"Há milhares de inquéritos epidemiológicos por concluir"

O confinamento já é dado como inevitável, mas o presidente da Associação dos Médicos de Saúde Pública diz que não basta. É preciso o reforço de recursos humanos prometido para se travar cadeias de transmissão, pois "só assim se evita mais infetados". Na medicina intensiva, o médico Pedro Póvoa defende o confinamento, não pelo SNS, mas para que as pessoas sejam bem tratadas.

Em sete dias, Portugal registou 56 435 novos casos de covid-19 e 685 mortos, muito mais do que nos primeiros meses de pandemia. Os números não deixam margem de manobra e algo tem de ser feito. O confinamento parece ser inevitável, o governo já o admitiu, depois da ronda com os partidos, e o Presidente da República também.

Na quarta-feira o parlamento deverá aprovar um novo confinamento total, depois de o assunto ter sido mais uma vez debatido em reunião com peritos no Infarmed. Há quem esteja no terreno e que defenda que já deveria ter sido tomada uma decisão sobre o que fazer, não só pelos números desta última semana como pela realidade já admitida pelas unidades hospitalares, algumas já na linha vermelha do seu plano de contingência e sem capacidade para receber mais doentes.

Ao DN, antes da reunião de amanhã na qual mais uma vez o governo vai ouvir os peritos da saúde pública e da medicina intensiva, dois médicos, um epidemiologista e presidente da Associação Portuguesa de Médicos de Saúde Pública (APMSP), Ricardo Mexia, e um intensivista, coordenador da Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital São Francisco Xavier, Pedro Póvoa, falam das suas perspetivas e o que iriam dizer se estivessem no encontro no anfiteatro do Infarmed.

O médico de saúde pública defende que "o confinamento não pode ser a solução, é sim uma das soluções no combate à pandemia", argumentando que "não basta meter as pessoas em casa, é preciso comunicar, é preciso dizer às pessoas o que podem ou não fazer, e reforçar as equipas de saúde pública para que seja possível fazer os inquéritos epidemiológicos em tempo útil". "Só assim conseguimos evitar que mais pessoas sejam infetadas", frisa.

Já para o médico intensivista, agora a solução parece ser o "confinamento e vacinar, vacinar, vacinar". Mas Pedro Póvoa sustenta que quando fala em confinamento não é para a salvaguarda do Serviço Nacional de Saúde (SNS), mas das pessoas, de quem for infetado e precisar de cuidados. "Há que inverter a afirmação quando se explica para que serve o confinamento. A questão não é os profissionais trabalharem menos ou mais, mas sim as pessoas, o poder tratar-se todos os que forem infetados da melhor forma e com a melhor resposta."

Ricardo Mexia, que desde o início da pandemia tem vindo a reivindicar mais recursos para a área da saúde pública, diz ser "exasperante andar a dizer o mesmo há dez meses", mas a verdade, sublinha, é que esse reforço nunca chegou às unidades. E se já não havia capacidade para concluir os inquéritos epidemiológicos - que são a única forma de se travar as cadeias de transmissão e impedir que mais pessoas fiquem infetadas - com os números que tínhamos antes do Natal, "agora muito menos".

"Os casos registados nesta última semana ainda não chegaram aos hospitais. Os números vão aumentar ainda mais, quer em casos positivos quer em mortalidade."

O presidente da APMSP garante mesmo ao DN que "há milhares de inquéritos por concluir a nível nacional". "Não há unidade que consiga fazer hoje tudo o que deveria fazer. É impossível, não há meios para isso", sublinha, antes de fazer um alerta:

Estas pessoas infetaram outras e os números vão aumentar ainda mais, quer em termos de casos positivos quer em termos de mortalidade."

Para o médico, há muito que se sabia que janeiro ia ser bastante complicado, não só pelo frio mas também porque nas unidades de saúde é a altura em que há rotação de internos. "Os internos que estavam a apoiar as equipas da unidade fizeram agora a sua rotação, uns terminaram a sua formação geral, outros voltaram às unidades onde estavam. Só isto agravou a situação. É certo que são substituídos, mas entre serem distribuídos pelos centros de saúde, chegarem às unidades e serem treinados para as funções perde-se logo a primeira semana de janeiro", diz ao DN.

