A cidade da Horta, com o Monte da Guia e o Monte Queimado ao fundo, vistos do miradouro na ponta de Espalamanca.

Açores

Faial. O regresso ao passado no Peter e as histórias por contar do Genuíno

Desde o início da pandemia, só foram detetados 59 casos de covid-19 no Faial. Mas a ilha de 15 mil pessoas (e 30 mil vacas) também teve que confinar no ano passado e isso afastou os turistas. Que os faialenses querem ver regressar.

Na década de 1950, quando os primeiros velejadores começaram a cruzar o Atlântico e a encontrar abrigo no Faial, o avô de João ia num pequeno barco a remos até às embarcações ver se precisavam de alguma coisa, levar mantimentos ou água e ajudar a tratar da declaração do médico que garantia que estavam bem de saúde, para poderem finalmente desembarcar. A pandemia de covid-19, que manteve os velejadores afastados do porto em 2020, obrigou os seus descendentes a um regresso ao passado. Os barcos a remos deram lugar aos barcos a motor e o WhatsApp facilitava a comunicação, mas durante o confinamento, até testes de gravidez foi preciso transportar.

João é neto de José Azevedo, que todos conheciam por Peter - o nome foi dado por um oficial de um navio britânico onde ele trabalhou. "Ele achava-o parecido com o filho Peter e pediu para o tratar assim. E o nome pegou", contou João numa visita guiada pela história do famoso Peter Cafe Sport, ponto de passagem obrigatória para os velejadores (e não só) que chegam à cidade da Horta. João faz parte (junto com os irmãos Pedro e Mariana) da quarta geração do negócio da família, que na realidade já é a quinta. O tetravô Ernesto Azevedo, que tinha uma pequena loja de artesanato, comprou o primeiro espaço no quarteirão virado para o mar onde, em 1918, o seu filho, Henrique Azevedo, abriu o Cafe Sport. E onde agora também há o restaurante e a loja.

"Na altura do meu avô, o café mais influente era o Café Internacional, onde se reunia a burguesia do Faial. Os viajantes chegavam aqui a cheirar mal, com a barba por fazer e não eram bem vistos. Mas o meu avô percebeu que só precisavam de um banho", disse João. "Ele ia de barco a remos até às embarcações, porque era obrigatório ter uma declaração do médico de que estavam bem de saúde, e tratava disso. Quando chegavam a terra, usavam os balneários e depois vinham para o café. A verdade é que eram superinfluentes nos seus países e quando voltavam a casa começaram a escrever sobre o Peter nos seus livros e artigos", referiu.

O café transformou-se num ponto de encontro, num bar do mundo, "um espaço muito pequeno onde todo o mundo se encontra". Um ponto onde procurar informação, recolher o correio ou trocar dinheiro, decorado com bandeiras de navios com mensagens deixadas por quem passa - numa versão mais pequena da marina, onde é tradição os viajantes deixarem pintada a sua passagem por esta ilha dos Açores.

"Com a covid-19, no ano passado, os navios ficaram parados. Para virem a terra tinham que fazer o teste. Então íamos ao encontro deles, sempre com todas as medidas de segurança", recordou João, lembrando um caso de quase motim numa embarcação onde faltava tabaco. "A nível de marca acabou por ser bom. Porque vivemos muito tempo no passado e esta foi uma afirmação de que nós ainda contamos muito", explicou.

Nova normalidade

Quando em Portugal Continental ainda se faziam contas a quantas pessoas podiam sentar-se num restaurante, no Peter as mesas estavam preenchidas (nos concelhos de muito baixo risco nos Açores os grupos estavam limitados a dez pessoas, exceto se pertencessem ao mesmo agregado familiar, e os espaços a dois terços da capacidade). As conversas, em várias línguas, eram como sempre animadas por copos do Gin do Mar - receita da casa, com um toque de maracujá, feita desde 2000 em São Miguel e que já é exportado para a Alemanha, Bélgica ou Cabo Verde.

