África do Sul. Inspirando novos caminhos

Mala de viagem (2). Um retrato muito pessoal de África do Sul.

Voei para a África do Sul não só por ir a este país como também para servir como uma espécie de centro irradiante para os restantes países da África Austral. A história que se segue precedeu a minha partida de Pretória no Shongololo Express. Antes disso, procurei sentir neste sul os traços que ficaram de Diogo Cão ou de Bartolomeu Dias, junto ao ponto mais meridional do continente, ou do poema épico de Camões, que metaforicamente conta os dias de Dias. Isso fascinava-me. Mas a visita à África do Sul também tinha um outro aspeto que liga este território a Portugal. As repúblicas bóeres resistiram com sucesso às invasões britânicas durante a Primeira Guerra dos Bóeres (1880-1881), mas perderam na Segunda Guerra dos Bóeres (1899-1902), sendo repatriados para Portugal, por via de Moçambique. Alguns estiveram nas Caldas da Rainha, facto perfeitamente documentado. Os bóeres têm uma importância histórica controversa na África do Sul, apesar de terem criado as bases da sociedade em que se tornou o apartheid africano. Foram importantes para as descobertas de minérios, que trouxeram desenvolvimento económico para a região. Atualmente, o termo "bóer" não é mais utilizado na África Austral, tendo sido substituído por "africâner". E muitos daqueles a quem perguntei sobre os bóeres não sabiam bem explicar. A este meu ponto de interesse juntou-se a experiência gastronómica. O grupo foi conduzido para um típico "braai", "carne grelhada" em africâner, motivo para um evento, com origem numa tradição social entre os africâneres da África Austral, apesar de esta tradição já se ter alargado a sul-africanos de todas as origens étnicas. Um "braai" tem normas específicas, por exemplo, as mulheres raramente grelham a carne. Esta tarefa cabe normalmente aos homens, que se juntam em volta do braseiro, enquanto as mulheres preparam as saladas e as sobremesas. Cheguei cedo a uma espécie de acampamento. Sobre a mesa, jaziam salsichas frescas, espetadas, costelinhas de cabrito, costeletas de borrego e coxinhas de frango. Parecia um daqueles repastos de político nas voltas pelo seu território. No fim, disseram-me que havia diversos tipos de carne, mas que, por consideração ao grupo visitante, uma fora dispensada. É que o "braai", como acontecimento social muito exclusivo, até pode contar com churrasco de carne humana. Por instantes pensei que tivesse recuado aos tempos de Diogo Cão e Bartolomeu Dias. Seguiu-se a partida para Pretória, para tomar o comboio. O Shongololo Express pode ter diferentes destinos: Walvis Bay, na costa oeste da Namíbia; Cidade do Cabo, a sul; e Victoria Falls, passando por Esuatini, Moçambique e Zimbabué. Este último percurso foi o escolhido por mim, do qual dou conta nos respetivos países de atravessamento.

Jorge Mangorrinha, professor universitário e pós-doutorado em turismo, faz um ensaio de memória através de fragmentos de viagem realizadas por ar, mar e terra e por olhares, leituras e conversas, entre o sonho que se fez realidade e a realidade que se fez sonho. Viagens fascinantes que são descritas pelo único português que até à data colocou em palavras imaginativas o que sente por todos os países do mundo. Uma série para ler aqui, na edição digital do DN.

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