Nós e a China

O ministro dos Negócios Estrangeiros da China, Wang Yi, falou nesta semana à nata dos dirigentes das empresas norte-americanas estabelecidas no seu país. O foco do seu discurso foi o reatamento do diálogo político entre a China e os Estados Unidos de Joe Biden. Considerou urgente o restabelecimento da comunicação e da confiança mútuas. Deu a entender que era tempo de ultrapassar a falta de objetividade e de racionalidade que haviam marcado a governação de Donald Trump. Fora a referência à linha vermelha da não ingerência nos assuntos internos chineses - ou seja, Beijing não quer que lhe falem de direitos humanos -, a sua comunicação refletiu uma linha oficial positiva e apaziguadora.

No mesmíssimo dia em que Wang discursou, Washington acrescentou 14 personalidades chinesas à lista dos sancionados por motivos da repressão em Hong Kong. E, de seguida, o secretário do Comércio norte-americano, Wilbur Ross, defendeu em Singapura, perante uma plateia de líderes da região, que a China seria a principal ameaça militar e económica para os países da Ásia. Esta afirmação é coerente com a intenção que a equipa de Trump tem de criar um facto consumado que condicione a política de Biden em relação à China. E eu diria que está a conseguir reduzir, pelo menos por algum tempo, o espaço de manobra da nova administração. Uma boa parte da opinião pública e da classe política norte-americana revê-se na posição ideológica de hostilidade em relação à China.

Dias antes, John Ratcliffe, o diretor da Inteligência Nacional americana e, como tal, o coordenador supremo das 17 agências de espionagem e contraespionagem do país, havia publicado uma opinião sobre a China no The Wall Street Journal. Dado o seu autor, o texto atraiu muita atenção. A música era a mesma e o título do artigo resumia tudo: "A China é ameaça n.º 1 para a segurança nacional". No corpo do texto ia mais longe, ao afirmar que a China seria igualmente o maior perigo para a democracia e a liberdade mundiais. O resto do escrito era uma amálgama que confundia competição económica, legitimamente exercida ou baseada em ações sub-reptícias, com ambições hegemónicas, sem se diferenciar bem o que seria do domínio da segurança nacional, do anedótico ou tão-só do interesse das multinacionais americanas.

O legado que Trump procura deixar nesta matéria também se destina a condicionar os europeus. Já o está a conseguir na NATO. O grupo de peritos criado pelo secretário-geral para refletir sobre a NATO para o horizonte 2030 é copresidido pelo americano Wess Mitchell, um intelectual tão querido de Trump quão hostil em relação a Beijing. O documento que o grupo produziu, em discussão pelos ministros dos Negócios Estrangeiros da Aliança desde o início deste mês, refere-se à China como um "desafio intenso".

Contudo, a Europa não pode olhar para a China apenas pelo prisma único fornecido pelos americanos. Os nossos interesses e a nossa implantação geopolítica são diferentes. Também não estamos numa corrida ao poderio militar nem temos os motores dos porta-aviões chineses a roncar por águas que nos são vizinhas. Sabemos, por outro lado, que não se pode colocar todos os riscos no mesmo saco. Cada ameaça, seja ela militar, de desestabilização política, de espionagem científica, tecnológica ou económica, do campo da propriedade intelectual ou da concorrência desleal, exige um tratamento específico.

No caso europeu, a atenção deve centrar-se em três temas. Primeiro, no combate à espionagem, à intrusão e aos roubos ligados aos avanços científicos e tecnológicos. Os serviços de inteligência europeus devem preparar-se para essa tarefa e cooperar mais intimamente entre si. Segundo, haverá que definir um quadro de referência comum, que dê coerência à maneira como os estados europeus se relacionam com a política e a economia da China. Dito de outro modo, isto significa que as relações oportunistas, e fora desse quadro, entre países membros da UE e a China, deverão ser consideradas inaceitáveis. Terceiro e acima de tudo, a UE deve afirmar claramente que a cooperação é a única via desejável. Assim, sem pôr em causa a nossa aliança com os EUA e sem esquecer que em Beijing manda uma ditadura, o diálogo político com a China deve procurar o benefício mútuo, a promoção dos direitos e dos valores universais e a cooperação no ataque aos grandes desafios globais.

Conselheiro em Segurança Internacional.
Ex-representante especial da ONU

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