Desde o início da pandemia, só foram detetados 59 casos de covid-19 no Faial. Numa ilha com 15 mil habitantes (e 30 mil vacas), onde quase todos se conhecem, rapidamente se espalhava quem estava infetado e se tomavam as medidas necessárias. Nas ruas não se anda de máscara, sendo esta usada apenas para entrar nos espaços fechados, numa amostra da nova normalidade da pandemia. O que faltam são os turistas, que nos últimos anos estavam a chegar em cada vez maior número às ilhas.

Para voltar a atrair os viajantes, o governo açoriano lançou a nova campanha "Açores, seguro por natureza", aproveitando que as ilhas foram consideradas um dos destinos mais seguros da Europa em 2021 e que o arquipélago foi o primeiro, em todo o mundo, certificado como destino sustentável. O fim do estado de emergência em Portugal implica que deixa de ser possível obrigar os turistas portugueses a fazer um teste covid antes de chegar, mas o governo quer continuar a incentivar aqueles que visitam os Açores a fazê-lo. Daí que vá continuar a oferecer um teste gratuito, nos centros com os quais tem acordo, acrescentando um voucher de 35 euros que depois pode ser gasto durante a viagem (50 euros no caso dos estrangeiros).

As histórias do Genuíno

No restaurante Genuíno, com vista para a baía de Porto Pim, as mesas vazias de clientes deixam ver as centenas de memórias recolhidas pelo dono, Genuíno Madruga, nas duas viagens de circum-navegação que fez sozinho num veleiro de 11 metros - o Hemingway. Estão ali mais de 150 T-shirts, além de fotografias, postais ou até cassetes de música e livros que o pescador tornado aventureiro trouxe de volta ao Faial. "Eu levei os Açores ao mundo e trouxe um bocadinho do mundo aos Açores", disse Genuíno, hoje com 70 anos. A máscara cirúrgica não escondia a emoção nos olhos ao recordar as suas aventuras, que só começaram aos 49 anos.

O sonho de percorrer o mundo num veleiro vinha de criança, mas o mar não lhe estava no sangue. "O meu pai era eletricista, por isso já está a ver que não tinha nada a ver. O desejo de conhecer veio de crescer aqui", contou o picaroto (nasceu na vizinha ilha do Pico, mas cresceu no Faial), apontando para o mar para lá das janelas do restaurante que abriu há sete anos, a 6 de junho de 2014, cinco anos depois de terminar a sua segunda viagem. "Antes não havia o movimento que há hoje e cada vez que chegava um aventureiro, as pessoas iam até à doca, oferecer o que podiam. Ouvia os marinheiros falar das Caraíbas e eu ficava a pensar naquilo", explicou.

Faltava o dinheiro para a aventura, mas o mar já chamava por si. Dedicou-se à pesca, primeiro com um barco pequeno, depois fazendo crescer o negócio. "Só com 49 anos é que consegui o dinheiro para comprar o barco e já fiz os 50 anos na primeira viagem", lembrou. Partiu em outubro de 2000 e demorou 19 meses na sua primeira viagem em solitário, tornando-se no primeiro português - e único - a fazê-lo. Na segunda, entre 2007 e 2009, levou 21 meses.

"A minha viagem não teria ficado completa sem ir a Timor", contou, explicando que foi recebido no porto pelo então presidente José Ramos-Horta, mas lembrando-se com igual emoção dos encontros com os imigrantes portugueses na África do Sul e nas várias paragens pelo caminho. Se na primeira viagem chegou ao Pacífico através do Canal do Panamá, na segunda contornou a América do Sul, descendo ainda mais do que Fernão de Magalhães há 500 anos, e cruzando pelo cabo Horn.

Das viagens, prefere recordar os momentos bons do que os momentos maus, desde o calor dos trópicos ao frio antártico, sabendo que o mau tempo vai sempre passar. "Se não passasse, não estaria cá para contar", explica. "Se fosse pesar numa balança as coisas más e as coisas boas, as coisas boas são sempre muitas mais. Compensam os dias sem comer e sem dormir."

