Quim: "Não voltei sequer a fazer uma corridinha desde a final do Jamor"

Depois de três décadas nas balizas, Quim guardou as luvas aos 42 anos, após a vitória do Aves sobre o Sporting na última final da Taça. Agora diretor de relações institucionais do clube nortenho, conta ao DN como têm sido os primeiros meses após a retirada e passa em revista uma longa carreira.

Mais de meio ano depois daquela atípica final da Taça no Jamor, em maio passado, Sporting e Desportivo das Aves voltam a encontrar-se neste domingo, em Alvalade, para a 12.ª jornada da I Liga.

Na baliza do Aves, contudo, já não estará Quim, o guarda-redes que no Jamor fez história, ao tornar-se o jogador mais velho a jogar uma final da Taça e a ganhá-la, numa tarde histórica também para o clube nortenho, que entrou para a galeria dos vencedores do troféu.

Aos 42 anos, depois de levantar a taça que não tinha conseguido ganhar por Benfica nem por Sp. Braga, Quim resolveu pendurar por fim as luvas. Agora, em semana de reencontro entre os dois clubes que se defrontaram no último jogo da sua carreira, o DN foi encontrar o antigo internacional no Complexo Desportivo das Aves, entre os gabinetes e ainda umas visitas ao relvado.

O cargo de diretor de relações institucionais permite-lhe suavizar a sempre difícil fase de transição que constitui para um (ex-)futebolista o final da carreira. No futuro, pensa talvez voltar a calçar as luvas para ensinar aos mais novos os muitos conhecimentos acumulados ao longo de quase 30 anos nas balizas. Mas, para já, ainda não voltou a usá-las desde aquele dia 20 de maio, em que o Aves bateu o Sporting num jogo marcado também pelos incidentes que afetaram a equipa leonina nessa semana que antecedeu a final, com as agressões na academia de Alcochete.

Em entrevista ao DN, Quim fala de tudo isso. Destes primeiros meses de vida pós-futebolista, das memórias dessa final, de um feito histórico ao qual "se calhar só mais tarde se vai dar o devido valor", de como viu os jogadores do Sporting "de rastos", de uma carreira da qual se orgulha, dos anos no Benfica, de Jorge Jesus, da nandrolona que ficou como mágoa, das diferenças entre o futebol e entre os futebolistas das várias gerações com que se cruzou e até de quem lhe pôs o nome Quim no futebol (correu o risco de ser com K). Entre várias outras coisas.

"Às vezes dá aquela saudade, mas passa rápido"

Como têm sido estes tempos depois de ter pendurado as luvas, ao fim de tantos anos de futebol?
Diferentes. É toda uma nova etapa, para a qual tive tempo de me preparar. Foram muitos anos a jogar futebol e algum dia tinha de ser. Foi na altura ideal, depois de uma final da Taça ganha, que ainda não tinha no currículo.

Isso pesou na decisão?
Pesou, não digo que não. Mentalmente já estava preparado e é um passo mais fácil ficando ligado ao futebol. Ficar ligado à estrutura para mim foi importante. Acabar a carreira e ficar em casa sem ter nada para fazer seria mais difícil.

Mas sente saudades do cheiro a relva, como se costuma dizer, ou de calçar as luvas?
Não digo que não, mas acho que já estava na altura, acima de tudo, aos 42 anos. Às vezes vem aquele bichinho, principalmente na altura dos jogos, com a adrenalina que se sente naquela hora antes do jogo. As minhas funções permitem-me estar aqui junto com a equipa, estar no balneário antes do jogo, e nessa altura, nessa meia hora antes de ir para o jogo, dá aquela saudade, a vontade de poder ir para o aquecimento, mas passa rápido. Tenho consciência de que já não é possível.

