João Chú: "Hoje já não se diz que aos 18, 19, 20 anos se é velho para fazer ginástica"

Diretor de Inovação e Comunicação na Federação de Ginástica de Portugal explica como o organismo pretende que se olhe para a modalidade como um desporto que transmite valores.

Dez medalhas nos últimos Europeus de trampolins e um novo movimento de ginástica artística registado com o nome de uma portuguesa, Filipa Martins, no espaço de apenas duas semanas. Até que ponto este "momento" da ginástica pode favorecer o crescimento da modalidade no país?
Nós, em termos de classificações ou de qualificações, não beneficiamos nada enquanto federação pelo facto de a ginasta Filipa Martins ter obtido este resultado fantástico. O que o movimento "Martins" nos permite é mostrar a todos que a ginástica é uma modalidade de excelência e para todos. Em termos técnicos, foi fantástico o que a Filipa fez e que a levou a ficar ainda mais conhecida internacionalmente. Em termos de comunicação para a população portuguesa, fez com que as pessoas tivessem mais contacto com a modalidade. Há cerca de 15000 atletas filiados, mas ginastas são ao milhão. Só que não estão filiados.

Como avalia a prestação nacional nos Europeus de Trampolins?
Contámos com 35 atletas, dos 16 aos 35 anos, e foi uma das melhores prestações em termos de medalhas. Há alguns marcos importantes como o de Diogo Ganchinho, atleta conhecido nos trampolins, tendo feito par com Lucas Santos e conquistando prata em trampolim sincronizado. É preciso dizer que os Europeus contaram com sete medalhas de prata e três de bronze. É um valor muito interessante. Os atletas estiveram sempre com treinos, pois pertencem à Seleção Nacional. E mesmo com muitas limitações, devido à pandemia, atingiram-se excelentes resultados.

Como foi o processo para batizar o movimento "Martins"? Qual foi o papel da federação?
A Federação tem influência porque cria condições para os ginastas trabalharem diariamente a um alto nível. Mas não nos podemos esquecer de quem vem a seguir. As associações territoriais que fazem com que tudo possa realmente acontecer; o clube [Acro Clube da Maia], pois sem este a Filipa Martins não conseguia treinar; e, por fim, chegamos ao treinador. Sem o treinador, a Filipa não chegaria a este novo elemento, que o mesmo começou a ser desenvolvido há nove meses. Foi muito cai, levanta, cai, levanta, mas o levantar prevaleceu porque a Filipa realmente conseguiu realizar o "Martins". Foi dos elementos considerados mais difíceis. O movimento provém da cabeça da ginasta e do treinador, o que é maravilhoso. A ginasta, através deste "novo elemento", introduziu o seu nome no código de pontuação internacional. Em termos nacionais a ginástica já está a ganhar com isso. A Filipa é muito focada, treina de segunda-feira a sábado, várias horas por dia, tem as prioridades muito bem definidas e, mesmo estando neste percurso olímpico [vai aos Jogos de Tóquio], consegue estar na faculdade, no Porto, a fazer a licenciatura [Ciências do Desporto], conjungando bem o tempo.

Porque é que a ginástica ainda não é tão mediática como outros desportos?
É uma questão de conceito. Enquanto as pessoas vão para a rua e pegam numa bola e jogam, no caso do futebol e voleibol, porque é fácil de se praticar em qualquer lugar, já com a ginástica não é bem assim. Tem de se ter um ambiente minimamente controlado e daí a dificuldade para ser mais conhecida. A vantagem da ginástica, isto é uma opinião não só pessoal mas também técnica, é que está na base de todas as outras modalidades. As pessoas olham para a ginástica e pensam logo em movimentos muito controlados, alta competição, que é muito difícil, mas a verdade é que nós todos os dias fazemos ginástica. A ginástica é a modalidade mais abrangente que existe e isto é algo que direção atual da Federação quer transmitir. Esta não é mais uma modalidade, é a modalidade mais presente em todas as outras.

Que impacto teve a pandemia?
Estimamos que foi em 40%/45% a diminuição dos filiados dos nossos clubes. A nossa modalidade está a sofrer como todas as outras. Mas os que sofreram foram principalmente os clubes desportivos.

As prestações dos ginastas foram prejudicadas por terem de treinar sozinhos?
Sim. A parte social e o companheirismo são essenciais. A ginástica, por definição, é um desporto individual, embora hajam especialidades que tenham mais do que um praticante, como, por exemplo, na ginástica acrobática ou trampolim sincronizado, em que o resultado final depende da prestação dos praticantes em conjunto. A ginástica requer resiliência, muita dedicação para chegar a altos níveis, uma boa performance, e por isso é impossível fazer a modalidade sozinho.

Como se pode potenciar estes resultados para atrair mais ginastas?
Boa pergunta. Para ter mais praticantes, os bons resultados que temos que transmitir são os socioafetivos e socioemocionais e os da saúde, que se relacionam com a prática da ginástica, e não os bons resultados técnicos em provas. Para potenciar mais resultados técnicos, temos de ter mais praticantes. Para ter mais praticantes há que transmitir os valores da ginástica, fazê-los chegar mais à população. Mas, no fundo, é a parte da saúde e acima de tudo as softskills, disciplina, resiliência, auto-confiança, competência. Quando as pessoas souberem que as crianças que entram no ginásio já desenvolveram quase todas estas softskills, começam a olhar para a ginástica como uma modalidade de preferência. Na federação, no que toca à comunicação, a estratégia para cativar mais pessoas é a divulgação de experiências de ginastas, ex-ginastas e treinadores. A ginástica está em todo o lado, com ótimos resultados. A modalidade e os métodos de treino têm vindo a evoluir. Antigamente aos 18, 19 ou 20 anos, já se era considerado "velho" para frequentar a ginástica. Hoje já não é assim. A prática é acessível e há vários clubes em todo o país. Como há várias disciplinas, toda a gente, de todas a idades, se consegue adaptar. - F.Q.

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