30 anos do golo de Vata. "Vou dizer o mesmo até morrer: marquei com o ombro"

Neste sábado completam-se 30 anos da célebre vitória do Benfica diante do Marselha que colocou as águias na final da Taça dos Campeões Europeus. Uma boa oportunidade para uma conversa com Vata, o grande herói daquela noite com um golo polémico que ainda hoje cria discórdia.

Dia 18 de abril de 1990. Num Estádio da Luz a rebentar pelas costuras, com 120 mil pessoas nas bancadas, o Benfica recebeu o Marselha em jogo da segunda mão das meias-finais da Taça dos Campeões Europeus, a precisar de vencer pelo menos por 1-0 para apurar-se para a final da prova e anular a desvantagem do jogo da primeira mão (vitória dos franceses por 2-1). O avançado angolano Vata saltou do banco aos 53 minutos e aos 83' marcou o golo do triunfo. 30 anos depois, o DN falou com o grande herói daquela noite, atualmente a residir em Melbourne, na Austrália, para recordar as incidências deste jogo. Nesta entrevista, Vata continua a jurar que o golo foi marcado com o ombro, diz que ainda hoje o cobram por isso e fala da sua vida atual.

Faz este sábado 30 anos do célebre jogo com o Marselha em que o Vata marcou o golo que valeu o apuramento do Benfica para a final da Taça dos Campeões Europeus. Ainda se recorda bem dessa noite e do lance do golo?
Lembro-me perfeitamente do lance, como é que podia esquecer? Aquele jogo valeu ao Benfica uma presença numa final europeia e marcou as nossas carreiras para sempre. Já não faltava muito tempo para o fim, creio que menos de dez minutos. O Valdo cobrou um canto, o Magnusson saltou à minha frente e desviou de cabeça na área e a bola veio ter na minha direção. Meti o ombro e foi golo. Foi uma loucura no estádio. Era ainda na velha Luz, estava cheio, 120 mil pessoas. Foi uma festa tremenda, um ambiente fantástico.

30 anos depois continua a afirmar que o golo não foi marcado com a mão?
[Risos] Sempre a mesma pergunta. Os anos passam e perguntam-me sempre o mesmo. Volta e meia ligam-me, até jornalistas franceses, se calhar na esperança de que a minha versão mude. Amigo, repare uma coisa. Já passou tanto tempo, faz 30 anos agora, não é? Se tivesse sido com a mão, tanto tempo depois, qual seria o problema de eu admitir? Ia mudar alguma coisa? Ia ser preso ou castigado? Não. Então, qual a necessidade que tenho em mentir? Acreditem no que eu digo. Eu digo sempre aquilo que eu faço. Marquei o golo com o ombro. Agora cada um é livre de pensar naquilo que quiser. Nestes 30 anos dormi sempre de consciência tranquila. Vou dizer o mesmo até morrer: marquei com o ombro. Podem dizer o que quiserem. Só eu é que sei. Foi com o ombro.

Mas se tanto tempo depois ainda se fala é porque nem todos corroboram a sua versão...
Foi um momento muito especial. Nós precisávamos daquele golo para vencer o Marselha e apurar o Benfica para a final da Taça dos Campeões Europeus. E eu tive a sorte de o poder marcar. É como eu digo sempre. Se aquele jogo não fosse tão importante ninguém tinha falado disso. Ainda hoje, tantos anos depois, continuam a questionar se foi com mão, com a cabeça, com o ombro, continua a alimentar-se a polémica, porque foi contra um adversário poderoso, num jogo que valia um lugar na final da Taça dos Campeões Europeus.

"Se tivesse sido com a mão, tanto tempo depois, qual seria o problema de eu admitir? Ia mudar alguma coisa? Ia ser preso ou castigado? Não. Então, qual a necessidade que tinha de mentir?"

Hoje em dia ainda recorda e vê muitas vezes o vídeo desse seu grande momento?
Não preciso, sabe porquê? Porque as pessoas estão sempre a falar-me disso. Ainda recentemente. Fiz anos [59] a 19 de março, e nesse dia fui à minha página do Facebook e tinha centenas de mensagens de parabéns. Muitas delas vinham com o vídeo do golo. E isto repete-se todos os anos! Por isso como posso esquecer? Pode perguntar-me, segundo a segundo, toda a jogada do lance do golo, que eu sei descrever.

Os franceses é que nunca mais lhe perdoaram, sobretudo os adeptos do Marselha...
[Risos] É verdade. Parece que ficou sempre marcado neles como um carimbo. Vou-lhe contar uma história. Há uns dois anos estava em Bali [Indonésia] e fui interpelado por dois miúdos, crianças. Eu estava sentado num café e um amigo gritou alto o meu nome. Os miúdos estavam mesmo ali ao meu lado e vieram ter comigo. Perguntaram-me se eu era mesmo o Vata, o jogador de futebol. Eu respondi-lhes que sim e eles não estavam a acreditar. Até me pediram um documento para comprovar a minha identidade. Eu achei aquilo estranho e perguntei-lhes como me conheciam. Um deles contou-me que o pai era do Marselha e tinha ido ver o jogo com o Benfica. E que nesse dia quando chegou a casa bateu na mãe.