Como é que se preparou para essa transição ao longo dos últimos anos? Como disse, não foi uma coisa inesperada o fim de carreira.
É uma coisa natural. Não é fácil e vejo que muitos jogadores passam por tempos complicados depois de terminar a carreira, mas o fundamental é estar preparado. Já vínhamos a falar sobre isso há algum tempo, a nível familiar, foi muito esse trabalho. Esse dia tinha de chegar. Quando ainda jogava pensava que ia sentir a falta de me pôr a pé cedo e ir para o treino, tomar o pequeno-almoço com todos no grupo e tudo o mais. Essa ideia assustava um pouco. Mas não custou assim tanto, provavelmente porque foram muitos anos. Não digo que não pudesse fazer mais um ano ou outro, mas foi uma decisão que chegou na altura certa.

"Quando jogamos à bola só pensamos nos treinos e nos jogos. Depois, nesta fase, é que sentimos a falta de não termos aproveitado os momentos mortos para preparar a transição. Eu deixei muito andar"

Mas foi fazendo algum curso ou formação específica para facilitar também esta transição?
Infelizmente não. Quando jogamos à bola só pensamos nos treinos e nos jogos. Depois, nesta fase, é que vamos sentir a falta de não termos aproveitado aqueles momentos mortos que vamos tendo na carreira para preparar a transição. Nós deixamos muito andar. Eu deixei muito andar. E agora se calhar arrependo-me um pouco disso. Podia ter já algo mais para esta transição, mas pronto, também tem de haver agora um pouco de acalmia na minha vida. Foram muitos anos de stress. Provavelmente agora vou começar-me a preparar para talvez tirar o primeiro nível de treinador e um dia ser treinador de guarda-redes, porque foram muitos anos dentro daquele retângulo.

As balizas são mesmo a grande paixão, é isso?
Provavelmente passará por aí. Não digo que não, nem quando será, mas com certeza que me irei preparar nesse sentido.

E como é que são então as rotinas agora?
Praticamente têm sido as mesmas, porque eu estou cá à hora dos treinos, não digo exatamente com os horários do plantel, já não tenho a preocupação da caixinha das multas, mas acompanho as rotinas dos treinos. Nos dias de jogo também, não vou para estágio mas estou cá com a equipa, duas horas antes do jogo, quase tudo igual.

O que faz o diretor de relações institucionais?
É ser um bocado a imagem do clube. Ir a sorteios da taça, representar o clube em situações que o possam solicitar. Depois, também estar com a equipa, tentar ajudar os mais novos. Foram muitos anos de experiência e às vezes uma conversa com os mais jovens pode ser útil, partilhar coisas que eu passei e por que os mais jovens vão passar, para que possam estar mais preparados nesse sentido.

Há muitos jovens jogadores a vir aqui bater à porta a pedir-lhe conselhos?
Alguns mostram interesse, mas bastam até as conversas normais do dia-a-dia, a partilhar experiências que tive, que ajuda sempre quem está a começar.

Nunca mais pegou nas luvas desde aquela final da Taça?
Infelizmente, nunca mais fiz uma corridinha sequer e nunca mais calcei umas luvas desde a final da Taça. Estou a precisar, porque já engordei uns quilinhos e isso, parecendo que não, custa.

Nem jogos de amigos ou de veteranos, nada?
Não, nem isso. Mas tenho de preparar-me fisicamente, porque desde o jogo da final da Taça que não fiz mais nada.

Mas ainda tem as luvas da final?
Estão lá guardadas, para qualquer dia.

Era um jogador que gostava de guardar esses objetos ao longo da carreira: luvas, camisolas, troféus, outras recordações?
Eu, pessoalmente, não. Mas tenho a minha esposa que costuma fazer isso por mim. Eu sou um baldas. Por acaso tenho as luvas da final da Taça porque tenho dois filhos e dei uma a cada um. As próprias camisolas especiais que podia ter, de um jogo ou outro, podia guardá-las, mas sinceramente nunca liguei a isso ao longo da carreira. Tenho algumas. Eu não era muito de pedir, mas quando me pediam para trocar eu trocava. Mas tenho uma mulher em casa que é mais zelosa e tratou dessas coisas por mim, guarda até recortes de jornais de quando comecei a carreira.

