As prisões, a justiça e uma morte

João Rendeiro não terá sabido lidar psicologicamente com a situação com que se viu confrontado, apontam os que acreditam na tese de suicídio. A pressão do julgamento em praça pública, antes da condenação nos tribunais, e, acima de tudo, a passagem de homem todo-poderoso, influente e banqueiro dos ricos a prisioneiro na África do Sul terão levado o português a uma situação limite que culminou na sua morte. Aos 69 anos, e confrontado com um total acumulado que poderia ir além de uma década de cadeia, viu o fim da vida decretado antes de o próprio o ter decidido. Mais: a advogada terá dito que iria deixar de o representar (ainda não se conhecem as razões), terá sido ameaçado por diversas vezes na cadeia, conforme relatou, e a prisão teria más condições para acolher os reclusos.

A juntar a tudo isso, João Rendeiro era um homem solitário, "muito secreto e florentino", dizem velhos amigos, e poderá ter considerado "não valer a pena" continuar a viver. Além disso, "sem filhos nem uma relação atual próxima com a mulher", como também apontam os amigos, poderia não ter a quem se ligar, onde ou em quem encontrar uma razão para viver.

A instituição de Rendeiro era uma butique financeira. O Banco Privado Português (BPP), fundado em 1996 e detido pela Privado Holding, não atendia qualquer um. Exigia um valor mínimo para fazer parte daquele que era considerado uma espécie de clube. João Rendeiro era um dos principais acionistas e ficou ferido quando viu o banco cair na sequência da crise financeira internacional. A instituição acabaria mesmo por perder a licença para operar no dia 16 de abril de 2010 e teve início a sua liquidação. De um dia para o outro, o chão abriu-se debaixo do inteligente e orgulhoso Rendeiro.

O caso do BPP é um caso de polícia. Rendeiro esteve três meses fugido, estava implicado em três processos e foi detido em dezembro. Foi condenado e ficou em prisão preventiva na África do Sul. Nunca quis regressar a Portugal, mas chegou a pedir transferência pelas más condições do estabelecimento prisional naquele país africano, sem sucesso. Aguardava agora decisão sobre a sua extradição, tema sobre o qual teria a primeira audiência ontem.

Rendeiro foi o rosto de um escândalo e crime financeiro. Deixou muitos lesados em sofrimento. Não tem desculpa aos olhos da opinião pública e da justiça. Mas o aparente suicídio - não confirmado até à hora de fecho desta edição - de um detido em plena cadeia dá que pensar sobre as condições das prisões e a forma e a demora da justiça.

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