Ninguém diz, mas o mundo está melhor

A tendência política contemporânea, à esquerda da esquerda e à extrema-direita, é acusar as elites, económicas e políticas, de terem construído um mundo injusto, desigual e que caminha a passo rápido para uma tragédia, apenas evitável com nacionalismo e protecionismo (à extrema-direita); ou com a redução do livre comércio e a penalização das grandes empresas, dos seus modelos de negócio e dos seus lucros (do centro esquerda em diante). Fareed Zakaria, o apresentador de GPS, na CNN, um indiano que estudou em Yale e Harvard, discorda, escreveu no Washington Post sobre o assunto e convidou Anand Giridharadas, uma das coqueluches do discurso antielitista, para conversarem.

Joseph Stiglitz, o economista vencedor do prémio Nobel em 2001 e grande crítico da globalização, concorda com o que o autor de Winners Take it All diz. Stiglitz defende que o livro de Giridharadas prova que "a globalização, a tecnologia e a liberalização dos mercados não trouxeram os benefícios prometidos - pelo menos para a vasta maioria dos americanos e dos países desenvolvidos". A solução, afirmam ambos, passa, designadamente, por as tais elites económicas pagarem mais impostos, salários mais altos, financiarem as escolas públicas.

A crítica ao presente é, no essencial, um regresso a ideologias que falharam no passado, mas que soam promissoras quando a mudança é tanta que instala um medo que tudo prefere. Os defensores deste modelo, se existem, precisam de falar mais alto

Este discurso é o oposto daquilo que Fareed Zakaria vê. Recordando que já passou pela experiência das políticas dirigistas e centralizadas da Índia onde cresceu, o jornalista da CNN considera que "subjacente a estas críticas está uma visão de vida moderna como uma ordem global disfuncional, produzindo rendimentos estagnados, insegurança crescente e degradação ambiental. Mas esta descrição é verdadeira? Estamos a fazer tão mal que precisamos de trazer de volta as guilhotinas?".

E traz dados: "Desde 1990, mais de mil milhões de pessoas saíram da pobreza extrema. A parcela da população global que vive nessas condições terríveis passou de 36% para 10%, a mais baixa da história. (...) A desigualdade, de uma perspetiva global, diminuiu drasticamente."

"E tudo isso aconteceu principalmente porque os países - da China à Índia e à Etiópia - adotaram políticas mais favoráveis ao mercado, e os países ocidentais ajudaram-nos com acesso a mercados, assistência humanitária e perdão de dívidas. Por outras palavras, políticas apoiadas por essas elites."

Mesmo no Ocidente desenvolvido, onde Stiglitz afirma que os resultados da globalização são piores, Zakaria recorda que vivemos mais anos, com mais saúde, com água e ar melhores. Além disso, há camadas da população que agora chegam à universidade, cujos rendimentos cresceram, e descriminações que tombam um pouco por todo o lado.

Nesta discussão uma enorme convergência, entre muito diferentes críticos do mundo global e da economia de mercado, e uma grande divergência com aqueles que defendem a economia global de mercado que, com as suas desigualdades e incertezas, produziu riqueza generalizada e melhores condições de vida por todo o lado. Os críticos têm, hoje, o megafone. A crítica ao presente é, no essencial, um regresso a ideologias que falharam no passado, mas que soam promissoras quando a mudança é tanta que instala um medo que tudo prefere. Os defensores deste modelo, se existem, precisam de falar mais alto.

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