"Nunca mais fiz uma corridinha sequer e nunca mais calcei umas luvas desde a final da Taça. Estou a precisar, porque já engordei uns quilinhos"

Disse que tem dois filhos. E eles sentiram essa diferença, de terem o pai mais disponível em casa agora?
Sentiram. Agora estou mais em casa. O jogador de futebol quase todos os fins de semana tem estágios. O stress da competição, o nervosismo que se sente ao longo da semana, agora também não existe. A tranquilidade é diferente. E a minha mulher é que sente mais isso.

Ela aproveita também para cobrar mais lá em casa agora, nas tarefas domésticas? Deixou de ter desculpas para não ir pôr o lixo lá fora?
Claramente. Às vezes podia dar aquela desculpa de estar cansado, ter treino amanhã e tal, mas agora já não tenho hipótese.

"O Aves fez o impensável. Contado, ninguém acredita"

É semana de Sporting-Aves, o que traz a memória desse último jogo que fez, no Jamor. Tem avivado mais essas recordações por estes dias?
Sim, um pouco. Acredito que os meus colegas [jogadores] vão certamente reavivar essas memórias, boas para o clube e para eles. E nós, por fora, eu e outros que estiveram nessa final, também. Foi um jogo importante, mas agora tudo é diferente. O Sporting é diferente, o momento do Sporting é diferente, para o Aves também, não há jogos iguais... mas o objetivo passa pelo mesmo, que é tentar fazer o melhor para vencer.

E para si, em específico, fá-lo recordar esta semana todos os pormenores daquela final?
É difícil. Eu às vezes ponho-me a pensar que nós não damos o valor devido às coisas e se calhar não demos o valor devido a essa final. Essa semana passou tão rápido que nós fomos olhando para trás e não conseguimos lembrar-nos de muita coisa. Foi tanta coisa junta, que o que vem à memória mais rápido é o próprio jogo em si.

"Eu tinha conseguido estar em duas finais, pelo Braga e pelo Benfica, e não consegui vencer. Nunca imaginaria que pudesse chegar ao Aves e vencer"

E o que é que lhe vem à memória, que momento mais marcante dessa final?
O ir ao relvado, antes do aquecimento, quando a equipa chegou ao estádio, e ver as pessoas do clube, os adeptos do Aves. E depois, quando subimos ao relvado para o início do jogo, ver aquela bandeira do Aves a subir, passa muito por aí. Quando penso nisso... por isso é que digo que se calhar não demos o devido valor àquela situação. Pareceu uma coisa tão simples na altura que nós agora olhamos para trás e pensamos, de facto, como é que foi possível isto acontecer. Mas aconteceu. E é uma coisa quase impensável, um clube como o Aves ganhar a Taça de Portugal. Só 13 clubes em Portugal conseguiram ganhar a Taça, penso eu. O Aves fez o impensável. Contado, ninguém acredita. Mas aconteceu. E um clube como o Aves, que não está habituado a estas situações, em dois anos seguidos teve a festa da subida e a festa da Taça. Eu vivi um período fantástico no clube.

Algo que provavelmente nunca lhe terá passado pela cabeça quando tomou a decisão de descer um degrau na carreira e trocou o Braga pelo Aves, então na II Liga...
Sinceramente nunca pensei. Pensei na subida, isso sim, porque o Aves era sempre um candidato. Só esteve três vezes na I Liga, esta é a primeira vez que consegue manter-se dois anos seguidos, mas para subir de divisão era sempre um candidato. Agora, uma final da Taça... Eu tinha conseguido estar em duas, pelo Braga e pelo Benfica, e não consegui vencer. Nunca imaginaria que pudesse chegar ao Aves e vencer. São coisas que nós iremos guardar para a vida.

Que flashes do jogo mais recorda? Alguma defesa, uma jogada em específico?
Lembro que acabei o jogo, posso dizê-lo, no limite. Caí até duas vezes com cãibras, mas não foi do cansaço. Foi do stress emocional, da intensidade do jogo, uma final. Os jogadores às vezes caem com cãibras e nem sempre é do cansaço físico, mas sim do stress, do acumular de tensão que se vai tendo. Recordo isso e, depois, desde o apito final do árbitro, coisas impensáveis que jamais pensei que pudessem vir a acontecer.

