O fim de Freud (1.ª parte – Viena )

Nunca como naquela terça-feira a hipótese de suicídio lhe pareceu tão nítida e convidativa.

A princesa tinha um cão que estava doente. Topsy, assim se chamava o bicho, era o chow-chow de estimação da sobrinha-bisneta de Napoleão, Marie Bonaparte, que até escreveu um livro sobre o cão, Topsy, Chow-Chow au Poil d'Or.

E ele, que também estava doente, como o cão, começou a traduzir o livro da princesa do francês para o alemão.

Por cruel ironia, ele e o cão padeciam do mesmo mal, um cancro da boca, no lado direito. E foram ambos operados, submeteram-se a tratamentos por raios X e por rádio.

A princesa teve até alguma vergonha, não muita, de levar o cão a uma clínica para seres humanos. E ficou horrorizada ao saber que teria de o sujeitar a um regime severo, privando-o das guloseimas que Topsy mais apreciava.

O certo é que, ao que parece, o cão ficou curado do cancro e a princesa Bonaparte, doida de alegria, escreveu um livro sobre o feliz sucesso.

Que Sigmund Freud e a sua filha Anna, nada dados a acessos de sentimentalismo, tenham-se posto a traduzir um livro daqueles é algo que se explica, desde logo, pela ligação profunda da família Freud à princesa Bonaparte, mas, acima de tudo, por duas outras razões: o cancro e o cão.

Em Fevereiro de 1923, Freud detectou um inchaço na boca, uma leucoplaquia, que atribuiu - e bem - ao consumo imoderado de charutos, mas que decidiu - e mal - não comunicar a ninguém, para que o não maçassem com conselhos para deixar de fumar. Em Abril, confidenciou ao fiel discípulo Ernest Jones que tinha um tumor benigno na boca e o dermatologista que consultou aconselhou-o - e bem - a deixar de fumar, mas resolveu - e mal - ocultar-lhe o rápido crescimento do neoplasma. Mesmo o médico a que foi a seguir optou pelo eufemismo, falando numa "leucoplaquia má", mas Freud percebeu que algo de muito grave se passava. Acabou por ser operado por um terceiro clínico, que lhe removeu o tumor e reconstruiu o maxilar, mas que, uma vez mais, escondeu o nome da doença e açucarou o diagnóstico com (justificado) receio de que Freud se suicidasse.

A outra razão era o cão. Em 1928, sabendo já estar doente de cancro, Sigmund comprou uma cadela chow-chow chamada Lun-Yug à americana Dorothy Burlingham, que se notabilizará como psicanalista infantil e como amiga muito íntima de Anna Freud. Uns meses depois, a cadela Lun-Yug desapareceu na estação de comboios de Salzburgo, enquanto a transportavam para Viena, e, passados alguns dias, foi encontrada morta na linha ferroviária. Em 1930, Freud decidiu adquirir uma nova cadelinha chow-chow, Jo-Fi, irmã de Lun-Yug, que se tornaria famosa por passar longas horas sentada aos pés do dono enquanto este mergulhava nos abismos de alma dos seus pacientes, que lhe contavam as suas fantasias sexuais deitados num divã coberto por tapetes persas e almofadões de veludo (a partir da década de 1940, não muitos anos depois de Freud morrer, a Leather Furniture Company, uma empresa de Queens, Nova Iorque, faria bom dinheiro a comercializar sofás especiais para a prática de psicanálise).

A clientela do psicanalista ficava arrepiada com o odor característico do seu consultório, uma combinação explosiva de cheiro a cão peludo e a fumo de charuto (em média, 20 charutos por dia), mesclado com a fragrância própria de têxteis impregnados do suor e lágrimas de várias gerações de doentes do espírito. Mas o doutor Freud não só tinha o vício do tabaco como amava loucamente a sua chow-chow felpuda, pelo que os que queriam ter o privilégio de uma consulta no n.º 19 da Berggasse já sabiam o que os esperava. Um deles, um poeta norte-americano conhecido apenas pelas iniciais H.D., ficou deleitado com Jo-Fi, "uma criaturinha com ares de leão", mas, um dia, confessou ao seu diário que saíra do consultório algo agastado, ao ter a nítida sensação de que, durante todo o tempo da sessão, Freud esteve muito mais interessado nos humores da cadelinha do que nos traumas de infância do seu paciente.