Quando saltou do banco e entrou em campo teve algum pressentimento que ia marcar?
Antes do jogo, no balneário, estava sentado no posto médico e o Eriksson veio falar comigo. Disse-me que eu não ia ser titular, mas para estar preparado porque no decorrer do jogo, consoante o resultado, podia precisar de mim. Eu respondi-lhe como sempre: "mister, sem problema nenhum. Qualquer coisa e vou dar tudo o que estiver ao meu alcance para ajudar." Depois, quando terminou o primeiro tempo, eu sabia que podia ser chamado, porque normalmente era sempre a primeira opção quando era preciso desbloquear um resultado. Lembro-me de que o Eusébio veio falar comigo e disse-me: "Estás à espera de quê?" Eu disse-lhe que não podia fazer nada, que o mister é que mandava e que ainda não me tinha dado ordens para entrar. Logo a seguir vejo o Eriksson a acenar-me para me levantar e entrar. Não sei se as pessoas se lembram. Mas nessa época tínhamos jogado com o Marselha, um particular no âmbito da transferência do Mozer. E eu marquei o golo precisamente na mesma baliza.

O Mozer, meio no gozo, disse-me: "Negão, você não vem para aqui para estragar isto, não?" E depois acabei mesmo por estragar-lhes a festa

O Benfica depois acaba por perder a final com o poderoso AC Milan...
Sim, foi em Viena. Era o Milan do Van Basten, do Baresi, do Gullit, do Rijkaard, do Maldini... perdemos por 1-0, um golo do Rijkaard. Eu comecei no banco, mas sabia como de costume que ia entrar. Estava preparado psicologicamente para isso. Agora não consigo dizer se poderia ter sido mais útil ou não se o Eriksson me tivesse posto mais cedo em campo [entrou 76 minutos].

O Vata era uma espécie de arma secreta do Eriksson...
Sim, julgo que sim. Já quando ganhámos o campeonato com o Toni [época 1988-1989] era a mesma coisa. Os meus colegas diziam-me sempre, quando eu entrava, onde devia colocar-me, diziam-me o sítio para onde iam colocar as bolas. Por isso era mais fácil adivinhar onde o Valdo, o Paneira, o Pacheco ou o Abel iam colocar as bolas. Eu sabia sempre. E por isso quando entrava sabia onde devia posicionar-me. No jogo contra o Marselha entrei com a mesma vontade, ou seja, tentar aproveitar ao máximo, ajudar a equipa e se possível com golos. Esse era sempre o meu pensamento.

É verdade que teve um pequeno problema com o Mozer durante o jogo?
[Risos]. Não, nada disso. Éramos amigos, tínhamos jogado juntos no Benfica na época anterior. Quando entrei em campo frente ao Marselha tive um lance com o Sauzé e o Mozer, meio no gozo, disse-me: "Negão, você não vem para aqui para estragar isto, não?" E depois acabei mesmo por estragar-lhes a festa.

Depois do Benfica emigrou e agora está a viver na Austrália, certo?
Andei por muitos sítios. As pessoas lembram-se de mim sobretudo pela minha passagem pelo Benfica. É normal, é um clube grande, marquei aquele golo importante, cheguei a ser o melhor marcador do campeonato português. Depois de sair do Benfica ainda estive mais uns anos em Portugal, no Estrela da Amadora e no Torreense. De seguida fui jogar para Malta e para a Indonésia. Entretanto, fixei-me na Austrália. Ainda regressei a Angola, trabalhei numa equipa angolana, fui presidente e fundador do futebol de praia em Angola. Mas depois em 2014 tive um problema familiar e fui obrigado a regressar à Áustrália. Tive de deixar tudo em Angola para vir ter com os meus filhos. Estou em Melbourne.

Que problema foi esse com os seus filhos?
Estava separado desde 2008. A minha ex-mulher não tinha condições para criar os miúdos e estavam em risco de ser entregues pela Segurança Social daqui a outra família. Por isso larguei tudo em Angola e vim para a Austrália tomar conta dos meus filhos. Na altura, a Evelyn tinha 10 anos e o Sebastian 7. Além destes tenho três mais velhos. O Edemar, que tem 34 anos, o Edson de 30 e o Rúben de 29. Vivem todos aqui na Austrália menos o Rúben, que está em Espanha.

"A minha ex-mulher não tinha condições para criar os miúdos e estavam em risco de ser entregues pela Segurança Social daqui a outra família. Por isso larguei tudo em Angola e vim para a Austrália tomar conta dos meus filhos."

E o que faz atualmente?
Tenho uma escola de futebol para ensinar os miúdos e sou diretor técnico de um clube, o Truganina Hornets.

Continua a acompanhar o futebol português e o Benfica?
Sim, vou acompanhando, sobretudo notícias sobre o Benfica. Vou vendo os resumos dos jogos no YouTube.

Sente saudades de Portugal?
Sim, tenho saudades. Estive em Portugal em 2014 e fui ao Estádio da Luz. Sabe, para sair daqui com os meus filhos preciso de ter autorização da mãe. E por isso é sempre uma grande confusão. Em 2016, por exemplo, o meu pai morreu e eu não podia sair daqui por causa dos meus filhos. Faço de pai e de mãe. Não posso sair para o estrangeiro com eles. Só quando os mais novos forem maiores de idade.

Olhando para este Benfica atual... o Vata tinha lugar nesta equipa?
É difícil de responder, os tempos são outros. O futebol é diferente, é tudo diferente. Mas posso dizer que aquela equipa do Benfica onde eu joguei era mais forte do que esta atual. Tínhamos grandes jogadores, portugueses, brasileiros, e em todas as posições. Hoje, o Benfica também tem alguns bons jogadores, mas é difícil comparar. Naquela altura, talvez o melhor fosse o Valdo, era craque mesmo.

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