O caso da password promíscua

Uma vez, há mais de 30 anos, estava eu a escrever para o jornal Le Monde e fui fazer uma reportagem ao Parlamento português. Era sexta de manhã e assinalei ao fotógrafo este e aquele deputado nortenho a assinar a folha de presenças. Depois, a nossa equipa de reportagem foi para Santa Apolónia onde apanhámos o comboio do meio da manhã para o Porto. E quem lá ia? Claro, vários deputados, de vários partidos, estranhamente a caminho de casa, quando acabavam de deixar testemunho assinado de que estavam, àquela hora, em trabalho parlamentar na capital.

O jornal para o qual eu escrevia, lembro-me agora, não era o Le Monde, onde nunca trabalhei, mas o Tal&Qual, onde trabalhei. Não sei se esta minha mentirinha, pois trata-se de uma, não foi mero truque jornalístico para aclimatar o leitor ao tema que hoje para aqui trago - as mentirinhas, justamente. Ou talvez tenha sido mesmo uma mentira sincera, tipo mestrados falsos e currículos martelados, fraqueza tão lusitana, e eu tenha apostado em deixar o leitor (pelo menos os que desistiram ao fim do primeiro parágrafo) com a ideia de que já trabalhei para o internacionalmente prestigiado Le Monde, em vez do simpático e modesto T&Q.

Por falar em mentirinhas: no Parlamento, como sempre, continua-se a assinar e pisgar. Terá havido sempre deputados retos como Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda - esse, aliás, nem assinava, dava a palavra ao hemiciclo de que ele estava ali e que não sairia antes do fim dos trabalhos e ai de quem nas Cortes o desmentisse. No entanto, até anjos desses caem, como Camilo lembrou em título. Mas a tradição deste mentir há de persistir até porque a prova de vida do parlamentar no Parlamento ludibria cada vez mais facilmente. Antes ainda era necessária a palavra solene de Calisto, depois a assinatura dos deputados - em ambos os casos, factos de difícil imitação - mas hoje a marca pessoal é uma volátil palavra-passe. Que se passa a quem calhar.

E chegámos ao caso que começou por ser de José Silvano, o deputado dado como estando no Parlamento, em dois dias, e não esteve, e passou para o caso de Emília Cerqueira, a deputada correligionária que assumiu ser culpa dela, mas que, rematou ela, não foi culpa. Explique-se: a deputada Cerqueira, naqueles dois dias fatídicos, acedeu a um terminal do plenário com a password de Silvano e, por esse facto, acionou a presença dele... Mulher do Alto Minho, como a própria se qualificou, mostrou em tom ralhado que não leva insultos para lá da margem norte do rio Lima. Ficou também a interpelação dela: quem nunca usou uma password alheia que atire a primeira pen!

Eu fico sempre convencido com as pessoas perentórias. Pelo menos ficava, quando a palavra se escrevia "peremptória" e era mais perentória por isso. Hoje, as ganas, mesmo de uma mulher do Alto Minho, deixam-me mais cético (não tão cético como antigamente, quando se escrevia "céptico", mas ainda assim cético). Vai daí, recorri ao meu método para me curar de um espanto: de que estamos a falar quando estamos a falar? Isto é, de que password falava a deputada Emília Cerqueira?

Àquela "eh pá, prime 3-4-A-C, sobe, é no terceiro!", que o meu amigo Armando, ocupado na cozinha, compartilha comigo quando lhe telefono para saber do abre-te sésamo da sua porta de entrada? Quer dizer, também não é muito prudente o Armando dizer a password do prédio por telefone quando as escutas hoje estão tão generalizadas. Mas, pronto, vamos confiar que o tipo das escutas é só curioso, não larápio de apartamentos. À Emília, o Armando tinha de aquiescer, "sim, também eu já partilhei", mas não era a essas passwords que a deputada Cerqueira se referia.

Ela falava da fornecida pelo Parlamento a cada um dos eleitos, e é "pessoal e intransmissível", como ficou nesta semana definido pelo presidente da Assembleia da República. E justamente pessoal e intransmissível, como cada deputado sabe porque uma das funções da password é automaticamente registar a presença de um deputado quando ela permite aceder ao sistema através de um terminal qualquer. Então, quando, relembro, o caso aqui é o deputado Silvano ter sido dado com presente quando não estava, porquê o desvio da conversa para uma confusão entre passwords e passwords?

Freud explica. Não é que ele explique tudo, mas há coisas simples que ele tornou..., ele tornou..., isso, simples. Escreveu algures, não sei exatamente onde (sou um tipo simples, até escrevi no Tal&Qual, já vos tinha dito?), que muitas explicações são um sintoma de não ter nenhuma. E deu o exemplo de um homem exigir ao vizinho a devolução de uma panela. Negou o vizinho: "Não devolvo, até porque não me emprestaste panela nenhuma e, aliás, quando ma deste ela vinha partida e, já agora, se queres saber tudo, já ta devolvi há muito!"

Ok, José Silvano esteve no Parlamento naqueles dois dias, quer dizer, não esteve mas era como se estivesse e a prova é que a presença da password é inquestionável, porque naqueles dois dias ela foi eletronicamente lá vista, e se ela esteve, Silvano também, porque a password é intransmissível.

Continuem assim e um dia vão dar-se conta de um acesso repentino.

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