Remodelação antes do Ano Novo ou das autárquicas?

O primeiro-ministro tem estado focado no recente Conselho Europeu - essencial no desbloqueio do pacote financeiro para a recuperação económica de Portugal e de todos os países da União perante a pandemia de 2020 - e na preparação da exigente presidência portuguesa da UE, no primeiro semestre de 2021. Mas António Costa, político experiente, sabe que não pode descurar a governação do país num contexto muito difícil, o que implica garantir a coesão da sua equipa no executivo, além de tentar prevenir ou conter a previsível explosão social decorrente da crise económica e do nível de desemprego - que deverão acentuar-se ainda mais nos próximos meses.

Em Bruxelas, António Costa conseguiu garantir que a chamada bazuca europeia dispare os esperados milhões, mas ainda é preciso esperar pela regulamentação a produzir pelas instituições comunitárias, pois não se trata de passar um cheque para levantar dentro de dias e o prazo de transferência do dinheiro pode não ser aquele que todos gostaríamos para o urgente apoio a empresas e trabalhadores, no curto prazo, enquanto se prepara o futuro pós-covid, com o presente natalício de vacinação à vista. Os países da UE tardaram a reagir na primavera, mas contornaram agora os bloqueios da Hungria e da Polónia e a desconfiança dos chamados frugais nórdicos. A decisão dos políticos europeus está tomada e a resposta da UE dá ânimo, mesmo que ainda falte resolver o dossiê Brexit.

Não menos importante, na frente da política externa, no momento de transição de pasta da Alemanha para Portugal, o primeiro-ministro (PM) demonstra ter a máquina diplomática portuguesa afinada para uma presidência bem-sucedida - como, aliás, aconteceu com anteriores exercícios da presidência rotativa portuguesa da UE nos governos de Sócrates (2007), Guterres (2000) e Cavaco (1992) - mas numa conjuntura, em 2021, de recessão grave, com pandemia e a preparação de recuperação da Europa, ao nível da saúde pública, da economia e da sociedade e das transformações necessárias no ambiente e na energia.

O que parecia mais difícil para o PM parece estar sob controlo. Mas há imprevistos que perturbam a vida do executivo. A preocupação já não é com a oposição à direita ou à esquerda, mas sim com alguns ministros mais frágeis, pelo menos aos olhos da opinião pública, como é o caso de Eduardo Cabrita (Administração Interna), Marta Temido (Saúde), Tiago Brandão Rodrigues (Educação) e Pedro Nuno Santos (Infraestruturas), para não falar de outras pastas que de tão discretas em plena crise causam estranheza e que não acompanham em visibilidade do seu trabalho os ministros Pedro Siza Vieira, Mariana Vieira da Silva, João Leão e Augusto Santos Silva.

A semana de 7 dezembro fica, inesperadamente, marcada por duas dores de cabeça para Costa: Eduardo Cabrita e Pedro Nuno Santos. Começo pelo ministro da Administração Interna que tentou justificar-se numa conferência de imprensa - a propósito do afastamento com meses de atraso da diretora nacional do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) e da investigação jornalística do DN e outros media - da (não) assunção de responsabilidades do Estado português e, em particular, do ministério que ainda dirige à hora de fecho desta edição, na atabalhoada explicação ao país sobre a morte um imigrante às mãos de agentes do SEF, em março.

O ministro Cabrita despediu Cristina Gatões da direção do SEF (mas antes terá tentado colocá-la num posto bem pago em Londres), ainda tentou (com o olhar) o apoio de Mariana Vieira da Silva na penosa exposição aos jornalistas e ainda sofreu fortes críticas de Belém, logo após a sua justificação pública que tardava. Depois de ter comprado uma guerra evitável com o colega da Defesa e com a Marinha, quando deu luz verde à compra de uma lancha pela GNR (matéria que revelámos no DN e sobre a qual o ministro João Gomes Cravinho aqui escreveu), Cabrita sai frágil de tudo isto.

A segunda dor foi causada pelo irreverente Pedro Nuno Santos - desautorizado pelo primeiro-ministro quando tentou forçar a entrada do plano de reestruturação da TAP e a sua discussão na Assembleia da República, antes de ser submetido à Comissão Europeia, no final desta semana. No dia seguinte a ver negada por São Bento a sua tática política de amarrar o parlamento às inevitáveis medidas duras na TAP, o ministro das Infraestruturas (que gere também o dossiê 5G e o novo aeroporto de Lisboa, entre outros temas) explicou o plano ao país, criticando também os media (como fez Cabrita) e a oposição porque, alegadamente, não perceberam as medidas do governo.

Nesta semana intensa, bem tentou Siza Vieira pôr água na fervura, afirmando no parlamento que todo o governo está solidário no plano para a TAP, comparando-a à Autoeuropa. E até o pacote de medidas do ministro da Economia de apoio às empresas (que é explicado no Dinheiro Vivo) quase passou despercebido perante tamanha desorientação, quando é suposto a equipa entrar em campo e unida perante o adversário covid-19.

Agora é uma questão de timing da decisão do primeiro-ministro: ou remodela antes do Ano Novo, refrescando o governo com o OE 2021 aprovado, ou adia a remodelação para o verão, no final da presidência portuguesa da União e antes das eleições autárquicas. Deixar para depois das autárquicas de outubro é confiar demasiado na sorte, a não ser que Cabrita, Santos ou Temido sirvam apenas de escudo a António Costa, que tem uma grave crise económica e social para gerir e tem na tática uns brilharetes para fazer, com apoio da Europa.

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