Levem os miúdos para a rua

Como se previa, depois de mais de um ano letivo afastados das escolas e ao fim de dois a incutir-lhes mensagens de pânico, sentimentos de culpa e proibições absolutas de todo o tipo de contacto, os miúdos não estão a ser capazes de lidar com a normalidade que perderam de vista. O absurdo das regras pandémicas tornou-se para eles o tal "novo normal", que é profundamente anormal mas ao qual eles não sabem como fugir.

Não é só a questão do que as crianças não aprenderam nestes dois anos - e foi tanto... em matéria, como em comportamentos e capacidade de socialização, usualmente potenciados pelo convívio na escola. Dos mais pequenos aos adolescentes - e até entre os universitários -, generalizou-se a incapacidade de criar ou recuperar laços, de reaprender a partilhar, de fazer um esforço para entender o outro, ser solidário, envolver-se, importar-se. O umbigo sobrepôs-se ao grupo, o racional obliterou o emocional, a tecnologia arrasou o convívio. E mesmo já podendo e tendo tempo para isso, os miúdos preferem isolar-se a voltar a viver.

Nos casos em que isto não se traduz em crianças autocentradas - pouco ou nada tolerantes para com os outros e os problemas, alegrias, tempos ou questões que os outros possam ter -, acaba por revelar-se de forma mais aflitiva: miúdos que não sabem como sair da toca, que não têm capacidade de pedir a mão a outros, não fazem ideia de como construir pontes. Ou que não querem construí-las por medo de as ver ruir de novo, por receio de pôr os outros em perigo.

Há crianças que não sabem viver em sociedade e crianças que têm medo de estar em comunidade. Não é exagero. Dois anos de pandemia geraram traumas, perturbações, inaptidões, incapacidades físicas, psicológicas, comportamentais e de relacionamento - e não apenas nos mais novos. E se não serve de muito olhar agora os erros cometidos - a começar pela criminosa culpabilização das crianças pela doença e morte dos mais velhos -, é bom tempo de se ver como se pode corrigi-los.

Com a maioria das famílias ainda limitadas no tempo e na capacidade de dar mais aos seus filhos, ainda que não seja verdadeiramente responsabilidade da comunidade escolar, esta é a estrutura que melhor se posiciona para ajudar os pequenos a esquecer os absurdos que absorveram como "novo normal" e a recuperar a normalidade para as suas vidas. Para isso, porém, há que garantir-lhe instrumentos. É necessário que se concretize o apoio psicológico que há anos fingimos que existe; é preciso que os professores tenham a ajuda pela qual desesperam. É sobretudo imprescindível que em vez de se perder tempo com palermices e agendas ideológicas se aproveite o ambiente escolar para promover o mais possível o contacto com o mundo real.

Não é possível, ao fim de dois anos, voltar a sentá-los na sala de aula e esperar que seja tudo parecido com o que era antes da covid. Ponham as crianças com as mãos na massa. Façam com elas experiências prolongadas em hortas. Levem-nas a ajudar os mais velhos. Mostrem-lhes como podem ser úteis, prestar serviços à comunidade, fazer a diferença para melhor. Envolvê-las em projetos de valor real, por pequenos que sejam, pode verdadeiramente ajudá-las a criar laços, a voltar a pôr os pés no chão, a entender o tempo e o esforço necessário para cumprir objetivos, a sentir prazer no convívio. Não é só tirar-lhes os olhos dos ecrãs, é fazê-los sentir que pertencem a algo maior do que elas.

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