Intercalares norte-americanas: Vaga azul, muro vermelho

Ao assistir à cobertura mediática de acontecimentos como as eleições brasileiras e as midterm elections norte-americanas, pergunto-me se a generalidade dos jornalistas e dos comentadores portugueses viverão no mesmo mundo, falarão a mesma língua e olharão para os mesmos números do que eu. O preconceito perante tudo o que é contrário às suas expectativas é tão grande que as análises chegam a raiar o absurdo.

Na terça-feira, 6 de Novembro, nas eleições intercalares para o Congresso norte-americano, esperavam, naturalmente, uma avassaladora "vaga azul". Não era o que diziam "as sondagens", que, desta vez, não estiveram muito longe da realidade. Grande parte das previsões (incluindo as do Real Clear Politics e as do Five Thirty-Eight) apontava para uma vitória republicana no Senado - mantendo ou alargando a maioria (51/49 lugares), numa eleição em que estavam em jogo 35 lugares, maioritariamente pertencentes a democratas -, e uma vitória democrata na Câmara dos Representantes, onde havia uma total renovação de eleitos.

Se bem que qualquer avaliação final esteja ainda dependente de dúvidas, contagens e recontagens (que,com os apelos judiciais que se prevêem, poderão prolongar-se até Dezembro), no geral, os resultados, corresponderam ao previsto.

No Senado, os casos duvidosos abrangem três lugares - no Arizona, na Florida e no Mississípi. No Arizona, a representante democrata Kyrsten Sinema tem uma ligeira vantagem sobre a representante republicana, Martha McSally; na Florida, o governador Rick Scott vai à frente mas por uma vantagem inferior a ¼ de ponto, o que obriga a recontagem; no Mississípi, como nenhum dos candidatos passou os 50%, terá de haver uma segunda volta no dia 27 de Novembro, esperando-se, entretanto, uma larga vitória da candidata republicana, Cindy Hyde-Smith.

Nos Representantes, há 13 lugares em dúvida, dos quais, segundo o FiveThirty-Eight, dez serão para os Democratas.

Os resultados de dia 6 corresponderam às previsões; até nas nuances, que permitiram a ambas as partes cantar vitória.

Quanto ao governo dos Estados estão ainda por determinar dois governadores: na Florida, onde o republicano Ron DeSantis lidera a contagem sobre o democrata Andrew Gillum por mais de 33 mil votos, mas que irá para recontagem; e na Geórgia, onde há um problema de autenticação de votos, embora o republicano Brian Kemp tenha, por agora, uma maioria confortável.

Assim, e mesmo considerando os casos pendentes, os resultados de dia 6 corresponderam às previsões; até nas nuances, que permitiram a ambas as partes cantar vitória.

O primeiro a fazê-lo foi o presidente Trump que, no seu habitual estilo, proclamou 6 de Novembro "um grande dia". Depois foi a vez de os media liberais e os líderes democratas declararem vitória. Trump sublinhou o aumento de vantagem no Senado e desdramatizou as perdas nos Representantes. Os media e os Democratas sublinharam as contrariedades que uma câmara baixa hostil vai causar ao governo Trump e, sobretudo, às verbas para o governo Trump.

Tentemos uma síntese: é tradicional o partido que está na Casa Branca sofrer uma derrota nas eleições intercalares para o Congresso; é mesmo uma regra com muitas décadas e poucas excepções. Em 1994, com Bill Clinton na Casa Branca (eleito em 1992), os Democratas perderam 58 lugares na Câmara dos Representantes e oito no Senado. Foi a famosa maioria Newt Gingrich no Congresso americano. Em 2010, com Barack Obama presidente, os Democratas perderam 63 lugares nos Representantes e seis no Senado. Perante estas perdas, os resultados dos Republicanos de 6 de Novembro não parecem maus: menos 30 lugares na Câmara dos Representantes e, possivelmente, mais dois no Senado, menos sete governos de Estados mas sem perda da maioria dos governadores (26 Republicanos para 23 Democratas).

Outra vantagem que esta eleição trouxe a Trump foi a auto-depuração do Partido Republicano que agora parece identificar-se mais com ele. Trump ganhou a nomeação em 2016 contra as elites do Partido e levou o Grand Old Party à vitória, mas um núcleo importante de senadores e congressistas, como Bob Corker, Jeff Flake e John McCain, continuavam a ser-lhe hostis. E intelectuais e colunistas conservadores e neoconservadores, como George F. Will e Bill Kristol, foram o ponto de ter pedido agora o voto nos Democratas como forma de combater o presidente. Ora entre os que não se apresentaram e os que perderam os mandatos, esta facção anti-Trump ficou consideravelmente reduzida. Eleito pelo Estado do Utah, pelo seu santuário Mormon, Mitt Romney, o candidato derrotado por Obama em 2012, é talvez dos poucos - senão o único - senador anti-Trump. Com seis senadores de vantagem, o presidente não terá de se preocupar com a aprovação dos seus candidatos a lugares na administração.

É tradicional o partido que está na Casa Branca sofrer uma derrota nas eleições intercalares para o Congresso; é mesmo uma regra com muitas décadas e poucas excepções

Maioritários nos Representantes, os Democratas podem agora regressar ao impeachment, embora seja uma carta que, segundo Nancy Pelosi, não vai sequer querer jogar; mas poderão continuar a escalar o tipo de guerrilha que têm vindo a fazer-lhe: fiscalização de negócios presidenciais anteriores à eleição, acusação de conspiração com os russos, apesar da ausência de provas da existência de um trade-off negociado entre Trump e os russos, com acordo mútuo. No entanto, as formas de luta contra Trump e os Republicanos dividem os Democratas, com uma facção mais activista e esquerdista a querer continuar uma oposição sistemática, e a outra, mais institucional, convencida de que semelhante estratégia pode cansar os eleitores e virar-se contra o partido.

De resto, esta divisão é um problema muito sério que os Democratas vão ter de enfrentar nos dois anos que os separam da próxima eleição e em que vão ter de preparar e disputar as Primárias. O Partido não tem, neste momento, um candidato à Presidência definido mas tão-só meia dúzia de candidatos a candidatos. E tanto não tem liderança que teve de recorrer a Barack Obama para que fizesse pelos democratas o que Trump fez pelos republicanos. Hillary Clinton ainda ameaçou uma ressurreição, mas não teve grande saída.

É importante a tensão entre a nova ala progressista, representada por exemplo, por um Betto O'Rourke, que enfrentou Ted Cruz no Texas, e uma ala mais conservadora, responsável pelo modesto sucesso nos Representantes, ditado pela escolha de candidatos mais conservadores para os distritos mais conservadores. Esta luta pela "alma" democrata promete ser renhida e decisiva.

Quanto a Trump, além de tentar manter bem motivados os seus partidários, vai esperar que a economia continue pujante, que o desemprego se mantenha no nível mais baixo de sempre (ou de há 48 anos) e que as suas iniciativas internacionais não levem a perigosas confrontações.

Professor universitário e autor. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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