A política e as suas consequências

A situação dos imigrantes em Odemira não é nova, mas revela bem como, por vezes, as autoridades têm a capacidade de fingir que não veem uma realidade à vista de todos. Foram precisas a pandemia e a requisição civil do Zmar para que o verniz estalasse. A imigração é um dossiê na alçada do ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita. Também a situação do imigrante morto às mãos do SEF, o ucraniano Ihor Homeniuk - caso que o DN denunciou e acompanhou detalhadamente -, foi e é um dossiê da Administração Interna, ministério que anunciou uma reestruturação daquele Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Aliás, ainda está por demonstrar que essa proclamada renovação seja suficiente para respeitar realmente os direitos humanos dos imigrantes que chegam ao nosso país. A inabilidade com que estes temas têm sido geridos é gritante e é, cada vez mais, um desconforto político para o governo socialista.

"Têm que se retirar muitas consequências políticas" da situação vivida pelos imigrantes de Odemira, disse Marcelo Rebelo de Sousa. O Presidente da República esteve ontem na região do Minho, no âmbito do roteiro Portugal Próximo, e aos jornalistas falou sobre as condições precárias dos imigrantes em Odemira.

"Acho que se têm de retirar muitas consequências políticas, tem de se fiscalizar para saber como é que é com o respeito pela legalidade, tem de se apurar se há ou não uma situação que convida àquilo que são atuações criminais, tem de se pensar a sério nos problemas dos imigrantes que estão cá, que trabalham. Fala-se na inclusão, mas a inclusão é muito relativa. Isto não pode depender de problemas de saúde que chamam a atenção para o facto", considerou Marcelo Rebelo de Sousa. As consequências políticas de que fala podem traduzir-se em várias formas, e uma delas é, hipoteticamente, a substituição do governante com estas responsabilidades. Alguns analistas políticos apostam as fichas todas numa remodelação governamental logo após a presidência portuguesa da União Europeia. Outros, mais conservadores, preferem relacionar esse eventual movimento com o período pré-eleições autárquicas. Mas estão de acordo num ponto: a fragilidade deste caso é insustentável.

Na recente entrevista ao DN, JN e TSF, o primeiro-ministro disse não desejar uma remodelação do Executivo, mas também admitiu que "houve ministros que tiveram de mudar, por esta ou por aquela razão, e pode acontecer no futuro, mas não sou grande defensor dessas mudanças. Sabe que isto na política não pode ser como naquelas equipas de futebol em que se muda o treinador para dar uma chicotada psicológica".

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