Turquia ataca curdos dias após retirada dos EUA. Trump reage: "é uma má ideia"

Artilharia e ataques aéreos marcaram o início da operação "Fonte de paz" por parte do exército turco contra posições das YPG, dias depois de os EUA terem anunciado a sua retirada do nordeste da Síria. As populações estão a fugir das cidades atingidas, 15 pessoas morreram.

As Forças Democráticas da Síria (SDF, coligação que abrange as Unidades de Proteção Popular, YPG) estão a responder à agressão turca. "Os confrontos estão a decorrer ao longo de quase toda a fronteira. A SDF está a reagir", disse Marvan Qamishlo, assessor de imprensa das SDF. Por sua vez a Turquia estendeu os bombardeamentos a Kobane, cidade que foi símbolo da resistência contra os terroristas do Estado Islâmico. No primeiro dia da guerra, os ataques aéreos causaram 15 mortos, incluindo oito civis, e ferimentos em 40 pessoas, entre civis e milicianos.

"As Forças Armadas turcas e o Exército Livre da Síria (rebeldes sírios apoiados por Ancara) iniciaram a operação 'Fonte de paz' no norte da Síria", declarou Recep Tayyip Erdogan através do Twitter. A operação, diz, visa eliminar "um corredor de terror" ao longo da fronteira turca.

O presidente Donald Trump, em comunicado, disse que o ataque "é uma má ideia" e que vai manter os turcos debaixo do compromisso de que irão proteger as populações e respeitar as minorias. Sem mencionar os curdos, o texto refere que "os Estados Unidos não apoiam este ataque e deixaram claro à Turquia que esta operação é uma má ideia". Mais à frente, responsabiliza Ancara pela manutenção nas prisões dos combatentes do Estado Islâmico.

Os primeiros ataques aéreos e de artilharia turcos foram dirigidos contra as proximidades das cidades fronteiriças sírias de Tel Abyad e Ras al-Ayn, que distam cerca de cem quilómetros entre elas. As populações, em pânico, estão a abandonar as duas cidades. Nestes ataques morreram duas pessoas e outras tantas ficaram feridas, segundo os curdos das Forças Democráticas da Síria (SDF), a coligação que combateu os terroristas do Estado Islâmico.

Mais tarde, as forças turcas expandiram os ataques a Qamishli e Ain Issa, que já pertence à região de Raqqa. Nesta última cidade há relatos não confirmados de seis combatentes mortos e 15 feridos.

Segundo meios de comunicação turcos, as SDF responderam com ataques de morteiro em posições nas cidades de Ceylanpinar e Nusaybin.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas vai reunir-se à porta fechada, na quinta-feira, para discutir a intervenção turca. O pedido de reunião foi feito pelos países europeus, França e Reino Unido (com assento permanente) e Alemanha, Polónia e Bélgica.

A ministra da Defesa de França, Florence Parly, disse que a ofensiva tem de parar. "É perigoso para a segurança dos curdos. E é perigoso porque beneficia o Estado Islâmico, contra o qual temos lutado durante cinco anos."

Em visita a Itália, onde se encontrou com o primeiro-ministro Giuseppe Conte, o secretário-geral da NATO Jens Stoltenberg apelou à contenção da Turquia, membro da Aliança Atlântica. "Conto com a Turquia para agir com contenção e assegurar que qualquer ação que possa tomar no Norte da Síria seja proporcionada e ponderada. Não podemos pôr em risco os ganhos que obtivemos em conjunto contra o nosso inimigo comum, o Estado Islâmico", afirmou.

O embaixador dos Estados Unidos em Ancara foi convocado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros turco para ser informado da ofensiva militar, anunciou a CNN Turk.

No domingo à noite, a Casa Branca anunciou de forma surpreendente que os EUA iriam retirar as tropas no nordeste da Síria, em resultado de uma conversa telefónica com o homólogo turco, Recep Erdogan.

Às críticas recebidas nas horas seguintes de democratas e republicanos, Donald Trump assegurou na segunda-feira que não iria abandonar os curdos, com armamento e dinheiro, mas não recuou na intenção de abandonar o terreno. Voltou a ameaçar a Turquia com uma resposta "devastadora para a sua economia e para a sua moeda muito frágil" caso Ancara seja responsável por "qualquer combate não forçado ou desnecessário".

Trump "vai receber 100% da culpa"

Também o senador republicano Lindsey Graham, um dos maiores aliados de Trump no Capitólio, ameaçou a Turquia com "sanções do inferno" ainda antes da invasão. "Sanções amplas, profundas e devastadoras" do Congresso.

Ao dar conta da operação militar, o senador republicano usou o Twitter para se dirigir ao presidente norte-americano. "Exorto o presidente Trump a mudar de rumo enquanto há tempo para voltar ao conceito de zona segura que estava a funcionar", escreveu. Depois lembrou que o isolacionismo norte-americano não funcionou antes das Segunda Guerra Mundial, não funcionou antes do 11 de Setembro e "não vai funcionar agora". Quando se luta contra o Estado Islâmico é má ideia deixar a segurança nacional a cargo da Rússia, do Irão e da Turquia."

Em entrevista à Axios perguntou: "Quem diabos apoia Erdogan contra os curdos?" Graham previu "um efeito multiplicador devastador" da ação turca na Síria e virou-se contra o presidente. "O presidente está a fazer isto completamente contra o conselho de todos os outros. Ele receberá 100% do crédito se souber de algo que nós não sabemos. E vai receber 100% da culpa. Não haverá meio-termo."