Em Janeiro de 1937, Jo-Fi deu entrada numa clínica para uma operação rotineira de remoção de um par de quistos nos ovários. Dias depois, inexplicavelmente, teve um ataque cardíaco e morreu. O pai da psicanálise ficou devastado, a ponto de escrever ao seu amigo Arnold Zweig (escritor, pacifista e socialista alemão, sem qualquer relação de parentesco com Stefan Zweig), que "não era fácil ultrapassar sete anos de intimidade com alguém". Para superar a terrível perda, no dia seguinte comprou logo outro cão, o chow-chow Lün. Melhor dizendo, Lün já tinha sido seu, mas, por causa dos ciúmes da favorita Jo-Fi, teve de ser devolvido à procedência, isto é, a casa da discípula Dorothy Burlingham.

Indiferentes a estes psicodramas caninos, os nazis resolveram anexar a Áustria em Março de 1938. Mas nem o Anschluss demoveria Freud da sua paixão zoófila. O autor de Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade acreditava que os cães tinham uma natureza totalmente pura, não corrompida pela civilização, e sobre o chow-chow de Marie Bonaparte dirá que não era difícil explicar o amor de um ser humano por um cão como aquele, "pelo seu afecto incondicional, destituído de ambivalências, pela simplicidade de uma vida liberta dos insuportáveis conflitos da civilização, pela beleza de uma existência completa em si mesma".

Ao entregar-se à tradução de um livro sobre o cão de raça de uma princesa - ou, se preferirmos, de um livro de uma princesa sobre o seu cão de raça -, Sigmund e Anna Freud terão certamente pensado, mesmo que jamais o hajam dito, que ele poderia ter um destino semelhante ao de Topsy e salvar-se do tumor que o corroía. Até nós nos interrogamos sobre a singular circunstância de um cão ter fintado a morte, mas ele não. Depois de mais 30 cirurgias e de uma longa agonia de 16 anos, foi talvez um desfecho injusto, injustíssimo, tão ou mais injusto como ter sido doze vezes nomeado para o Nobel da Medicina e uma para o da Literatura e nunca ter ganho o prémio, ou de o livro que ele considerava a sua obra mais importante, A Interpretação dos Sonhos, ter vendido umas míseras 351 cópias nos primeiros seis anos após a publicação.

Em todo o caso, o mais admirável da história é que em momento algum Freud perdeu o bom humor ou censurou a sorte. Chegou a gracejar com a princesa e perguntar-lhe, numa das cartas, se Topsy iria ler a tradução em que ele e a filha estavam a trabalhar com tanto afinco, todas as noites, no escritório pestilento, quando o tempo e a vida lhe escapavam a cada instante e quando sobre a sua família e o seu povo pesava uma ameaça bem mais maligna do que o mais maligno dos cancros.

A 9 de Abril de 1938, o dia em que Adolf Hitler entrou triunfalmente em Viena de Áustria, Sigmund Freud anotou no seu diário, sem mais: "Tradução de Topsy concluída." Poucos dias antes, em final de Março, a Gestapo tinha estado no n.º 19 da Berggasse e levara Anna. Anna, a mais nova, a mais amada, aquela que, dos seis filhos de Sigmund Schlomo Freud, este considerava ser a única capaz de lhe seguir as pisadas e continuar a obra. Anna, que desistira de tudo para se dedicar ao pai, uma opção de vida que Freud talvez devesse ter questionado à luz das suas próprias teorias, mas que, ao invés, alimentou em termos não muito sadios.

Anna converteu-se em sua paciente, confessava-lhe todas as suas fantasias eróticas e as suas primeiras incursões na masturbação, Sigmund tornou-se um pai hiperprotector, que, quando ela chegou aos 20 anos e começou a despertar o interesse dos homens, insistiu que era nova de mais para casar. Num dia em que Anna o abandonou para um curto período de férias, Freud escreveu à amiga Lou Andreas-Salomé dizendo que compreendia que a filha estivesse farta de estar confinada em casa na companhia de dois velhos, ele e Martha, mas que, ao mesmo tempo, se ressentia por estar privado da sua companhia, que o ajudava em tudo, desde os trabalhos intelectuais aos cuidados de saúde e de higiene.

