Humaneza

Tenho um grande recorde nos jogos de computador, que agora se dizem jogos apenas, que é o de nunca ter conseguido passar um nível de um qualquer jogo de computador, ou jogo, que fosse. Não é fácil. É como alguém licenciar-se com 10 num curso de quarenta cadeiras, ases da regularidade e quem sabe da piedade professoral, manter o nível mais baixo sem qualquer deslize.

Por esta razão gosto muito quando os meus selvagens ultrapassam níveis atrás de níveis na consola. No Mario Kart, exceto o de 3 anos, todos me ganham, mesmo os que não são tão viciados na coisa, porque os que são é voltas e mais voltas de avanço. No outro dia, o F4 estava a dizer-me que na escola já há dois pais que acabaram o Zelda, e que eu nunca vou conseguir acabar o Zelda. Isto porque um dia eu tinha dito que só para irritar esses dois pais, que na altura era só um, também ia acabar o Zelda, mas dentro das coisas que tenho para acabar e não me apetece mais facilmente acabava o doutoramento, mas isto não lhe disse, que não se deve mostrar aos filhos que não acabamos coisas que começámos. Ele também me disse que apesar de dois pais terem acabado o Zelda ainda nenhuma mãe tinha acabado o Zelda. Apesar de lá em casa a melhor jogadora ser uma mulher, a F2, eu disse-lhe que tradicionalmente as mulheres, sobretudo as mais velhas, jogam menos jogos do que os homens. Ele disse que era a humaneza, a humaneza faz as pessoas diferentes, disse ele, as mulheres jogam menos mas jogam muito bem, como a mana. E a minha humaneza é jogar mal, disse eu. A culpa é tua, pai, não vais ver vídeos ao YouTube, ou o que é que achas, que os pais de Z e Y não vão ver vídeos ao YouTube para passar as batalhas? (Ou era obstáculos? Ou era monstros?)

Mas o mais extraordinário da minha humaneza aselha é que não melhora por mais que pratique, é mesmo humaneza. Ainda ontem em Paris passei pela zona onde um dia, quando havia disso, numa casa de jogos, joguei tanto um jogo qualquer que fiquei com uma náusea por vários dias (agora ficava aqui bem uma passagem para a Náusea do Sartre, mas não seria verdadeira).

Mentira, há um jogo em que passo um nível, o Samorost, que já vai no três, em que uma criatura tipo Elf tem de resolver puzzles em quadros bem desenhados, ao contrário da normal estética pouco cuidada, ou demasiado artificial. É todo ele sem palavras, só com uma língua de sons inventados.

Porque agora os jogos estão carregados de palavras. E para um miúdo de 8 ou 9 anos, que pouco percebe de inglês, desenvolve-se uma componente de instinto muito interessante, como gostar de música sem perceber a letra, ou sem prestar atenção a ela, ou prestando mas não compreendendo a letra como texto, mas apenas como rima. Também sou chamado a traduzir Zelda. Pai, o que é que diz ali? Quer comprar o arco de Reifokur... OK, já sei, obrigado.

Por razões que não interessa agora, neste ano tive de escrever uma letra de hip hop de três minutos e meio e não me lembro de ter feito algo tão difícil nos últimos tempos que metesse palavras. Na altura lembrei-me, mas acabei por não escrever sobre isso, que escrever uma letra de uma canção devia fazer parte de um qualquer programa escolar, a cabeça fica em água a ver o cabe na frase, rima e faz sentido. E a procura da rima, foi essa a maior descoberta, obriga a reler e a reouvir as palavras, e a procurar outras que servem tão bem ou melhor. Claro que deve haver milhões de páginas escritas sobre isto, deve haver uma disciplina da poesia sobre isto, mas para mim foi novidade, que nunca tinha pensado nisto. E faltou-me lá a palavra humaneza, que ficava tão bem numa frase com Zelda e beleza.

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