Os mistérios que empurram os homens

Isto é pessoal, mas o que não é, quando escrevemos sobre nós? No dia 7, nesta semana, confinei-me mais do que agora me é habitual, fui para uma salinha com uma resma de fotocópias. Ia celebrar. Trago um amigo que me mudou de vida. Pelo que me ensinou, pelo que o amei e admirei. O pretexto é um acontecimento, para ele capital, que agora conto aqui porque na terça-feira passada fez 50 anos.

A 7 de abril de 1970, pelas 11 da manhã, Joaquim Pinto de Andrade, padre e meu conterrâneo, saía de casa, ali à Beneficência, Lisboa, e foi preso, por três pides. No auto, o agente Benedito Pereira André descreveu com pormenor de polícia tudo o que ele tinha nos bolsos, incluindo um cartão comercial de uma firma luandense de calçado e malas. Nas costas, escrito à mão, um endereço francês: "134, Rue Leon Jouhaux, Grenoble."

No dia seguinte, o meu amigo foi interrogado pelo "Excelentíssimo Inspector, Senhor Adelino da Silva Tinoco", e no "Auto de Perguntas" assinala-se a primeira: que ele explicasse as suas "atividades contra a segurança de Estado", isto é, pela independência do seu país (traduzo eu, à distância do tempo).

O angolano Pinto de Andrade era obrigado a estas interrogações policiais desde 1959. Em 11 anos, fora preso em Luanda, São Tomé e Portugal, solto e logo preso, expatriado à força, por cargueiro, o Bragança, ou avião da TAP, passou por prisões, Aljube (Lisboa) e Porto, ou por residências fixas, Alentejo, Singeverga e Vilar do ParaÍso (Gaia), e nunca a polícia o levara a julgamento. A detenção de 1970 tinha o propósito de, enfim, um tribunal condená-lo.

À primeira pergunta do inspetor Tinoco, o padre Pinto de Andrade respondeu o habitual, que não fazia política. E a segunda pergunta do pide foi para que ele explicasse como conheceu "o agora desertor do Exército Português, José Joaquim Ferreira Fernandes, ausente no estrangeiro". Nas três páginas seguintes datilografadas por um pide, sobre "o indivíduo referido" (palavras de pide, certamente), ele negou todas as nossas ligações políticas (era eu o tal desertor). E todas as tantas palavras das três páginas seguintes resumiam-se a uma: amigo.

O pide bateu essas cinco letras, e elas estão na Torre do Tombo. É uma medalha que a minha vida traz ao peito. E o pide não escreveu, e o Joaquim não lhe disse, que aquele endereço de Grenoble, escrito à mão por trás de um cartão de empresa, era de camaradas e patrícios, o João e a Lena Saraiva de Carvalho. A casa onde eu morava, então, quando ele estava a ser interrogado.

Nas perguntas seguintes, o pide insistiu sobre outros camaradas também saídos de Portugal, porque a intenção era municiar o julgamento que seria feito meses depois. Na declaração final deste, na última frase, o meu amigo citou Saint-Exupéry: "Só são irmãos os homens que colaboram." Disse o angolano negro no tribunal português.

O verdadeiro preso durante 11 anos foi enfim condenado, por um simulacro de tribunal, a três anos.

Anos depois, entrevistei-o em Luanda. Ele recordou a sua infância no Golungo Alto, no mato angolano onde o português era a língua de troca há séculos. Disse-me que lia Fialho e Camilo, uma língua em "português terso". E já me apanhei a escrever a palavra em crónica. Joaquim Pinto de Andrade morreu em 2008, terso, limpo, honesto. Foi o homem que mais admirei na vida.

Celebrava o meu velho amigo, nesta semana, e lendo a resma de papéis oficiais sobre a sua prisão de há exatos 50 anos e lembrei-me de um vídeo recente de outro meu amigo. Este amigo tem oito meses e mandaram-me um vídeo dele, no seu carrinho de bebé com a mãe, num parque londrino. Era filmado à distância pelo pai com máscara. O meu amigo não via o pai há semanas porque este é pneumologista e frequenta agora lugares perigosos.

Horas depois, mas já em casa, o meu amigo e a mãe estavam sozinhos. "Oh, olha, é novo...", ouvi ela dizer. O meu amigo era um experiente rastejador. De marcha-atrás estacionava admiravelmente sob os móveis. Mas, agora, o vídeo mostrava-o a rastejar, mas olhando resolutamente para onde ia.

Pelo aparecer e desaparecer do pai, o meu jovem amigo decidiu andar em frente. Ter tido um amigo como o Joaquim fez-me decidir andar em frente. Os caminhos dos homens são esquisitos.

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