Travar os melhores condena-nos à mediania

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Enquanto uns promovem a excelência, motivam o pensamento criativo e empurram os seus para a inovação, por cá continuamos a dar todos os sinais errados. A fazer tudo para impedir que Portugal dê o salto e aproveite o seu talento em pleno - o que acaba por ter por efeito expulsar os melhores, que aqui não encontram portas para um futuro de sucesso ou reconhecimento pelo cumprimento de algo extraordinário.

Basta ouvir quem saiu, escutar as razões que os levaram a cruzar a fronteira, muitas vezes trocando qualidade de vida, segurança, afetos, proximidade e as mil e uma maravilhas que Portugal tem (e tem mesmo!) por destinos muito menos atrativos mas capazes de lhes servir as oportunidades que o nosso país fecha.

Portugal é extraordinário, os portugueses têm talento e qualidade como poucos outros. Mas este é o país que proíbe que os miúdos pensem - antes lhes exige que decorem o que dizem os livros escritos décadas ou séculos antes. Que em lugar de incentivar a leitura livre - fundamental para desenvolver o raciocínio, o espírito crítico, a imaginação -, impõe as escolhas de uns poucos iluminados e num momento em que as pessoas são obrigadas a ficar em casa e até têm mais tempo em mãos fecha as livrarias como locais de residual relevância. Que em vez de premiar os melhores e estimular o desenvolvimento da personalidade e dos talentos nas múltiplas direções que estes podem atingir, quer que todos se sintam iguais. Sacrifica a qualidade que pode estimular outros a trabalhar para chegar ao extraordinário em nome do razoavelzinho de todos.

Não é exagero. Basta dizer que ainda temos por cá regras como as quotas na função pública - não para chamar mais mulheres, não para conduzir profissionais a regiões do país que estão cada vez mais desertificadas, não para conduzir à superação mas para limitar a qualidade. Mais simplesmente, o nosso Estado considera que três quartos dos funcionários públicos não podem ser bons - e a razão não se prende com nada de útil mas com o facto de, se todos superarem os patamares de desempenho, não ter como os fazer progredir ou compensá-los. E é nessa premissa de limite à qualidade que o Estado baseia a avaliação aos seus trabalhadores. Sendo certo que, dentre todos - e vale bem a pena aqui recordar que o Estado é ainda o maior empregador português - só 5% podem ver reconhecido o seu trabalho como excelente.

Enquanto apontarmos ao meio, não sairemos do mais ou menos medíocre.

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