Pensar numa terceira viagem ainda lhe deixa os olhos a brilhar - gostava de conhecer o Japão e outras ilhas da Indonésia, afinal só esteve em Bali -, mas as aventuras agora são mais curtas. "Sou mestre pescador e quando posso gosto de ir ao mar e ficar dois ou três dias", conta, dizendo comprar diretamente o peixe para o restaurante na lota. A pandemia levou muitos clientes, e oportunidades de contar a história dos objetos que decoram o espaço, mas para Genuíno o importante era manter a casa e ter dinheiro para pagar aos fornecedores e funcionários.

Os queijos d'O Morro

Com vista para o morro de Castelo Branco, que lhe dá nome, a queijaria O Morro esconde atrás das suas paredes um queijo de vaca amanteigado de fabrico quase artesanal que se tornou num sucesso, aqui e além mar. Tal como noutros negócios, também aqui a pandemia deixou marca. "Estávamos a trabalhar com quase três mil litros de leite por dia, mas agora estamos apenas nos cerca de 1800 litros. Estávamos também dependentes dos turistas nos Açores", conta Márcia Caldeira, mulher de Nuno Caldeira, que com o irmão Rui teve a ideia de criar em 2012 a queijaria que já viu os seus produtos premiados nos EUA.

Os irmãos costumavam vender produtos hortícolas por todo o Faial quando se aperceberam que havia mercado para um queijo fresco na ilha. Do queijo fresco, passaram para o queijo curado pasta mole, o com alho e salsa, o apimentado e o velho (com mais tempo de cura). Márcia, que é professora de Matemática mas também ajuda na queijaria onde trabalham seis funcionários, abre-nos as portas a um sábado, quando as cubas que levam até 600 litros de queijo estão vazias, mas os frigoríficos onde centenas de queijos aguardam ser virados um a um, todos os dias, estão cheios.

Márcia explica como o leite chega todos os dias à fábrica e é pasteurizado, antes de passar para as enormes cubas onde é adicionado o coalho e outros ingredientes necessários para fazer o queijo. O fresco ainda é feito à mão, na pequena cuba com que iniciaram a fábrica, sendo o coalho depois cortado em liras (primeiro na horizontal e depois na vertical), antes de ser colocado nas formas. Já o queijo curado é trabalhado nas cubas maiores, já automatizadas, antes de ser moldado manualmente. O soro que é retirado, também é aproveitado. "Não é usado para requeijão, porque não é apreciado na ilha, mas para alimentar os animais, porque tem muita proteína", explica.

Apesar da pandemia, os planos são para avançar numa ampliação da fábrica e da pequena loja, à espera dos turistas que hão de voltar. Enquanto isso, fornecem vários restaurantes na ilha e exportam para Portugal Continental, para os EUA (nomeadamente o chamado "mercado da saudade") e para o Canadá. Em 2017, uma distinção da revista Wine Spectator, que colocou o queijo de pasta mole entre os oito de uma tábua de queijos de elite, ajudou a aumentar as vendas no mercado norte-americano.

A importância dos Dabney

O Faial, que primeiro foi Ínsula de la Ventura e ilha de São Luís, deve o seu atual nome à abundância de faias-das-ilhas quando os primeiros colonizadores aí chegaram. Atraídos pelas supostas riquezas de prata e estanho que haveria, portugueses e flamengos - entre eles Joss van Hurtere, que estará na origem do nome Horta - instalaram-se na ilha a partir de 1465.

Mas para perceber o Faial de hoje, é preciso avançar até 1806, quando John Bass Dabney chegou à ilha como cônsul-geral dos EUA e decidiu aproveitar os seus dois portos naturais, estratégicos para a navegação. "Eles viram as oportunidades de negócio que havia nas exportações da laranja ou do vinho do Faial, que na realidade era do Pico, e também na baleação", contou João Costa, coordenador da Casa dos Dabney, o museu construído na antiga adega da casa de veraneio no Monte da Guia. A família ficaria um século no Faial, com o cargo de cônsul a passar para o filho e depois para o neto, saindo pouco antes de chegarem os cabos telegráficos submarinos. Estes trouxeram 15 empresas estrangeiras para a ilha, e influenciaram ainda mais a sua cultura, fazendo da Horta a cidade mais cosmopolita dos Açores.