"No futebol, aquilo que aconteceu ao Sporting não pode acontecer. Mas aconteceu"

Aquela foi uma final da Taça atípica por vários motivos, entre eles as circunstâncias que rodearam a equipa do Sporting naquela semana. Perceberam isso em campo também?
Nós conseguimos levar de vencida o Sporting porque encarámos o adversário como se estivesse a passar uma fase normal. Se tivéssemos encarado o Sporting como estando fragilizado por estar a viver aquele momento, acho que não tínhamos vencido esse jogo. Preparámo-nos para defrontar o melhor Sporting, nas suas plenas capacidades. Foi aí que começámos a vencer. Nós sabíamos perfeitamente, e é verdade, a situação que eles viviam, mas não podíamos estar a pensar que iria ser mais fácil por causa disso, porque os jogadores do Sporting também iam querer muito ganhar essa final. Até mais do que o normal, se calhar, pelas dificuldades por que passaram, não terem treinado quase a semana toda, tudo isso pesa e iria pesar num jogo. Mas também sabíamos que se o Sporting sofresse primeiro iria ser difícil levantar a cabeça.

O Quim, no final do jogo, teve umas palavras de solidariedade para os jogadores do Sporting. Falou com eles na altura, percebeu que eles estavam mesmo afetados com o que viveram?
Sim, notou-se mesmo no fim do jogo que eles estavam de rastos, a semana foi difícil e, depois, com uma final daquelas que perderam... não queria estar no lugar deles. No futebol aquilo não pode acontecer, mas infelizmente aconteceu. Estávamos solidários com os jogadores do Sporting, mas conseguimo-nos abstrair disso na preparação do jogo.

"Notou-se no fim do jogo que eles [jogadores do Sporting] estavam de rastos, a semana foi difícil e depois perderem a final... Não queria estar no lugar deles"

E agora, em semana de reencontro, o que lhe parece este Sporting que o Aves vai defrontar a Alvalade? Já não tem nada que ver com esse do Jamor? É um Sporting normalizado?
Se normalizou, é difícil estar a falar sobre isso. Agora, penso que eles estão melhor, tem-se notado isso. Acho que esta época teve um início um pouco atribulado, foram muitos casos juntos, mas as coisas têm assentado agora, também com o novo treinador, e o Sporting tem melhorado. Mas, da mesma forma que pensámos para o jogo da final que o Sporting estava no máximo, também agora não podemos estar a pensar que por o Sporting estar bem melhor vamos sair por baixo. Não, o pensamento tem de ser igualmente positivo, trabalhar da mesma forma. É o próximo adversário e um adversário para tentar vencer, como todos os outros.

Acha que o futebol português está melhor sem Bruno de Carvalho?
Não vou entrar por aí. Isso não me diz respeito. Acho que o que aconteceu foi mau para o futebol português, foi mau para o Sporting, todos nós desejávamos que não acontecesse, mas aconteceu. Agora, não me compete a mim estar a opinar sobre isso. O que interessa dizer é que são coisas que não deveriam acontecer no futebol português e que só estragam o futebol.

"Senti sempre aquele nervosismo antes dos jogos. Aos 18 anos ou aos 42"

Como dirigente, agora, como liga com as emoções do jogo? Sofre-se mesmo mais da parte de fora do que lá no relvado?
Sim, eu já roía as unhas antes, agora roo muito mais. Vou para ali para os camarotes e não consigo estar parado, não consigo estar sentado. O nervosismo se calhar é mais do que quando se está lá dentro. Lá dentro há um nervosismo no início, mas depois passa. Agora sinto mais o jogo, sofro mais do que quando jogava. É muito mais difícil para mim.

Enquanto jogador também sentiu sempre aquele nervoso miudinho antes dos jogos, até depois dos 40 anos?
Eu, desde o início da minha carreira e até ao fim, aos 18 ou aos 42 anos, quando ia para um jogo sentia sempre esse nervosismo no início. A partir do momento em que começa o jogo a concentração é tanta que isso vai passando, aos poucos. Mas, aos 42, continuava a sentir isso antes do jogo.

