Um feminicídio nunca vem só

Há sempre uma reviravolta trágica num percurso que se acreditava de resistência. E há também uma história de poder. Ou da falta dele. Ou da transferência dele, que muitos ainda não aceitam. E matam.

O feminicídio é uma palavra horrível. Soa mal e significa pior. Mas tem uma vantagem: especifica quem foi a vítima do crime quando é importante saber quem foi a vítima do crime. Uma mulher. Não é facto anódino. Uma mulher morta, às mãos de um homem, é muito, antes e depois de ser o fim anunciado de uma história inevitavelmente triste. É muito, antes e depois de ser um drama pessoal e familiar.

É, certamente, o culminar de um percurso, porque um feminicídio não chega de supetão. Mas há mais neste crime: os ataques têm normalmente um só sentido, diretamente proporcional ao poder, na relação. Quem tem esse poder, exerce-o - e, do ponto de vista mais básico, o físico, ao ponto de vista mais cultural, o social, tem boas razões para achar que tem. Por isso o feminicídio não é só a morte de uma mulher. É também a morte do feminismo, a morte da igualdade de género, a noção de que ainda há tanto por fazer neste âmbito. Que é, no fundo, o âmbito dos direitos humanos.

Nesta semana tivemos um caso, em Portugal, que dava um romance negro ou um tratado de sociologia. Duas pessoas, uma avó e uma neta, foram mortas por um homem que queria atingir a que não morreu naquela família, a ex-mulher. Este duplo feminicídio do Seixal terminou uma história de humilhações, ameaças, violência psicológica e física - soubemos, ao consultar o processo que correu judicialmente sem que tenha havido consequências.

Mas, como acontece cada vez mais, este crime foi também a reviravolta trágica de uma tentativa de resistência, de uma força... que se revelou aparente. Uma mulher teve a coragem de denunciar o que estava a passar, "entregando" o ex-companheiro à polícia, saiu de casa, fez tudo como manda a cartilha do feminismo moderno e do civismo legal. E acabou com a filha e a mãe mortas. Como se nada pudesse inverter o curso da história. A frustração.

O muito que falhou aqui é também uma história do poder. Ou da falta dele. A mesma que é contada pela displicência com que tantos tratam a violência doméstica - ou não doméstica, a violência de um homem sobre uma mulher. Não vale a pena enganarmo-nos: uma sociedade que permite que se faça isto às mulheres, que se continue a fazer isto, não pode estar a olhar para este problema com seriedade. Se é que o considera um problema. Uma polícia que desvaloriza queixas, um Ministério Público que permite que elas sejam retiradas, fraquíssimos apoios sociais, o ónus da vítima quando denuncia...

Decisões políticas, grupos de trabalho, anúncios de formação, a colocação deste flagelo nas notícias, nada disso vale perante o embate numa realidade como a que conhecemos nesta semana.

Não nos demoremos muito nelas, mas falemos de algumas "psicologias" do caso do Seixal. Há uma fraqueza enorme na força demonstrada por quem mata nestas circunstâncias. E essa é a fraqueza de um homem desorientado, abandonado, sem o poder que achava que tinha, e não foi substituído por outro. Um homem que não aprendeu a lidar com o mundo como ele é hoje, de mulheres fortes e a pensarem pela sua cabeça, pouco disponíveis para continuarem a ser submissas, a baixar a cabeça. Foi com tudo isso, com o facto de a sua mulher ter uma vida própria, que este homem não soube lidar. Nada o desculpa, nada atenua a sua pena. Até porque a força transformada em fraqueza arruinou a vida de duas famílias. Mas é importante olharmos, vermos, aprendermos. Porque quanto mais as mulheres avançarem no caminho que lhes está pela frente, mais expostas estarão aos homens que o não compreendem. E é isso que a sociedade, como um todo, tem de precaver.

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