Na Fábrica da Baleia, próximo da Casa dos Dabney, é possível descobrir um pouco mais da influência desta família na baleação. Os americanos há muito percorriam os mares, incluindo ao redor dos Açores, atrás das baleias, nomeadamente os cachalotes, por causa dos valiosos óleos (não só o da gordura, mas também o espermacete, armazenado na zona da cabeça e que permite ao animal mergulhar a grandes profundidades). Os Dabney não quis quiseram deixar escapar essa riqueza, construindo a primeira fábrica de processamento na ilha.

A caça não era fácil. Os vigias em terra alertavam quando um cachalote aparecia no horizonte, lançando o foguete de alerta para chamar os baleeiros (que trabalhavam as terras também). Se o vento não ajudasse, a perseguição era feita a remos, e uma vez o animal morto era levado de volta até à ilha, onde era desmanchado. "Tudo era aproveitado", contou Beatriz Toste, numa visita guiada. Além dos óleos, a carne e os ossos eram transformados em farinha para os animais.

Até os dentes eram aproveitados. No primeiro andar do Peter Cafe Sport, existe um museu com uma das maiores coleções privadas de Scrimshaw, a arte de decorar os dentes das baleias. "O dente é polido, depois usa-se normalmente tinta da china para pintar de preto. A seguir grava-se o desenho e volta a pintar-se e a polir, para ficarem só as linhas do desenho a preto", contou João. O maior dente da coleção tem 2,6 quilos. "O meu avô previu que a caça à baleia ia a acabar, não porque ia ser proibida [seria em 1985], mas porque haveria muito trabalho para fazer em terra depois da erupção do vulcão dos Capelinhos e não haveria tempo para ir para o mar", explicou João, dizendo que o avô começou então a reunir todo o património que agora se vê no museu.

Vulcão dos Capelinhos

A ilha em forma de tartaruga (a parte mais antiga, junto ao que seria a pata traseira direita do animal, tem cerca de 800 mil anos) foi crescendo ao sabor das erupções, a última das quais entre 27 de setembro de 1957 e 24 de outubro de 1958. O vulcão dos Capelinhos (na zona do nariz da tartaruga) acrescentou 2,4 km² de área ao Faial, mas atualmente do novo território só resta um quarto, por causa da erosão.

As cinzas que encheram toda a ilha e especialmente as freguesias próximas tornaram impossível o cultivo dos campos, a criação de gado e destruíram com o seu peso as casas, levando metade da população (cerca de 12 mil pessoas no total) a imigrar para os EUA. Isto ao abrigo do Azorean Refugee Act, que previu a entrega de 1500 vistos de família aos afetados. Uma história que pode ser conhecida no Centro Interpretativo do Vulcão dos Capelinhos, construído sob as cinzas desta paisagem quase lunar, frente ao farol que durante a erupção ficou tapado até à primeira janela (cerca de cinco metros de altura).

O Centro Interpretativo, junto com a Casa dos Dabney, são dois centros de visitantes do Parque Natural do Faial. "Um parque natural tem que ser muito mais do que uma estrutura que só investe na conservação da natureza e a Casa dos Dabney é um legado cultural e económico dos Açores", defendeu o diretor do parque, João Melo. Logo ao lado, encontra-se outro dos centros, o aquário de Porto Pim, que ficou destruído com a passagem do furacão Lorenzo, em outubro de 2019, e ainda não foi recuperado - em várias zonas da ilha ainda são visíveis alguns estragos. O último centro é o Jardim Botânico, que tem um banco de sementes da flora endémica dos Açores, e onde é possível passear pelos vários habitats da ilha.

susana.f.salvador@dn.pt.

A jornalista viajou a convite da Associação de Turismo dos Açores.

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