No fundo, é ter o sentido da responsabilidade, não?
Claramente. Ainda para mais sendo guarda-redes. É aquele a quem todos apontam o dedo se alguma coisa corre mal... Pode-se fazer dez grandes defesas, mas se no minuto seguinte der um frango já ninguém se vai lembrar das dez grandes defesas.

"Tal como um frango muitas vezes a gente não sabe explicar, também aquela defesa não sei como é que a fiz. Foi num Braga-Porto, a um remate de Hulk"

E o que recorda mais da carreira, as grandes defesas ou os frangos?
Eu sou sincero, recordo-me mais dos erros do que das defesas. Ficam mais na memória. Ainda ontem estivemos a falar de um que eu sofri por entre as pernas, contra o Aves, a jogar pelo Benfica, no Estádio da Luz, a remate do Filipe Anunciação. Só quem passa por lá sabe como é. São coisas que nem sabemos explicar como é que aconteceu. Esses erros recordo com mais facilidade, confesso.

Mas também recorda algumas grandes defesas, não? Se lhe pedir para identificar a grande defesa da sua carreira não consegue lembrar-se de uma?
Consigo identificar uma. Porque, é daquelas coisas, tal como um frango muitas vezes a gente não sabe explicar como é que o sofreu, também aquela defesa não sei como é que a fiz. Foi num jogo Braga-Porto, a um remate de Hulk, quase na linha de fundo. Só visto. Nem eu sei como é que aconteceu. Mas, para mim, o mais fácil é o mais difícil para um guarda-redes e a defesa mais fácil é mais importante do que a mais difícil. Veem-se muitos erros dos guarda-redes no futebol que são erros infantis, porque a concentração dos guarda-redes tem de estar no máximo ao longo dos 90 minutos. E perante a bola mais fácil é quando às vezes facilitamos. Isso é o pior que pode acontecer. Para mim, o mais simples no futebol é o que tem mais valor.

Daí também aquela ideia de que nem todos os bons guarda-redes servem para um clube grande?
Não é para todos. Vemos aí guarda-redes que fazem grandes campeonatos em clubes de menor dimensão e depois chegam a um grande e desaparecem. Não é fácil estar 90 minutos em jogo e só numa situação, aos 80 minutos, a bola vai lá. Temos de estar concentrados. Num clube onde, em 90 minutos, somos postos à prova seis ou sete vezes é muito mais fácil.

"Só a partir dos 30 anos é que me comecei a sentir verdadeiramente guarda-redes"

Sentiu muito essa diferença quando foi para o Benfica?
Senti, porque a abordagem para quem chega ao Benfica tem de passar a ser encarar cada jogo com a obrigatoriedade de ser campeão. E o guarda-redes tem de estar preparado para corresponder quando é chamado a intervir no jogo. Se falharmos, sabemos que temos 50 mil nas bancadas a assobiar. Isso não é fácil, temos de estar preparados para isso. É diferente do que termos 500 pessoas a ver um jogo, acontecer um erro e quase não os ouvirmos. Com 50 mil é diferente.

O que dá mais gozo na perspetiva do guarda-redes? Estar num Benfica a ver o jogo passar durante quase 90 minutos, na maior parte das vezes, ou estar num clube de menor dimensão a fazer uma mão-cheia de grandes defesas por jogo?
O que cada profissional quer é jogar numa equipa grande e chegar lá e jogar com 50 ou 60 mil pessoas a assistir. Jogar a Liga dos Campeões não tem nada que ver do que jogar para não descer de divisão. Gostava mais dessa adrenalina desses jogos de maior responsabilidade. Mas não é fácil e há jogadores que, não vou usar a expressão que se costuma dizer, acusam a pressão. Tem de se ser muito forte mentalmente. Para mim é o fator principal num guarda-redes hoje em dia.

Olhando para o nosso campeonato, três grandes e não só, acha que estamos bem servidos de guarda-redes atualmente?
Acho que sim. Toda a gente falava, na altura, quando chegaram o Júlio César e o Casillas, que vinham para cá acabar a carreira. Não é bem assim. Quando se fala de grandes valores desses, são sempre bem-vindos ao futebol português, mais não seja para os jovens poderem aprender com esses exemplos. Nós temos de aprender é com os melhores. Eu aprendi.

