Um homem na cidade. Lisboa

Antigamente, antes do covid-19, raramente alguém ousava ocupar a cadeira ao lado do poeta. E Fernando Pessoa, de bronze, na sua mesa da esplanada do café A Brasileira, lá estava, de perna traçada, braço pousado no tampo da mesa e com a outra cadeira vazia. De vez em quando, um turista, envergonhado pela ousadia, sentava-se nessa cadeira, fazia uma foto rápida, e até um selfie, e clicava com a consciência intranquila de alguém que sabia estar a incomodar o dono da mesa em conversa íntima com Álvaro de Campos.

O mundo agora está diferente. E Lisboa muito vazia. Há irmãos que escolheram qual deles cabia no número curto de acompanhantes no funeral do pai. Há operários a sair da fábrica rasando os muros, para que os vizinhos, apesar da máscara dele, não reconheçam o trabalhador de um matadouro de aves, suspeito de vírus. Há motoristas da Uber, ainda há semanas com perguntas sofisticadas, "para o sr. José, a música da Antena 2 é do seu agrado?", a esgueirar-se agora da câmara da TVI que o filma estendendo a mão ao saco de comida do Banco Alimentar. E há Lisboa, em dia de trabalho e a horas já tardias da manhã, solitária.

Nesta semana, fui pela Rua Garrett. E, em subindo, uma foto me veio à memória, ano 1935. A Polícia de Trânsito ensinava o povo a subir pelo passeio da esquerda e a descer pelo da direita, para que a multidão não se atropelasse... E eu, nesta semana, fui pelo meio do asfalto, despreocupado, dando as costas aos automóveis que não vinham. O mundo agora está diferente.

Chegado lá cima, vi que a solidão cai sempre bem a Fernando Pessoa. Não que a cadeira ao seu lado estivesse vazia, como quase sempre. Não estava. Sentado nela estava um homem da minha idade, sem pressa de selfie e nem sequer máquina de fotografar ou telemóvel inteligente. Sentado, companheiro, mais nada. Vi-o ainda eu estava à altura da livraria Bertrand, diminuí o passo e saboreei o sagrado encontro.

Quem estava ao lado de Pessoa sabia-lhe as conversas íntimas, por isso não mimava um encontro para mostrar a amigos. O homem que eu vi era um companheiro de Pessoa, estava como esteve Mário de Sá-Carneiro, ou o adversário de partida de xadrez de foto célebre, ou o jornalista do DN que lhe falou, Lisboa fora, sobre o falso suicídio do mago Aleister Crowley na Boca do Inferno, ou o empregado de balcão do Abel Pereira da Fonseca que lhe serviu um flagrante de litro... Todos sem o saber, sabendo, a admiração devida ao companheiro.

O brasileiro João Moreira Salles, não sem razão o inventor da revista Piauí, a mais bela da língua comum, fez o melhor documentário que conheço sobre o Maio de 68 e chamou-lhe No Intenso agora. Ele, menino, não esteve lá, mas a sua mãe esteve. Depois ela desapareceu, matou-se. Há cruzares com a história que perduram, por um não sei o quê, a memória da mãe, por exemplo, que podem ser retomados ao ver o instante agora de uma jovem desconhecida, de frente para o filme, correndo em boulevard parisiense, câmara lenta, em felicidade única. Aconteceu com o documentarista brasileiro, que descobriu naquelas imagens o título do que tinha para contar.

Talvez tenha acontecido também ao homem que nesta semana esteve uma eternidade - desde mim subindo devagarinho da Bertrand, até à boca do metro, onde fiquei discreto - ter sentido ser um companheiro do poeta. Evidentemente que ele sabia que a solidão de Pessoa está sempre povoada. E eu, ao vê-los no diálogo calado de um quase vazio Chiado, senti-me feliz cidadão de Lisboa. Do porto de partida da mensagem, da palavra que move os homens, de um pequeno país para o mundo. Da minha cidade.

Voltei à Baixa para perceber a solidão que me marcara. Depois vi, em frente ao Londres Salão e na Casa Tavares e Tavares e outras lojas de tecidos e panos, mulheres velhas e jovens de máscara. Esperavam a vez para entrar, para comprarem tecidos e panos. Para sobreviverem fazendo máscaras salvadoras.

Na Lisboa presente, voltei à de sempre. Um dia, na guerra mundial com data do fim lembrada ontem, desaguou um judeu húngaro. No quarto da pensão na Praça da Figueira, ele contou os últimos tostões. Desceu a comprar o que podia de manteiga e três folhas de papel celofane. Subiu ao quarto e com canivete cortou o papel em cubos retangulares, pequenos e estreitos. Fez pacotinhos de manteiga e levou-os aos hotéis chiques. Eram os primeiros de Lisboa. E o judeu húngaro viveu desse comércio até ao visto para a América.

Porto de abrigo dos seus e dos de fora, Lisboa. Já vos disse? A minha cidade.

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