. Trazia um carrapito. Este era um sinal de classe, que na Foz do Douro era a errada. No átrio do colégio as famílias iam buscar os filhos no fim de semana. Agarrei-me ao carinho da minha avó e saímos os dois, a pé, mão dada, orgulhosos os dois, dos dois. Isto para dizer que mesmo eu tenho uma grande educação.

Dou-me conta de que posso querer demonstrar a educação da minha avó analfabeta, pela sabedoria dos netos. Não. Estou a falar da grande cultura dela, mesmo, o ver fundo e simples. Um dos mais extraordinários fenómenos políticos dos tempos modernos é Donald Trump ser presidente da democrática América. Tenho muitos espantos mas sobre esse facto ninguém me clarificou mais do que a minha avó. Eu vi Trump, em palco e com televisões à volta, a gozar, mimando com gestos esparvoados um deficiente na cadeira de rodas... E outras.

Uma vez perguntei-me o que diria de Trump a minha avó. Ela já morreu há muito mas sei o que diria: "Esse homem é mau." Conheço especialistas de Eça de Queirós, cito Eça porque há exatos 150 anos ele começava a mostrar neste DN o que é a luz de uma escrita, especialistas, pois, incapazes de ler a simplicidade tenebrosa de Trump.

Uma vez, anos 90, numa reportagem da RTP, vi uma camponesa de Cambedo da Raia, Chaves, a puxar pela memória o derradeiro combate dos últimos guerrilheiros que se opunham a Franco, em 1946. Muitas casas de Cambedo, solidárias como as gentes da raia, tinham acolhido os refugiados espanhóis. Polícias da Guardia Civil e da GNR juntaram-se, atacaram a aldeia e mataram gente. Meio século depois, a camponesa falava para televisão, olhou à volta e explicou a hesitação: "Muitos homens que andaram mal ainda hoje estão vivos." De população pouco educada, a camponesa raiana?

Uma tarde, num boteco de João Pessoa, estado de Paraíba, no nordeste brasileiro, eu e a empregada que me servia a cerveja falávamos de um bandido e herói local, Lampião. Perguntei pela mulher do cangaceiro. E a empregada do boteco respondeu: "Maria Bonita? Um estropício." A última pessoa de quem eu ouvira essa palavra antiga foi a minha avó Madalena, a 6000 km de distância. Pelo mundo fora, incluindo o norte de Portugal, deve haver uma academia de gente culta da qual não temos a menor ideia. Daí as derrapagens, só nossa ignorância.

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