Com quem aprendeu? Tinha algum ídolo?
Na altura tinha o Vítor Baía como um ídolo e procurava ver o que ele fazia, não para imitar, mas para procurar chegar lá, ao patamar em que ele estava. E temos tido muito bons guarda-redes. O Benfica tem tido uma fase fantástica, desde o Oblak, ao Ederson, jovens que apareceram praticamente do nada, até este Vlachodimos, que também quase ninguém conhecia. O Sporting também esteve muito bem servido com o Rui Patrício e agora ainda é um bocado cedo para falar do Renan. O Casillas tem demonstrado toda a sua qualidade no FC Porto. Dizer que veio acabar a carreira? Ainda tem muito valor. Em Portugal tem-se a noção de que aos 30 anos já se é velho, não é bem assim. Eu, como guarda-redes, só a partir dos 30 é que comecei a ser verdadeiramente um guarda-redes, porque a experiência num guarda-redes é fundamental. A mim ajudou-me imenso.

"Tinha o Vítor Baía como um ídolo e procurava ver o que ele fazia, não para imitar, mas para procurar chegar ao patamar em que ele estava"

Ainda há dificuldades em apostar nos jovens portugueses para as balizas?
Temos vindo a melhorar, mas ainda se pode fazer muito mais. Tem havido bom trabalho na formação, e agora o campeonato sub-23 veio ajudar, mas depois quando se sobe a sénior há que continuar a aposta. Ainda é mais fácil escolher-se um estrangeiro, mesmo que sem nome, do que apostar num jovem português.

O Quim passou a maior parte da formação no Sp. Braga, foi lançado lá na equipa principal. Como vê agora esta aposta do Sp. Braga no Tiago Sá?
Vejo de forma natural, porque conheço bem a forma de trabalhar no Sp. Braga em termos de guarda-redes. O Sp. Braga teve sempre grandes guarda-redes, de seleção... eu, o Eduardo, o Marafona, que não foi formado lá mas também um grande guarda-redes. O Tiago Sá trabalhou comigo. Era júnior, trabalhava na equipa B na altura e já se notava a sua qualidade. O Tiago Sá não apareceu agora, já vem das camadas jovens a mostrar qualidade e a jogar. A aposta é natural e acredito que mais cedo ou mais tarde será um guarda-redes de seleção.

"Fui parar à baliza por ser o mais alto. E depois 'acusaram-me' de ser baixo para guarda-redes"

Começou no Ruivanense, pequeno clube de Famalicão, a avançado. E só foi parar à baliza porque houve um dia em que faltaram os guarda-redes, é assim?
É verdade, os guarda-redes faltaram, já não me recordo por que razão, e fui eu para a baliza, curiosamente por ser o mais alto. Digo curiosamente porque, depois, fui "acusado" na minha carreira de ser um guarda-redes baixo. Eu, que só fui parar à baliza por ser o mais alto.

O Manuel Cajuda, seu antigo treinador, tinha uma explicação para isso. Dizia que o Quim "não sabia vestir o equipamento", não tinha cuidado com a imagem e saía prejudicado. É assim?
Ele pessoalmente também me dizia isso. Isso vai muito da natureza de cada um. Eu sou o mais simples possível, nunca me preocupei com a imagem. Se calhar era um bocado baldas nesse sentido, mas eu queria era jogar. Eu sabia que o que tinha de acontecer seria fruto do meu trabalho e não pela imagem ou por me pôr em bicos de pé para a fotografia. Mas, quer queiramos quer não, o futebol hoje em dia vive muito da imagem e eu, se calhar, também perdi muito por ser assim. Mas sou o que sou.

No Braga, chamavam-lhe o Quinel. Como surgiu isso?
É de família. Vem das terminações de Joaquim e Manuel, que são os meus nomes próprios. E "pegou", tanto na família como nos amigos da escola. O Quim só apareceu no futebol também. Recordo-me de que fui para Braga, já como guarda-redes, cheguei lá e o treinador perguntou: "Como é que te chamas?" Eu disse, Joaquim e ele: "Eh pá, Joaquim não é um bom nome para o futebol, ficas Quim."

Quem foi esse treinador?
Foi o mister Orlando Sampaio. É a ele que devemos o Quim. Ele até perguntava: "Quim com K ou sem K?" Recordo-me como se fosse hoje. E eu aí disse: "Não, sem K." Ao menos isso.

"Fui para Braga, cheguei lá e o treinador perguntou: "como é que te chamas?" Eu disse Joaquim e ele: "eh pá, Joaquim não é um bom nome para o futebol, ficas Quim"

É verdade que era um fumador agressivo até uma fase adiantada da carreira?
Não era muito agressivo. Vá, fumava um maço de tabaco por dia. Agora posso contar isso. Eu deixei de fumar quando tive a lesão no tendão de Aquiles [2010-11], mas a minha carreira foi praticamente toda a fumar, é verdade. Infelizmente. Tive plantéis em que 80% dos jogadores fumavam. Hoje em dia, se aparecer um ou dois é muito. Os tempos mudaram.
Consegui deixar de fumar quando me foi aconselhado porque iria ajudar na recuperação da lesão grave que tive, na primeira época de Braga depois de sair do Benfica. Deixei e nunca mais fumei. Mas antes, o cigarro ajudava-me a relaxar um pouco do stress dos jogos. Era quase como um calmante. Mas consegui, felizmente, deixar e foi o melhor que podia ter feito.

Já a bebida não era o seu forte nos primeiros tempos de Braga, diz o seu ex-colega Barroso...
(Risos)... A velha mesa de quatro. Eu, o Tiago, o Barroso e o José Nuno Azevedo. O treinador deixava beber um copinho à noite e como nós os dois, eu e o Tiago, não bebíamos, eles chamavam-nos para a mesa deles: "Tu e tu, sentem-se aqui." Quando vinha o empregado servir o vinho, nós não queríamos e eles diziam: "Deite, deite." Eles em vez de beber um bebiam dois e nós é que passávamos por borrachões.

Na primeira época de sénior do Quim, no Braga, ainda tinha no plantel jogadores como o Jaime Pacheco, Karoglan, Barroso, também alguns elementos das gerações de campeões do mundo sub-20 em 1989 e 1991 como o Paulo Alves, o Gil, o Toni. Depois atravessou a geração Ronaldo, Quaresma e ainda a que veio a seguir a essa. Notou grande evolução nos futebolistas ao longo dessas gerações ao nível dos comportamentos, hábitos de grupo, formas de estar?
Muitas, muitas. Foram épocas totalmente diferentes. Maneiras de pensar diferentes do jogador do futebol. O futebol mudou completamente. Aquilo dantes, dois miúdos a beber vinho à mesa dos capitães, não era fácil. Agora são outros tempos. Alguns que andam aí pensam que já conseguiram tudo no futebol, que já são os maiores. Nós, naquela altura, tínhamos de entrar e dizer bom-dia aos mais velhos, perguntar se podíamos sentar ou levantar. No balneário agora fazem o que lhes apetece, mas pronto, são outros tempos.

"Fumava um maço de tabaco por dia. Agora posso contar isso. Deixei de fumar quando tive a lesão no tendão de aquiles"

Que grandes diferenças foi notando?
Já falámos dos exemplos de fumar e de beber. Hoje em dia haverá um ou outro que bebe, mas a maioria é Coca-Cola. Tudo mudou. A maneira de pensar, tudo. Na altura não havia telemóveis, computadores portáteis, os headphones... no balneário era um ambiente de verdadeira família, de constantes brincadeiras, palhaçadas, em interação constante uns com os outros. Agora, cada um vive o seu. Há os telemóveis, os gadgets, vive-se cada um para si, demasiado. Não sei o que está bem ou o que está mal, mas identifico-me mais com os valores dessa primeira geração que apanhei no futebol. Havia brincadeiras de balneário que hoje, se calhar, é impensável acontecer.

Lembra-se de alguma?
Ui, não vale a pena estar a lembrar. É melhor não (risos).

Portanto, não acabou a carreira também a entrar e a sair do autocarro de headphone na cabeça e a olhar para o telemóvel...
Não, de headphone não. O telemóvel, claro, a gente vai utilizando cada vez mais. Também temos de nos ir atualizando (risos).

"O Jorge Jesus tem opções que por vezes são impensáveis num ser humano"

Guarda alguma mágoa em relação ao futebol? Muita gente costuma apontar a sua saída do Benfica, no ano seguinte a ser campeão e a jogar a titular, como uma decisão inexplicável de Jorge Jesus. É a grande marca negativa que ficou ou há outras?
Não, isso aí foram opções e nós que andamos no futebol temos de ter consciência de que, mesmo não gostando, são opções de cada um. É lógico que foram opções que, se calhar, não passavam pela cabeça de ninguém, mas temos de seguir em frente. Não foi uma questão minha, foi uma questão do treinador e das suas opções. Mais negativo para mim, se calhar, foi a questão do antidoping, da nandrolona que acusei num teste antes do Mundial 2002 e que estou farto de dizer que até hoje não sei porquê. Não sei de onde veio aquilo, estou de consciência tranquila, sei que não fiz nada para aparecer isso. É mais isso que me magoa, o resto são opções. Claro que é complicado para um jogador de futebol jogar 30 jogos e, não é ser dispensado porque eu acabava contrato, sair sem renovar contrato quando os outros guarda-redes que estavam lá continuaram e eu, que joguei 30 jogos, não. É um bocado complicado, mas são opções e não podemos fazer nada. Temos de seguir em frente.

O Jorge Jesus tem muitos fãs no futebol português, mas o Quim não ficou um deles, é isso?
Não é questão de ser fã. Eu continuo a dizer que, para mim, é um grande treinador. Na maneira de encarar o futebol e o jogo é muito bom. Mas como pessoa tem coisas que... não liga muito a... eh pá, eu não queria falar muito disso, mas não sou o único a falar, há jogadores que trabalharam com ele que já disseram o mesmo. Ele tem opções que por vezes são impensáveis num ser humano. Mas, pronto, ele é que sabe.

"O momento mais negativo, para mim, foi a questão da nandrolona num teste antes do Mundial 2002. Até hoje não sei de onde veio aquilo"

Entrou no Benfica e foi campeão na primeira e saiu depois como campeão também...
Sim. Foram seis anos muito bons no Benfica. E orgulho-me, sinceramente, de toda a carreira que fiz. Se poderia ser melhor? Poderia, talvez. Mas tenho a consciência tranquila de que o que consegui foi devido ao meu valor e não com ajudas de este ou daquele ou de coisas extra futebol. Não. Muita gente fala que faltou talvez uma saída para o estrangeiro, mas teria de ser para uma coisa que compensasse bem e não apareceu. E jogar, para mim, no maior clube português, que é sem sombra de dúvidas o Benfica, foi fantástico.

Eventualmente na seleção A terá faltado também algo mais? Fez um jogo num grande torneio, salvo erro, quando entrou nos instantes finais daquele 3-0 à Alemanha no Euro 2000, o dos três golos do Sérgio Conceição.
Sim, entrei no último minuto. Mas representar a seleção, sempre o disse, só de lá estar já é muito bom. Só conseguem lá estar três na convocatória. Durante a minha carreira estive praticamente sempre nesses três, nos três melhores do país. Só isso já é fantástico. Lógico que depois destes anos todos, das vezes todas em que fui chamado, ter 33 internacionalizações, se calhar foram poucas. Mas acima de tudo foi um grande orgulho representar a seleção, passei coisas muito boas, momentos fantásticos, que não são para todos. Infelizmente a final do Euro 2004 fica um pouco atravessada, porque ganhar uma competição com a seleção portuguesa era estrondoso. Não aconteceu nesse ano, mas felizmente aconteceu depois, no Euro 2016, em França. Se calhar toda a gente estava à espera que ganhássemos na final do Euro 2004 e não aconteceu e agora no Euro 2016 se calhar ninguém estava à espera e ganhámos. O futebol é mesmo assim e temos de estar preparados para o bom e para o mau.

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