No USS Mount Whitney as antenas são a arma

Navio vai ser um dos dois centros de comando navais do maior exercício militar da NATO nos últimos 16 anos. Está atracado em Lisboa e tem como destino a Noruega, com passagem pela Islândia. A bordo seguem nove portugueses dos três ramos das Forças Armadas.

No primeiro controlo de segurança para chegar ao navio, o militar deteve a equipa de reportagem do DN por mais tempo do que seria suposto. O rádio portátil do norte-americano experimentou algumas dificuldades. Educado, o marinheiro pediu desculpas e lá deixou seguir para o navio com capacidades únicas de comunicação, ao serviço do Comando de Apoio e Projeção de Forças NATO (STRIKFORNATO), que tem sede em Oeiras.

Visto de fora, o USS Mount Whitney não impressiona. Há navios de guerra maiores. As suas capacidades a nível de defesa e de ataque também não são extraordinárias.

"Este navio não dispõe de grande sistema de armamento. A arma deste navio são as antenas", diz o comandante do navio, Robert Aguilar. "É com elas que permitimos ao comandante ministrar o comando das forças navais, aéreas e terrestres. Com este navio posso contactar um marinheiro, marine, soldado ou aviador em particular em qualquer lugar e falar com ele. São comunicações verdadeiramente globais - e as mais modernas", continua.

A capitanear o navio deste janeiro, Aguilar recorda que só há no mundo outro assim, o Blue Ridge, também da Marinha norte-americana. "Somos uma força multiplicadora para o comandante. Podemos estar perto do local da ação: só precisamos de um navio abastecedor e podemos permanecer no local. Somos um ativo ágil e de longa duração no apoio ao comandante e às suas missões."

Apesar de ter 47 anos, o peso dos anos não é uma questão no USS Mount Whitney. Dotado de antenas HF, VHF e UHF, de comunicações por satélite e pela internet, através de meios confidenciais e não confidenciais, o navio de comando foi atualizado no ano passado. Deverá estar ao serviço até 2039. "Tenho marinheiros a bordo cujos filhos poderão vir a servir neste navio", graceja Aguilar.

Ativo apetecível

Um navio desta natureza não é um alvo apetecível e fácil? "Um dos papéis do pessoal a bordo é assegurarmo-nos de que os outros navios da força-tarefa nos forneçam segurança. Este é um ativo de grande valor que necessita de ser protegido, mas é um entre vários. Parte da estrutura que está aqui presente é para assegurar que temos comandantes a controlar o ar, o mar à superfície e sob ela para nos fornecer proteção", responde o coronel britânico Garth Manger, chefe da Divisão de Operações.

"Este vai ser provavelmente um dos sítios mais seguros da Europa a partir da próxima semana", comentou por sua vez o brigadeiro-general espanhol Andrés Gacio, adjunto do chefe do Estado-Maior para as operações.

O USS Mount Whitney já devia ter seguido para a capital islandesa, mas as condições meteorológicas adversas adiaram a partida para domingo. O navio de comando segue depois para as águas da Noruega. É nesse país - e nas águas do Báltico e do Atlântico Norte - que vai realizar-se o exercício militar Trident Juncture 2018, a partir de dia 25 e até 7 de novembro.

Os 150 marinheiros norte-americanos e os 200 militares de 15 nacionalidades - incluindo nove portugueses - do contingente da STRIKFORNATO fazem parte dos 45 mil militares dos 29 países da Aliança Atlântica e de dois países parceiros, a Finlândia e a Suécia.

Forças marítimas, aéreas, anfíbias, terrestres e de operações especiais vão operar em 150 aeronaves e 60 navios e submarinos e dez mil veículos. "Segundo algumas pessoas, é o maior exercício da NATO desde 1983. Houve um exercício com forças semelhantes em 2002", diz o chefe do Estado-Maior da STRIKFORNATO, o brigadeiro-general Jason Bohm. Números impressionantes. Mas porquê este exercício militar? "Porque o mundo é um lugar incerto e temos de estar preparados para lidar com qualquer adversário potencial", responde Bohm.

"Após a queda da União Soviética e o fim da Guerra Fria - prossegue o norte-americano - tivemos um dividendo de paz, as pessoas sentiram-se mais seguras e pararam de investir nos sistemas de defesa. Mas isso mudou. Vemos uma China em ascensão, uma Rússia a ressurgir e vemos fundamentalistas, há muitas ameaças para as quais temos de estar preparados para nos defendermos."

Jason Bohm, que responde hierarquicamente à vice-almirante Lisa Franchetti, faz questão de lembrar o tipo de exercício em causa: "Há que ser claro: a NATO é uma organização de defesa, não nos preparamos para operações ofensivas, para invadir um país. É estritamente para a nossa defesa."

A Noruega, "um dos países onde as condições meteorológicas e de terreno são muito desafiantes nesta altura do ano", como comenta o brigadeiro-general", ofereceu-se para acolher o exercício e a NATO aceitou. "No ano passado, o nosso maior exercício decorreu no Mediterrâneo e tomámos contacto com os desafios da região. Neste ano queríamos ir para norte. A Noruega está a encarar o Trident Juncture como um exercício de defesa a nível nacional. Vamos entrar pelos terrenos das pessoas e como tal vamos ter o apoio das comunidades locais", diz.

O radarista português

O Comando de Apoio à Projeção de Forças NATO (STRIKFORNATO), criada em 2004 por 12 países aliados e com sede em Oeiras, tem 12 portugueses na estrutura. Nove deles vão a bordo do USS Mount Whitney. Um deles é David Morais. O sargento-ajudante operador radarista de deteção da Força Aérea Portuguesa tem um papel central no exercício.

O sargento Morais gere os data links estáticos, isto é, a passagem de imagens de radar de vários navios que façam parte de uma operação.
"É um trabalho de muito planeamento e que engloba muitos contactos. O inglês é a ferramenta básica para comunicarmos por toda a Europa e com os nossos parceiros norte-americanos", explica. Em termos pessoais, como nasceu e viveu nos Estados Unidos, o domínio da língua de Shakespeare é uma vantagem.

É a segunda vez que este militar da Força Aérea faz uma missão num navio. Mas Morais não nota grandes diferenças entre estar em terra firme ou em alto-mar. "Eu trabalho num bunker por isso não é muito diferente. É óbvio que o sabor do mar nos leva a outras peripécias, mas ao fim de uns dias é fácil a adaptação", assegura.

Sobre o exercício, afirma: "É um treino duro de combate, com troca de experiências de várias unidades e um conhecimento da situação no terreno em que todos nós tenhamos a mesma visão para trabalhar melhor em conjunto."

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