Portugueses em trabalho forçado na Alemanha nazi: uma história por contar

Por motivos políticos, ou simplesmente porque estavam no sítio errado na altura errada, muitos portugueses acabaram sujeitos a trabalho forçado na Alemanha nazi durante os anos da II Guerra Mundial. Estão contabilizados mil, mas terão sido muitos mais.

Estão contabilizados cerca de mil, mas este número será apenas a "ponta do icebergue". Por motivos políticos, ou simplesmente porque estavam no sítio errado na altura errada, muitos portugueses acabaram sujeitos a trabalho forçado na Alemanha nazi durante os anos da II Guerra Mundial. Alguns estavam em campos de concentração (estão identificados 80), mas na maioria dos casos tratou-se de trabalhadores "civis" deportados e obrigados a trabalhar nos campos, nas fábricas, nas empresas alemãs, alimentando o esforço da máquina de guerra do III Reich. Numa Europa em grandes dificuldades económicas, houve até quem fosse para a Alemanha trabalhar voluntariamente, para depois descobrir que já não podia sair.

Uma realidade trazida à luz do dia, nos últimos anos, por uma equipa de investigadores do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, resultado de um projeto liderado pelo historiador Fernando Rosas. Um trabalho que começou por identificar os portugueses que estiveram presos no campo de concentração de Mauthausen, na Áustria, estendendo-se depois a outros campos, e que se prepara agora para entrar numa segunda fase, com o objetivo de vir a criar uma plataforma pública que reúna informações sobre os trabalhadores forçados portugueses e espanhóis na Alemanha nazi.

Dos detidos nos campos de concentração e nas prisões aos trabalhadores deportados, "todos são obrigados a trabalhar e a contribuir para o esforço de guerra alemão", diz ao DN a historiadora Cláudia Ninhos, que tem trabalhado no projeto e vai agora coordenar a nova investigação ("Trabalhadores forçados portugueses e espanhóis sob o nacional-socialismo: História, memória e cidadania"), que será feita em parceria com a Universidade Autónoma de Barcelona. Porquê a junção? Porque esta é uma história que, em alguns casos, se faz pelos mesmos caminhos: portugueses que participaram na Guerra Civil de Espanha, ao lado dos republicanos, e que com a vitória de Franco se refugiam em França, tal como milhares de espanhóis, acabando aprisionados pelos nazis e sujeitos a trabalho forçado.

Num conflito em que Portugal assumiu, oficialmente, uma posição neutral, França é o ponto de origem da maior parte dos cidadãos portugueses apanhados nas malhas do III Reich, emigrantes económicos que tentavam fugir à pobreza do país nas décadas de 20 e 30 do século XX e que a partir de 1940 se viram na França ocupada.

"À medida que a guerra vai avançando, a necessidade de mão-de-obra por parte da Alemanha é enorme, nomeadamente a partir de 1942: é preciso mandar cada vez mais alemães para a frente de guerra, e quem os vai substituir nas fábricas, nos campos, nas minas? É necessária mão-de-obra, os alemães vão ao estrangeiro e deportam mão-de-obra, fazem exigências de contingentes de trabalhadores junto do governo de Vichy [o governo colaboracionista do marechal Pétain], e este, muitas vezes, envia estrangeiros, entre os quais portugueses", conta a historiadora - "Encontramos trabalhadores forçados desde as grandes às mais pequenas empresas alemãs."

Cada história é singular, um percurso único, e a própria condição de trabalhador forçado é uma realidade complexa que assume diferentes contornos. Mas há histórias com pontos comuns. Há um segundo grupo, mais politizado, "os portugueses que se envolveram na Resistência francesa, ou com o Partido Comunista francês, que se politizam, são apanhados e enviados ou para campos de concentração ou para as prisões do III Reich" e convertidos em trabalhadores escravos.

Sem esta mão-de-obra estrangeira, "os alemães nunca teriam aguentado uma guerra até 1945", diz Cláudia Ninhos, evocando a história de José Vieira. Português emigrante em França, envolve-se com o Partido Comunista e a Resistência Francesa, é apanhado, condenado a trabalhos forçados e deportado para uma prisão na Alemanha, acabando a trabalhar numa fábrica de celulose. Sobreviveu, foi condecorado pelo Governo francês - as insígnias que recebeu de Charles de Gaulle estiveram na exposição que há três anos, no Centro Cultural de Belém, veio mostrar ao público as conclusões do trabalho destes investigadores, uma realidade praticamente desconhecida, ao contrário de outras facetas da ligação portuguesa à II Guerra Mundial.

O projeto inicial teve financiamento recusado, por duas vezes, pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, acabando por obter um apoio de cerca de 30 mil euros da fundação alemã EVZ (Memória, Responsabilidade e Futuro), criada para ressarcir os trabalhadores forçados da Alemanha nazi. Muito embora esse processo de indemnizações já tenha sido encerrado, a fundação continua a apoiar o estudo do trabalho escravo nos anos da II Guerra. O projeto transnacional que terá agora início - que deverá ser posto em prática no verão de 2022, se a covid não trocar as voltas à investigação - é financiado pela Comissão Europeia, no âmbito do projeto Europe for Citizens. Cláudia Ninhos pretende que o trabalho tenha "algum impacto junto dos cidadãos" e prevê também uma abordagem pedagógica, junto de professores e alunos, para uma realidade que ainda não entrou nos livros de História.

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