Essuatíni. Onde a cultura se conquista

Mala de viagem (64). Um retrato muito pessoal do Essuatíni.

A antiga Suazilândia marcou o 6.º dia do Shongololo Express, no percurso "Cruzeiro do Sul". O pequeno-almoço, no comboio, foi a partir das 6 horas e meia e, duas horas depois, pisámos Mpaka, onde se iniciou o passeio a Suazi Candles e a Mantenga, através do vale de Ezuluini. Suazi Candles tem uma gama vibrante de produtos artesanais e Mantenga é um museu vivo de tradições e utensílios que representam um estilo de vida e uma ambiência antiga. O material das construções é estritamente tradicional, incluindo palha, couro, terra e esterco seco de vaca. Cada cabana tem um fim específico. O objetivo é permitir que visitantes de todo o mundo, bem como os suazis, a visitem e mantenham interesse na língua, nos costumes, nos rituais, na dança, na música, no folclore, nas artes e no artesanato. O povo é acolhedor, vestindo muitas vezes roupas tradicionais. A receção foi calorosa. A saudação-padrão dos nativos para a família é "Yebo Nkosi". Nestas horas de convívio, a interação foi incentivada pelo guia, seguida pelos habitantes. Cada visitante foi convidado a moer o milho, a ensaiar uma dança tribal marcada por vozes e tambor e a ouvir o som dos cantares em coro, irrepreensíveis na afinação dos naipes das mulheres, com uma voz masculina a fazer uma espécie de ponto. Depois, foi oferecida uma comida local, acompanhada de cerveja, para comer com as mãos, ao jeito da tradição. O prato tinha carne com milho. Ao nosso redor, algumas pessoas acercaram-se e mostraram peças de artesanato, não para venderem, mas como mostruário para quem se quisesse servir numa das lojas. Eram esteiras, cestas, peças de olaria, figuras de madeira talhada e de pedra e instrumentos tribais, como lanças, tambores e trabalhos em couro. À entrada da tarde, regressámos ao comboio e partimos para Hoedspruit. Deixámos para trás a gente simpática que, naquele lugar, serve os turistas e representa um país culturalmente rico, mas ainda pobre na sua economia. Talvez, no futuro, a cultura venha a ter um papel essencial no desenvolvimento deste e de outros países do mundo.

Jorge Mangorrinha, professor universitário e pós-doutorado em turismo, faz um ensaio de memória através de fragmentos de viagem realizadas por ar, mar e terra e por olhares, leituras e conversas, entre o sonho que se fez realidade e a realidade que se fez sonho. Viagens fascinantes que são descritas pelo único português que até à data colocou em palavras imaginativas o que sente por todos os países do mundo. Uma série para ler aqui, na edição digital do DN.

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