A Europa sem amigos

À volta das fronteiras europeias, acumula-se instabilidade, conflito, guerra e desordem. Nada disto é especificamente culpa da Europa, mas nada disto é resolvido com a Europa. É esse a nossa limitação.

A pouca relevância regional europeia precisa de preocupar os líderes europeus, sobretudo no momento em que os americanos se desinteressaram pelo destino da região e os russos se interessam mais.

Apesar dos milhões de euros, e do suposto processo de eventual futura adesão em curso, a Turquia chantageia a Europa e pressiona as suas fronteiras. Na Síria, a partida regional dos Estados Unidos deixou o campo aberto à total influência russa e ao conflito com os turcos. Os países europeus com relevância no que sobra da Líbia têm interesses divergentes e influência potencialmente contraditória. A Primavera Árabe, que não foi prevista nem imaginada, rapidamente fez-se outono, primeiro, e inverno, depois. O retrato das nossas fronteiras é pouco tranquilizador. (E deixando de lado, por agora, o Leste, a Bielorrússia ou a Ucrânia.)

Em dezembro de 2002 (o início do século, um ano depois do 11 de Setembro), os então 15 governos da (agora) União Europeia decidiram aprovar a entrada de dez novos Estados membros - o grande alargamento de 2004 - e decidiram que decidiriam sobre as negociações para o alargamento ou não à Turquia em 2004 também.

Duas semanas antes, o então presidente da Comissão Europeia, Romano Prodi, declarou que a Europa, não se podendo alargar ilimitadamente, se queria ter uma influência positiva nos países vizinhos, tinha de criar "um círculo de amigos" à sua volta, de Moscovo a Marrocos. A tese central do antecessor de Durão Barroso é que a Europa deveria oferecer a estes países tudo o que a adesão à UE significava, menos as Instituições. No essencial, criar um grande mercado comum à volta do continente.

Romano Prodi não teve consequência, mas tinha alguma razão: a geopolítica europeia é essencialmente económica. É essa a sua arma. Mas tem de ser exercida, até para criar unidade interna quanto à política externa.

Durante décadas, a Europa asseverou que enquanto os americanos projetavam o seu poder através das armas e da possibilidade do seu uso, os europeus usavam os incentivos políticos, os fundos, o diálogo e uma não interferência neutral para influenciar positivamente os países em redor (e, já agora, o resto do mundo). Está à vista.

Passados 18 anos, a Europa não tem um círculo de amigos à sua volta e repete exatamente o que Prodi também dizia então: temos de ser um ator global. Com uma agravante. Antes achava-se que o caminho passava por um ministro dos Negócios Estrangeiros Europeus, agora há quem ache que é um exército, ou parecido, que fará a diferença. Como se a criação de instituições resolvesse a falta de convergência de interesses ou prioridades dos Estados membros. Ou como se pudéssemos, quiséssemos ou devêssemos desfazermo-nos deles.

Uma política externa comum resultará da existência de interesses comuns, não da imposição da vontade de maiorias estáveis ou transitórias. E o melhor caminho para um interesse comum europeu é a consolidação de um mercado comum interno e - sim, Prodi tinha razão - externo.

Consultoremassuntoseuropeus.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG