Em Alvito: Joaquim Segismundo, Francisco Silva, José Nascimento, Filipe Coelho, Vítor Tansanis.

Legislativas 2019

Os ciganos de Alvito votaram no Chega? Há quem diga que sim

O Chega, primeiro partido de extrema-direita no Parlamento, teve uma vitória expressiva em Alvito. Ficou em quinto lugar e na terra há quem garanta que foi com a ajuda do voto que André Ventura despreza: o dos ciganos.

Entra-se em Alvito e achamos ter encontrado a principal razão para este ter sido um dos concelhos a dar mais percentagem de votação ao partido Chega: 4,76%. Tendo em conta a fixação do discurso de André Ventura nos ciganos, aqui é pasto fácil para esse discurso. Uma mulher da comunidade cigana dá de mamar ao filho à sombra de uma árvore sob o olhar do marido. Percorre-se uma centena de metros e a explicação continua: vários carros de gama alta estão parados na praça principal. São o grande negócio da referida comunidade...

Ou seja, em Alvito votou-se no primeiro partido de extrema-direita a colocar um deputado na Assembleia da República porque haverá um conflito entre os moradores e os que se instalaram ali há pouco mais de uma dezena de anos? José Nascimento, 32 anos, membro da comunidade cigana, tem outra ideia: "Votei neles só para saberem quem e quantos somos." A estratégia política parece tonta - votar em quem quer combater-nos. José tem outra ideia: "Sou de etnia cigana, sim. Votei só para ver se deixavam de chatear a gente." Acrescenta: "Só para verem que somos mais deles."

A comunidade cigana de Alvito tem mais de 70 pessoas, mas só 32 é que votam: "Não votámos todos no Chega, cada um é livre de votar em quem quer. A nossa comunidade é muito bem aceite. Há 34 anos que nasci cá. E sempre fui muito bem aceite. Nunca nos organizámos politicamente, foi só para mostrar que estamos cá", insiste José. E explica que vivem em casas perto do centro da vila, umas são alugadas, outras cedidas num bairro camarário: "Eu não pago renda", garante, dando mais um argumento ao partido em que... diz ter votado.

O quinto lugar do Chega em Alvito não é grande notícia na localidade. No café da praça há quem veja o resumo dos desafios de futebol com mais interesse. E, embora a presença de uma equipa de reportagem acabe por entusiasmar a manhã de rescaldo eleitoral, o que interessa as pessoas é a presença de uma brigada da ASAE que veio avisar que as bombas de gasolina vão ser obrigadas a ter videovigilância.

Alguns dos habitantes preferem brincar e dizem que votaram no PAN "porque não têm dinheiro para comer carne de vaca". Às 11.00 a ocupação é a conversa e umas minis sobre as mesas. Pergunta-se ao grupo que está a desbastar cerveja em quem votou. Em cinco eleitores, um não votou, outro votou no Bloco de Esquerda, um no Chega e outro na CDU. Francisco, 38 anos, revela que votou no BE porque as manas Mortágua são dali. Também não deixa de avisar: "Gosto dos ideais do Bloco porque nunca recebi subsídios do Estado. Isto está uma calamidade e para se ter uma porta aberta paga-se muito."

Joaquim, 78 anos, votou na CDU: "A nível autárquico costumava ganhar, mas agora está a perder. O Alentejo é assim. Eu passei muita fome quando era pequeno, esta gente nova hoje nem sabe como era difícil votar e agora não vota."

A pergunta que se segue é porque já não votam no PCP e sim no Chega, entre outros. A resposta de Francisco é direta: "Porque estamos descontentes com todos os partidos. Mais de metade não querem votar porque não acreditam." Joaquim acrescenta: "Vou votar para ladrões?" No fundo, o discurso que os partidos populistas aproveitam em toda a Europa.

A conversa não para e a grande questão não é política, mas sim se continuam nas minis ou passam às médias. José, 68 anos, não tem explicação para a realidade de Alvito. Está satisfeito? "Não estou. Podiam fazer mais coisas". E aí o tema da conversa passa para outras comunidades que estão a afirmar-se após a comunidade cigana: "Os ciganos já estão por cá há muito tempo, agora são os ucranianos e os romenos e andam cheios de fome."

Abstenção, corrupção e as manas Mortágua

O único que fica calado no café Canto do Cante, a sede do Grupo Coral Amigos do Cante de Alvito, chama-se Filipe e tem 19 anos. Não votou: "Não ligo muito à política, mas se votasse era no Bloco." Não está recenseado: "Não vale o esforço." Está a acabar o 12.º ano e quer dar uso ao curso técnico comercial. "Para viver tem de ser fora daqui, em Évora ou Beja. Cá, a malta da minha idade mal tem a carta abala e só volta para as férias."

O grupo desfaz-se porque alguns têm de ir trabalhar, afinal pouco passa das 11.00. Um deles não evita uma brincadeira: "Quando cá voltarem tragam o André Ventura."

Alvito está quase vazio de cartazes políticos e os únicos que abundam são os do Nós Cidadãos. Do Chega nem um à vista. Cem metros à frente, outro grupo disponível para conversar sobre as eleições. Quando se questiona o quinto lugar do Chega em Alvito, a resposta está na ponta da língua. "Para acabar com os bandidos", diz um enquanto outro acrescenta: "Porque o André quer acabar com a corrupção. Só os parvos é que foram presos."

Confessam que o tema em que estavam entretidos a falar era o da abstenção. João, 68 anos, votava na CDU: "Agora, o meu partido ganhou, é o da abstenção." Ao seu lado, Dias, 79 anos, refere que já votou "no PS e na CDU". Quanto ao Chega, não quer comentar: "Já estou na linha de abate." António, 65 anos, garante que sempre votou no PSD mas agora não: "Eu não gosto do Rui Rio." E a conversa acaba porque está na hora de mais um copo de vinho.

Para fechar este capítulo da história eleitoral de Alvito resta o autarca. António Valério foi eleito como independente pela CDU. O tema "ciganos" não lhe interessa: "As pessoas são livres. Temos vários estrangeiros na região e não há reações negativas. Até vieram para cá viver duas famílias sírias. Historicamente, várias famílias ciganas vivem desde há muito no concelho, mas não há episódios de violência."

Como as manas Mortágua nasceram perto, justifica-se a votação no Bloco de Esquerda para vários eleitores da localidade e o autarca, que é professor de História, não diz o contrário: "A Joana e a Mariana são de Alvito, talvez seja um fator. A Joana até foi minha aluna."

Exclusivos

Premium

Espanha

Bolas de aço, berlindes, fisgas e ácido. Jovens lançaram o caos na Catalunha

Eram jovens, alguns quase adultos, outros mais adolescentes, deixaram a Catalunha em estado de sítio. Segundo a polícia, atuaram organizadamente e estavam bem treinados. José Manuel Anes, especialista português em segurança e criminalidade, acredita que pertenciam aos grupos anarquistas que têm como causa "a destruição e o caos" e não a luta independentista.