Pondo-se no lugar da mãe, num interessante complô freudiano, era Anna que o auxiliava na leitura e na escrita, que lhe dava os remédios a horas, que lhe removia a dolorosa prótese do maxilar, que indagava a todo o instante se Sigmund estava bem e se sentia confortável.

Ao contrário do que muitas vezes se julga, os nazis não eram, ou não começaram por ser, inimigos da psicanálise. Quando alcançaram o poder, em 1933, não encerraram o Instituto de Psicanálise de Berlim, como seria de esperar. O que fizeram, sim, foi despedir, naturalmente, todos os analistas judeus e colocar à frente no Instituto um primo de Hermann Göring, o psiquiatra e neurologista Matthias Göring, que, apesar de ser da linha adleriana, crítica de Freud, não descartava o legado do mestre vienense, considerando-o excessivamente materialista e pansexualista mas não inteiramente destituído de fundamento.

Com o tempo, as coisas iriam mudar, sem dúvida, mas nos seus alvores o nazismo entendia que a psicanálise era uma "ciência judaica" e, como tal, susceptível de explicar as muitas e muito antigas taras do povo semita. Carl Jung, o antigo e bem-amado discípulo de Freud, chegou a afirmar que o "inconsciente colectivo ariano" tinha muito mais potencialidades do que o judaico, pois era mais jovem e mais vigoroso, e, ao contrário deste, não estava ainda corrompido por milénios de barbárie.
Quando a Gestapo prendeu Anna Freud, fê-lo por suspeitar de que a Associação Psicanalítica Internacional era uma organização de fachada de um vasto movimento sionista e antinazi.

Naturalmente, visavam o alvo principal, Sigmund, mas Anna convenceu-os, com uma ponta de razão, de que o estado de saúde do pai não lhe permitia deslocar-se ao quartel-general da Gestapo e que um interrogatório na polícia poderia ser fatal, um risco que os nazis não estavam dispostos a correr. Quando entraram na casa de Freud, aliás, Marie Bonaparte estava lá, preparada para o pior, e ofereceu-se corajosamente para ser levada em lugar de Sigmund ou de Anna, mas os homens da Gestapo, como é óbvio, descartaram a possibilidade de prender uma sobrinha-bisneta de Napoleão Bonaparte, casada com o príncipe Jorge, irmão do rei Constantino da Grécia e primo de Cristiano X, monarca da Dinamarca.

Antes de Anna sair de casa, Max Schur, o médico pessoal de Freud, que estava no local, deu-lhe uma dose de Veronal, um veneno potente para a eventualidade de querer suicidar-se na sede da polícia, se acaso os nazis começassem a torturá-la, o que não aconteceu. Sigmund nunca soube deste gesto do seu médico assistente, que decerto teria asperamente censurado. Em contrapartida, foi ele que, nas longas horas de espera pelo regresso de Anna, fumando charuto atrás de charuto, mais pensou em suicidar-se. Não era a primeira vez que o fazia e, naqueles anos todos de cruciante luta com o cancro, em várias ocasiões ponderou terminar a vida. Mas nunca como naquela terça-feira, 22 de Março, a hipótese de suicídio lhe pareceu tão nítida e convidativa.
Anna retornou ilesa e, dias depois, os Freud recebiam uma boa notícia: Ernest Jones, que estivera em Inglaterra em contactos ao mais alto nível, chegou de Londres com a informação de que o Governo britânico lhes dava autorização de entrada, não apenas para os membros da família como para outros psicanalistas de Viena. Era tempo de fazer as malas.