Já o senador democrata Chris Van Hollen anunciou que um projeto de sanções bipartidário estava a ser concluído.

Outros republicanos juntaram-se ao coro de críticas. A congressista Liz Cheney, filha do ex-vice-presidente Dick Cheney, afirmou ser "impossível de compreender porque Donald Trump está a abandonar os aliados dos EUA para serem massacrados e a permitir o regresso do Estado Islâmico".

O líder do GOP na Câmara dos Representantes, Kevin McCarthy, sem levantar a voz a Trump, afirmou que "o avanço militar turco ameaça parar o avanço contra o Estado Islâmico, ataca diretamente os nossos parceiros das SDF e pode dar novas bases de apoio à Al-Qaeda e ao Irão na região".

O senador Marco Rubio e a ex-embaixadora na ONU Niki Haley também já tinham criticado Trump. Numa altura em que o presidente espera apoio contra o processo de destituição acionado pelos democratas, esta decisão deixa-o fragilizado entre os republicanos. Em seu apoio saiu Rand Paul. O senador libertário elogiou a decisão. "Donald Trump é o primeiro presidente durante a minha vida que compreende o que é o nosso interesse nacional e o que não é" e acusou os "neoconservadores" Cheney e Graham de quererem declarar uma guerra.

Terroristas em segundo plano

Os curdos reagiram à mudança de política norte-americana classificando-a como "uma facada nas costas" para as Forças Democráticas da Síria.

Antes da operação "Fonte de paz", as autoridades curdas no norte da Síria declararam a mobilização geral. "Apelamos a todas as nossas instituições, e ao nosso povo em todas as suas componentes, para dirigir-se à região fronteiriça com a Turquia para cumprir o seu dever moral e mostrar resistência nestes momentos sensíveis e históricos", disse em comunicado.

As Forças Democráticas Sírias mantêm aprisionadas cerca de 12 mil suspeitos de terrorismo. A larga maioria é síria e iraquiana e dois mil são combatentes estrangeiros. Segundo o comandante das SDF, o general Mazloum Kobani, os membros das milícias encarregados da segurança dos campos de detenção poderão abandonar as posições para irem defender as famílias que se situem junto à fronteira. "Um enorme problema", reconhece Kobani, mas que fica para "segundo plano".

Moscovo entra em cena

Entretanto, o espaço deixado pelos Estados Unidos pode vir a ser ocupado, de alguma forma, pela Rússia. O presidente russo Vladimir Putin falou com Erdogan ao telefone e advertiu-o para que refletisse no que iria fazer. "À luz dos planos para conduzir uma operação militar no nordeste da Síria anunciados pela Turquia, Vladimir Putin pediu aos parceiros turcos que pensem cuidadosamente na situação para não prejudicar os esforços conjuntos para resolver a crise síria", informou o serviço de imprensa do Kremlin. "Ao mesmo tempo, ambas as partes destacaram a importância de garantir a unidade e a integridade territorial da Síria e o respeito pela sua soberania."

De visita ao Cazaquistão, o chefe da diplomacia russa Sergei Lavrov disse que a Rússia, o principal aliado do regime de Bashar al-Assad, irá tudo fazer para iniciar "conversações aprofundadas" entre Damasco e o governo curdo no nordeste do país.

Essa iniciativa foi elogiada pela administração síria liderada pelos curdos no norte da Síria. "Vemos de forma positiva as declarações do ministro dos Negócios Estrangeiros russo sobre a questão do diálogo entre a autoadministração [governo curdo] e o governo sírio e olhamos para a Rússia tendo um papel de apoiante e de garante," reagiu em comunicado a administração dirigida pelos curdos.

Quando no ano passado a administração Trump falara na possibilidade de sair da região, os curdos tomaram a iniciativa de entrar em negociações com o governo de Assad para que este e o seu aliado russo pudessem ocupar a posição norte-americana. As conversações foram então infrutíferas.

Na véspera do ataque turco, Damasco declarou que iria reagir à agressão por todos os meios e sinalizou que estaria disposto a chegar a acordo com os seus "filhos pródigos" no que será uma referência às autoridades curdas no nordeste.

Juncker apela para Erdogan suspender operação

"Apelo à Turquia para parar as operações que estão em curso neste momento em que falamos", disse Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, que está a falar esta quarta-feira à tarde no Parlamento Europeu, em Bruxelas.

"Estas operações militares não levam a lado algum. Se a operação da Turquia visa a criação da chamada zona de segurança, que não espere que a UE pague alguma coisa", concluiu.

No dia 1 de outubro, Erdogan anunciou que iria estabelecer de forma unilateral uma "zona de segurança" na margem leste do rio Eufrates, na Síria, tendo em conta que não havia conseguido alcançar um acordo com os Estados Unidos.

O objetivo de Erdogan é devolver à Síria cerca de dois milhões de refugiados sírios ao seu país, embora numa região maioritariamente habitada pelos curdos. E, antes disso, combater e repelir os curdos das Unidades de Proteção Popular (YPG). Esta milícia, que teve um papel fundamental no combate no terreno ao autoproclamado Estado Islâmico, é considerado pela Turquia um ramo do ilegalizado Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK).

Em setembro, no decorrer da Assembleia Geral da ONU, Erdogan já dissera que queria estabelecer uma "zona segura" de 32 quilómetros da sua fronteira para o interior do território sírio.

Este plano não obteve o apoio de qualquer outro estado. "É provavelmente a ideia mais louca que já ouvi", comentou à Reuters um funcionário de topo do Departamento de Estado dos EUA.

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