Se tivesse sido convidado para algumas das reuniões no Infarmed, Ricardo Mexia iria dizer, mais uma vez, que "no combate à pandemia não temos feito outra coisa senão correr atrás do prejuízo, nunca demos uma resposta planeada e concertada, porque é assim que se combate uma pandemia. Não basta alocar recursos de forma avulsa, há muito que os médicos de saúde pública deveriam estar concentrados nos inquéritos, em vez de continuarem atolados em muitas outras tarefas burocráticas".

Confinamento e vacinar

O intensivista Pedro Póvoa, se fosse à reunião no Infarmed, diria que é "preciso confinar e vacinar, vacinar, vacinar". Esta é a sua perspetiva, mas salvaguarda que diria também que "não se deveria ter permitido viagens no Natal nem o aligeiramento de medidas". Mas já que tal foi autorizado, o médico diz que o que estamos a viver agora "era um dos resultados possíveis, porque estava tudo muito dependente do comportamento individual das pessoas e, esse, é um fator que não é controlável".

No entanto, Pedro Póvoa acredita também que se tal não tivesse sido permitido haveria muita resistência social: "As pessoas não entenderiam bem a situação porque eram dois fins de semana e pontes diferentes de todos os outros que há no ano, pelo significado que representam." Portanto, "havia um sério risco de isto acontecer e aconteceu".

O aumento de casos fez as unidades de cuidados intensivos atingirem o maior de número internamentos de sempre, mas não é assim só em Portugal, "o problema é mundial. As UCI estão sob pressão em todo o lado, é assim em Itália, em Espanha, nos EUA".

Na unidade que dirige, Pedro Póvoa diz que a lotação está acima dos 90%, "muito perto dos 100%", tal como todas as outras unidades do país e da região de Lisboa e vale do Tejo, agora com maior pressão devido ao aumento significativo de casos.

Mas o médico admite que muito foi feito na medicina intensiva durante a pandemia: "Tínhamos um número de camas por cem mil habitantes e a nível de camas hospitalares que nos envergonhava na Europa. Isso mudou e, agora, o que nos falta não é equipamento, mas recursos humanos treinados."

O coordenador da unidade do São Francisco Xavier explica: "Esta pandemia veio provar em termos de tratamento aos doentes que um profissional treinado em cuidados intensivos faz a diferença." Diz mesmo haver estudos que o provam quando comparados os doentes tratados pelo pessoal treinado em cuidados intensivos e os que não foram tratados por pessoas especializadas. A questão é que não se treina um médico ou um enfermeiro numa semana ou num mês. Diz que em Portugal, e do conhecimento que tem, os doentes que chegaram às UCI foram "tratados pelos especialistas". "Quando muito as equipas eram mistas, com pessoal treinado e um ou outro elemento que teve de ser recrutado, mas foi logo no início da pandemia. Na minha unidade tenho pessoas que optaram por ficar e que foram fazer formação", conta.

Questionado sobre se receia que venha a acontecer o mesmo que noutros países - não haver vagas em UCI -, admite ser esse "o receio de qualquer médico", mas espera que tal não aconteça. Por isso, reforça, "a única medida comprovada até agora que tem efeitos na redução da transmissão da doença é o confinamento, é a solução para que haja menos interação entre as pessoas". "Portanto, penso que se deve avançar e se calhar por mais de 15 dias", completa.

"Esta pandemia veio provar em termos de tratamento aos doentes que um profissional treinado em cuidados intensivos faz a diferença"..

Neste momento, o médico diz que pela sua unidade já passaram doentes de todas as idades, desde a faixa dos 20 anos até aos 90, mas que a média de idades está entre os 60 e os 65, e a realidade tem demonstrado que "é uma doença que afeta mais homens, até como doença grave".

Portugal atravessa a terceira vaga e está muito perto do meio milhão de casos (483 689 até agora). Pedro Póvoa acredita que, depois desta vaga, a pandemia ou a própria infeção por SARS-CoV-2 possa atenuar, mas o que vai acontecer no futuro ninguém sabe. "Com o confinamento e com a vacinação em simultâneo, e devemos começar a receber por semana cem mil doses, acredito que a situação comece a atenuar, mas ninguém sabe se este vírus se vai tornar numa doença endémica, numa infeção viral como tantas outras. Vamos ter de aguardar."

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