A morte não é para comícios

Os referendos têm um efeito perverso. Mais do que nos convencerem das boas ideias da nossa causa, confirmam-nos as más da outra. São comicieiros. Com os referendos, no fim da discussão, as convicções dos outros revelam-se sempre andar pelas ruas da amargura... Hoje, em Portugal, quando a discussão do referendo sobre a eutanásia ainda vai no adro, e ainda sem saber se haverá referendo, logo a discussão se encafuou na sacristia. Adro e sacristia, está certo, a petição pelo referendo tem sido dinamizada pela Igreja Católica.

Eu estou cheio de certezas sobre o direito à eutanásia, é-me quase um assunto indiscutível. A minha posição sobre ele, o direito à eutanásia, é simples: sou por, mas cheio de angústias. Entretanto, lá está, porque já tudo se transformou em referendo, só por aquilo que os "outros" disseram nesta pré-fase, tão precoce, estou mais convicto com a minha ideia de quase sempre. Mas não me satisfaz essa certeza, preferia melhor debate.

Os bispos de Braga e Porto invocam a transcendência da morte para duvidarem da capacidade parlamentar em debater e decidir sobre a eutanásia. Como se houvesse melhor lugar do que a casa de todos os portugueses para se discutir um assunto como a morte sofrida e indigna, tão portuguesa. Nesta semana, em debate na TVI, o padre católico José Nuno Silva, capelão hospitalar durante vários anos - o que lhe dá certamente um conhecimento pessoal e factual da vivência das pessoas mais imediatamente ligadas ao assunto a referendar -, invocou o "martírio" como uma resposta.

Dizem-me que morrer com dignidade, sim, é um direito. E que a lei deve preencher certas condições (um pedido feito e repetido pelo paciente, uma doença incurável e um sofrimento impossível). E dizem-me também que a evolução jurídica deste direito causa inquietudes, como a banalização do suicídio.

Para os que veem a vida como uma benesse divina, aguentar o prolongamento da vida para lá de toda dor, nos limites de toda a incapacidade do corpo e da inteligência, da memória e dos sentimentos, o martírio é uma oferta corajosa e admirável a Deus. Este, espera-se, há de reconhecer os seus que o serviram com essa coragem. Mas do que estamos a falar quando falamos de cada um dos cinco projetos de lei que se apresentam ao Parlamento para despenalizar a morte assistida? Esses projetos, que levaram a Igreja Católica e outras igrejas a querer um referendo que desfaça os efeitos deles, têm na sua intenção geral, ou numa só frase, o que indicie eles quererem assistir na morte, ajudar a morrer, quem preferir o martírio? "Qual sofrer e rezar! Passe para cá a veia..."

Claro que não. Pelo que discute o Parlamento português, os candidatos ao martírio continuarão com o direito a escolher o martírio. E por mim, com o meu respeito, porque gosto dos firmes. Mas se a discussão sobre a despenalização da morte assistida ficar ao nível falso a que este lançamento do referendo a remeteu, quem não terá quem os defenda é um vasto leque de portugueses. Os portugueses que não acreditam no martírio, os que acreditam e não o querem aplicar, e os que simplesmente das mortes indignas querem as breves.

Dizem-me, é possível com a morte, a paz connosco, a alegria e até o riso, palavras que incarnam a vida. Há casos assim e não só sortudos a quem tudo lhes calhou bem até ao fim. Há casos, dizem-me, de quem sofreu dois acidentes vasculares cerebrais e espera o próximo que o mandará para condição muito provável de vegetal. E então programou o dia da sua partida, a sorrir para filha e ver dela os olhos molhados até ao fim. Na Suíça, onde o suicídio assistido é legal, são possíveis coragens destas, tangíveis como as filhas, não só coragens com fé no intangível.

Dizem-me que há quem, jovem e adulto, sofrendo a doença de Charcot, em poucos meses ficou sem movimento de qualquer dos membros, a perda de voz se anuncie e aguarde a inelutável e aflita incapacidade de respirar - e, antes que a decisão também se apague, se decida pela eutanásia, pois vive na Bélgica, onde a eutanásia é legal.

Dizem-me que morrer com dignidade, sim, é um direito. E que a lei deve preencher certas condições (um pedido feito e repetido pelo paciente, uma doença incurável e um sofrimento impossível). E dizem-me também que a evolução jurídica deste direito causa inquietudes, como a banalização do suicídio.

Sou todo ouvidos, enquanto ouço e penso, e tranquiliza-me que Portugal fale disto na casa das leis e nas nossas casas. Em todo lado com o respeito que merece a escolha do fim da nossa vida. Comícios, com a morte, não, por favor.

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