Portugal 20-30. Habituem-se à nova sigla VEPRESP!

A preparação para a retoma tem de começar agora a desenhar-se. É importante dar esperança aos agentes económicos que estão, ainda e na sua maioria, ligados ao ventilador. Tal como os laboratórios das farmacêuticas vão trabalhando arduamente na preparação e descoberta da vacina, também os economistas, os gestores e o Governo (e, de preferência, envolvendo a oposição) devem preparar, no laboratório, os ingredientes certos para combater a recessão e lançar as bases para a retoma económica.

Nada fazer é como nada investir na procura de uma vacina. E, como se sabe na área da saúde, a prevenção para as doenças é o melhor remédio. VEPRESP é a vacina em que o Governo aposta. Concebida com boas ideias e intenções e por um "médico" especialista, VEPRESP é a sigla para Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica e Social de Portugal 2020-2030.

Desta vacina faz parte um ingrediente polémico, com leituras ideológicas: intervenção do Estado na economia. É fácil criticar essa intervenção e defender que os mercados devem funcionar sozinhos, os privados atuar por si e o Estado desaparecer da receita da vacina. É fácil e há muitos que aplaudem esse discurso. Mas será sério, em plena pandemia e perante uma das mais graves crises da história mundial e de Portugal, defender uma vacina sem a intervenção temporária do Estado?

Todos terão de cumprir a sua parte para sairmos deste marasmo económico e reativarmos o país. Nem o Estado pode ajudar empresas que já estavam falidas antes da pandemia (ou só porque são incumbentes consideram ter direitos adquiridos), nem as empresas podem sair sozinhas deste apagão. Um exemplo simples: o que seria de boa parte delas (rentáveis e competitivas) se não tivessem tido acesso ao lay-off?

Apontar o dedo a quem quer fazer, a quem não se resigna, a quem inova, a quem arrisca prever o que aí vem, é fácil. Mas será sério criticar negativamente, em vez de tentar contribuir para uma empresa, uma instituição ou um país melhor?

É importante sabermos para onde queremos ir. Aposta na ferrovia, investimento da reindustrialização do país, instrumentos para a recapitalização das empresas, melhor e mais desburocratização da administração pública, aposta na saúde, no turismo de qualidade, foco numa política que combata as desigualdades sociais e noutra política que desenhe uma transição energética inteligente são ingredientes da VEPRESP. A vacina, criada por António Costa Silva (presidente da Partex e escolhido pelo Governo para traçar a estratégia para a retoma) parece ter a composição certa. Agora é preciso conhecer quanto custa, se a conseguimos pagar e perceber também quantas doses e em que datas tem de ser tomada para surtir efeito.

É importante pensar na vacina com um duplo dividendo, para a economia e para a sociedade. A saúde dos homens depende da saúde do planeta, e este começa na nossa casa: Portugal.
A economia e a saúde precisam ainda de talento, e esta área não é nem pode ser esquecida. A VEPRESP também inclui uma dose de talento. Na versão preliminar, a qualificação dos recursos humanos portugueses está lá. Reforçar as qualificações e as competências das pessoas para que possam competir no mercado de trabalho não só nacional, mas global, é crucial. Durante a última semana realizaram-se mais exames nacionais para acesso ao ensino superior e para a semana há mais. As competências comportamentais (soft skills) e as competências digitais ainda não são vistas nem achadas no ensino nem nos exames. Enquanto o ensino continuar a valorizar e avaliar o mesmo que aprenderam os nossos pais, de pouco se avança. A potencial vacina VEPRESP também deve incluir estas áreas para ter eficácia terapêutica.

Jornalista

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG