Aplicações de meditação ajudam a evitar esgotamentos

Na conferência sobre tecnologia, inovação e sustentabilidade, que termina esta quinta-feira, também se fala em evitar esgotamentos provocados pela dificuldade em nos desligarmos do mundo. E é a própria tecnologia que apresenta as soluções: aplicações para meditar.

A Room to Breath ou, em português, sala para respirar encontra-se no espaço da Google dentro da convenção e quer ser um momento de pausa no meio das palestras e da interação entre empresários. Um grupo de oito pessoas entra, durante três minutos, senta-se em cadeirões e coloca auscultadores para ouvir os exercícios de meditação da aplicação Headspace.

"Ajuda. Ajuda um bocado", diz com voz arrastada Djamil Hommouo. O empresário belga foi uma das cerca de 500 pessoas que por ali passaram durante o dia. "Estou mais calmo, porque tenho andado muito stressado. Está a ser um dia incrível com muita coisa para ver e muito trabalho para fazer", conta. A aplicação para relaxar ajudou-o a esquecer por momentos a angústia de outra aplicação, a que está a desenvolver.

"Neste ambiente, é muito importante tirar um tempo para acalmar, porque há muita coisa a acontecer aqui", confirma também o alemão Christoph Eikneir. "É uma boa pausa".

Headspace, o "medicamento digital"

À porta da sala da gigante da internet pode ler-se a frase: "A tecnologia deve servir para melhorar a vida, não para nos distrair dela". É o propósito da aplicação testada. A Headspace reúne vários tipos de exercícios de meditação como estar em silêncio, caminhar ou correr. Está disponível para androide e para ios e tem partes gratuitas e outras pagas.

"O que a Headspace faz é exercitar a parte do cérebro que o stressa. É como trabalhar um músculo", explica o membro da empresa Dan Kessler, durante uma apresentação no stand da Google. "É um medicamento digital. Já há médicos a sugerirem o Headspace para pessoas que estão muito stressadas", acrescenta.

Mas a aplicação não se fica pela prescrição nos consultórios médicos, a sua utilização está a ser implementada em 300 empresas que abrangem 3, 2 milhões de trabalhadores de várias partes do mundo, segundo Kessler. E está ainda a ser distribuída gratuitamente pelos professores americanos "por terem uma profissão repleta de stress".

Os números apresentados pelo empresário indicam que os níveis de ansiedade começam a descer passados dez dias do início do uso da aplicação. E no final do primeiro mês, o stress é reduzido em cerca 30%.

"Nós construímos escritórios, pedimos às pessoas que trabalhem 12 horas por dia e não lhes damos recursos para tomarem conta delas. Quando querem fazer uma pausa, fumam um cigarro ou vão para o Facebook, para o Twitter ou para o Instagram (que fazem com as pessoas se sintam mal com elas próprias e com o mundo). O que queremos construir é um hábito que nos estimule. A meditação é uma das soluções", diz o porta-voz da Headspace.

Esta sugestão é partilhada por várias outras aplicações com o mesmo objetivo, uma das mais conhecidas chama-se Calm.

Atingir o limite

André Encarnação não usa a Headspace ou a Calm, mas revê-se nos objetivos traçados por estas aplicações. Tem uma empresa de engenharia informática, onde trabalham mais três pessoas, e conhece de perto os perigos de não se desligar. "No processo de criar uma empresa uma pessoa fica preocupada com tudo aquilo que tem de fazer, mas não com a sua saúde mental, com a sua estabelecidas. E ao longo do tempo isso reflete-se na saúde da própria empresa", relembra.

A sua equipa chegava a terminar o trabalho às seis da manhã e recomeçava às nove, o que fez com que adoecessem os quatro ao mesmo tempo. O alerta foi recebido e decidiram mudar a forma como trabalhavam: "neste momento o desenvolvimento é muito mais lento, mas a nossa vida está muito melhor e o próprio produto está a correr melhor", conta André Encarnação.

O empresário português já conhece a receita para evitar situações laborais de cansaço extremo, mas não deixou de prestar toda a atenção ao painel sobre esgotamento provocado pelo excesso de trabalho na era da tecnologia, que aconteceu esta quarta-feira no palco Startup University da Web Summit.

Empresários e especialistas defenderam que cada vez mais as pessoas prejudicam a sua saúde e vida por causa do trabalho, em parte por ser mais complicado desligarmo-nos num mundo que está sempre online e disponível. "Embora as pessoas trabalhem mais para serem mais produtivas, o resultado é o contrário, porque o cansaço leva à incapacidade física", afirmou Meeta Singh, a representante da organização médica Henry Ford Health System.

Parneet Pal da Wisdam Labs, empresa que se dedica ao estudo do bem-estar no trabalho, aponta a insegurança e o perfeccionismo como as principais razões para se atingir o "limite da exaustão", uma vez que estas características obrigam as pessoas a trabalharem mais. Meeta Singh acrescenta a pressão do instável mundo dos negócios: "No empreendedorismo, estamos a trabalhar em condições que nos colocam contra nós. 40% das startups fecham após um ano, 90% nos primeiros três anos, a maioria dos empreendedores não têm um bom sistema de apoio e ninguém nos explicou na escola como controlar o stress".

Para contrariar o prejuízo para a saúde aconselham períodos descanso várias vezes ao dia - meditar com uma aplicação ou conversar com os colegas sobre assuntos que não envolvam trabalho, por exemplo - seguidos de uma boa noite de sono.

"Nós estamos desconectados e as nossas caras estão sempre nos nossos telefones, nos nossos computadores. Precisamos de criar distância. Precisamos de desligar mais os aparelhos e criar espaço para estarmos com outros seres humanos e connosco", continua a empresária Aine Maria Mizzani, que aos 34 anos foi surpreendida com um cancro por o seu sistema imunitário estar fragilizado por causa de um esgotamento por excesso de trabalho.

Na altura era responsável pelas operações de uma empresa multinacional e tinha a seu cargo sete mil pessoas. A doença obrigou-a a parar e a repensar a forma como vivia. "Fez-me tirar tempo para mim, para o meu propósito na vida. Não há uma aplicação para fazer isso por nós, podem ajudar-nos, mas não o fazem por nós."

Faz questão de partilhar a lição pessoal que retirou desta experiência, não só com a plateia preenchida da Web Summit, mas principalmente com as pessoas com quem trabalha, porque acredita que enquanto líder essa é uma das suas funções.

"Como fundadores [de empresas], temos de dar o exemplo e controlar o stress", conclui Aine Maria Mizzani.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Opinião

Os irados e o PAN

A TVI fez uma reportagem sobre um grupo de nome IRA, Intervenção e Resgate Animal. Retirados alguns erros na peça, como, por exemplo, tomar por sério um vídeo claramente satírico, mostra-se que estamos perante uma organização de justiceiros. Basta, aliás, ir à página deste grupo - que tem 136 000 seguidores - no Facebook para ter a confirmação inequívoca de que é um grupo de gente que despreza a lei e as instituições democráticas e que decidiu fazer aquilo que acha que é justiça pelas suas próprias mãos.

Premium

Margarida Balseiro Lopes

Falta (transparência) de financiamento na ciência

No início de 2018 foi apresentado em Portugal um relatório da OCDE sobre Ensino Superior e a Ciência. No diagnóstico feito à situação portuguesa conclui-se que é imperativa a necessidade de reformar e reorganizar a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), de aumentar a sua capacidade de gestão estratégica e de afastar o risco de captura de financiamento por áreas ou grupos. Quase um ano depois, relativamente a estas medidas que se impunham, o governo nada fez.