O dia 17 de Abril, que marcava o 52.º aniversário do início da sua prática como psicanalista, foi ensombrado pela triste constatação de que Freud não mais teria capacidades para atender pacientes. Despedira-se dos dois últimos não muito depois do Anschluss, agora começava a tentar ordenar as coisas para a partida definitiva, em mais do que um sentido. A 19 de Abril, ofereceu ao seu irmão Alexander o stock de charutos, guardando naturalmente alguns para o seu consumo. Freud não era apenas um fumador inveterado, era um apologista dos prazeres do fumo, que cultivou até à morte. Também o seu pai fora um grande fumador até morrer, com 81 anos, e, quando um sobrinho de Freud fez 17 anos, este ofereceu-lhe o primeiro cigarro, que o jovem declinou. O psicanalista deu-lhe então um conselho muito pouco clínico: "Meu rapaz, fumar é um dos maiores e mais baratos prazeres da vida, mas, se decidiste não fumar, só posso ter pena por ti."

Para Sigmund Freud , o acto de fumar era "uma protecção e uma arma no combate da vida".
Agora, sob a pressão da doença e dos nazis, precisava de fumar mais do que nunca. Em Janeiro daquele ano, foi sujeito a mais uma operação, esta particularmente difícil e brutal, pois o tumor avançara para uma região de difícil acesso, na cavidade ocular, e o cirurgião teve de criar um instrumento próprio para a alcançar. Um mês depois, nova operação, enquanto o espectro de Hitler, como um tumor maligno, ia avançando rumo a Viena.

A Freud, porém, nunca faltaram os apoios, alguns deles de peso. Da América, nação que odiava, veio um auxílio decisivo: a 10 de Março, o encarregado de negócios da embaixada norte-americana em Viena deslocou-se a casa do psicanalista para o informar de que os Estados Unidos tudo fariam para o proteger. Freud gozava de imensa reputação no país, era uma figura popular a quem o director do Chicago Tribune oferecera 25 mil dólares para ir a Chicago analisar dois assassinos famosos, Leopold e Loeb, ou a quem o produtor cinematográfico Samuel Goldwyn prometera a astronómica quantia de cem mil dólares para ir viver para Hollywood e colaborar na feitura de filmes (afinal de contas, gracejava Goldwyn, quem sabia mais do que Freud sobre o amor e o riso, os dois ingredientes do cinema?).

Apesar de viver em constantes apertos financeiros, Freud recusara as duas propostas milionárias, mas nem isso fez esmorecer o fascínio dos americanos pela sua obra e, mais do que isso, pela sua figura de cavalheiro burguês, convencional e conservador, sempre impecavelmente vestido no seu fato de três peças, que descobrira os mistérios da alma e se movia com total à vontade nas mais aberrantes fantasias da mente humana. Agora, até o presidente Roosevelt se interessava pelo seu destino.

Na manhã de 12 de Março, os jornais anunciavam a chegada ao poder de um nazi tido por moderado, Arthur Seyss-Inquart. Freud anotou no seu diário, lacónica e certeiramente: "Finis Austria." À noite, ao percorrer os vespertinos, teve um acesso de cólera absolutamente invulgar no seu temperamento e Martin, um dos seus filhos, ficou estupefacto ao ver o pai enfurecido a atirar os jornais para o chão da sala. No dia seguinte, enquanto Hitler anunciava aos cidadãos de Viena a anexação da Áustria pela Alemanha, um bando de nazis invadiu os escritórios da Internationaler Psychoanalytischer Verlag, a casa editorial que Freud fundara em 1919 para publicar as suas obras e as de outros psicanalistas. Martin Freud, entretanto chegado ao local, chegou a ser ameaçado com uma pistola, e só mais tarde veio a saber-se que aqueles esbirros de Hitler não passavam de um gangue de pequenos criminosos do submundo de Viena. Em todo o caso, todos os livros foram apreendidos e vasculharam-se os arquivos em busca de provas incriminadoras.

Freud, como muitos cidadãos austríacos, tinha depósitos em contas bancárias no estrangeiro, o que, se fosse descoberto pelos nazis, teria levado ao seu confisco imediato e até, porventura, à prisão do psicanalista e da sua família. A sorte de todos estava nas mãos de uma figura enigmática, singularíssima: Anton Sauerwald, um doutorado em Química pela Universidade de Viena que há muito colaborava com a polícia em casos com explosivos e que os nazis nomearam, logo a seguir ao Anschluss, como comissário do Reich para tratar dos assuntos relacionados com os negócios judaicos na capital austríaca.

Dele dependia agora o destino de Sigmund Freud.
(Continua)

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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