O lado lunar dos festivais de verão

Festival" deriva da palavra "festa" e originariamente denominava uma ocasião especial em que se celebravam datas religiosas. A realidade de hoje evidencia claramente um significado diferente. Abandonados os deuses, atualmente a centralidade da celebração num festival de verão está no vivenciar de um momento e de uma experiência que o marketing assegura serem tão divinos e transcendentes como as noites quentes ao luar e no seio da natureza.

Uma breve passagem do diário de um dia, de um dos festivais de verão, começava assim: "Acordei cedo ao som de jambés e cânticos típicos das tribos de pigmeus da Oceânia. Abri a tenda e contemplei a beleza da natureza, respirei o ar puro e acendi um cigarro." E continuava "(...) Fui meditar, ao meu lado estavam um budista, um ateu, um católico, um muçulmano, é bonito ver que deixamos as diferenças de lado..."

A minha conclusão imediata é que os festivais são promotores da diversidade cultural. São palco de experimentação de novas formas e conceitos na arte (com ênfase na música), na dança, na gastronomia e não só. Inegável também é o seu papel de motor económico - são fonte de receita inquestionável para variados setores da economia. Há um matiz sociológico que sobressai, mesmo que por vezes esquecido: os festivais, transversalmente, podem constituir tanto um ritual de iniciação como um ritual de libertação. Quem já foi a um festival de verão conhece a atmosfera de exposição a novas experiências sensoriais, novos conhecimentos e liberdades. E quem nunca assistiu ao efusivo stream de emoções que flui de um adolescente quando é autorizado pelos pais, a ir pela primeira vez sozinho a um festival? Faz lembrar a concessão de liberdade, quase ritualística, que era no Portugal dos anos oitenta, a conquista da permissão para ir aos grandes concertos de música nos estádios de futebol...

Mas, tal como a Lua, também os festivais têm um lado oculto. Pois sem ocultação possível é o risco associado aos festivais enquanto potenciais facilitadores de comportamentos autodestrutivos, em que se destacam o recurso a substâncias psicoativas não controladas e o abuso do álcool. Inegável é, também, que os festivais podem ser fontes de receita da economia paralela e do tráfico. Quem já foi a um festival conhece também a atmosfera propícia à experimentação sensorial sem regras que, por um lapso momentâneo de decisão, pode originar problemas de saúde que põem em risco, por vezes, até a própria vida. E quem nunca assistiu às imagens de adolescentes (e até adultos) a serem socorridos nos festivais, devido a excessos cometidos?

Em face de tudo isto, o que nos une, enquanto pais, educadores, responsáveis políticos, profissionais e cidadãos? Talvez a consciência de que, tal como as consequências de um momento podem durar uma vida inteira, também as consequências de uma medida afetam várias vidas. E não devemos, à partida, recusar a quietude de quem deliberadamente ignora a valência oculta da realidade destas questões.

Nesse espírito, atrevo-me a afirmar que os festivais de verão são, afinal, uma oportunidade. Uma oportunidade para a adoção de medidas como a recentemente adotada pelo SICAD. A presença de uma equipa do Ministério da Saúde no último Boom Festival, em Idanha-a-Nova, para avaliar a qualidade e a pureza das substâncias consumidas. Em defesa da saúde, optou-se pela sinceridade da estratégia da minimização de danos. Sempre numa lógica dialógica e sinergética, creio que o caminho a seguir é mesmo este - o da inquietude institucional que subjaz a medidas como esta. Não é apenas transformando dados em conhecimento que se consegue medidas que ajudem à redução de riscos. É também através da revisão cíclica e estratégica de pressupostos, objetivos e modelos de coordenação. É que a Lua e os festivais são para continuar.

Deputada do PS (Escreve de acordo com a antiga ortografia)

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