Luís de Matos: "Não admito que me chamem charlatão"

A poucos dias de estrear um novo espetáculo, em Lisboa, o mágico Luís de Matos diz que tem a profissão mais honesta do mundo: "Eu digo que vou mentir e minto. Não estou a enganar ninguém."

Luís de Matos estreia o seu novo espetáculo, Impossível ao Vivo , na próxima quarta-feira (12 de dezembro) no Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa. Traz consigo a sua assistente, Joana Almeida, os Momentum Crew, campeões mundiais de breakdance, o manipulador sul-coreano Yu Hojin, o mentalista belga Aaron Crow e a dupla portuguesa de ilusionistas Tá na Manga. O mais conhecido mágico português, de 48 anos, garante que vai ser um "grande espetáculo", com números "fantásticos" e muita fantasia: "Tenho uma paixão pela estética. Procuro que as coisas que faço sejam bonitas e elegantes", diz o mágico que tomou "o país de assalto", em 1995, quando adivinhou os números do Totoloto.

Quantos anos de carreira já tem?

É muito difícil dizer quantos anos de carreira são. Como contabilizar? O meu primeiro espetáculo foi aos 9 anos, mas não posso dizer que tenha começado aí a minha carreira. Era um puto que fazia um truque nas festas de Natal. Quando é que se começa a contar? Comecei a ganhar dinheiro com espetáculos aos 15 anos, mas ainda não era um profissional. Então, andei a pensar nisso e, primeiro, resolvi que só devia começar a contar a partir dos 18 anos. Foi isso que fez, por exemplo, o Mick Jagger, que já cantava em miúdo mas só começou a contar a carreira aos 18.

Aos 18 anos já era profissional?

Na verdade, eu só posso dizer que sou profissional desde os 23 anos. Porque continuei a minha carreira académica, fui convidado para ficar na Escola Superior de Coimbra como docente, no curso de Engenharia Agropecuária, ao mesmo tempo que começava a ter séries na RTP. Tentei conciliar tudo o melhor que podia - e foi então que me habituei a dormir pouco e a dormir nas viagens para aproveitar o tempo. Mas aos 23 anos pedi a exoneração como funcionário do Ministério da Educação para me lançar em queda livre no mundo da "rádio, TV, disco e cassete pirata". Portanto, se contarmos a partir daí, foi há 25 anos.

Normalmente perguntam-lhe como é que se interessou pela magia. Mas, se pensarmos bem, esse interesse não é estranho. A maioria das crianças ficam fascinadas quando vê magia, não é?

Todos os miúdos querem ser mágicos quando forem grandes, pelo menos por um dia. Há aquele fascínio porque é algo surpreendente, espetacular e que não sabemos como se faz. O que aconteceu comigo foi que esse fascínio durou mais do que um dia. Eu tocava viola num grupo de teatro e havia lá um miúdo que fazia magia e eu aprendi com ele algumas coisas, muito simples, e o bichinho da magia nasceu aí, como hobby, e depois foi crescendo.

É verdade que era um miúdo tímido? Ninguém diria...

A magia é uma atividade muito boa para os miúdos tímidos, como eu era e como foram muitos dos mágicos. Os miúdos mais extrovertidos não precisam de nenhuma muleta para serem o centro das atenções. Um miúdo mais introvertido encontra na magia uma comunicabilidade que lhe garante à partida o sucesso. Porque eu sei fazer uma coisa que mais ninguém sabe. Isso dá-me a confiança para chegar lá à frente e dizer: "Escolham uma carta qualquer que eu vou adivinhar qual é." E de facto adivinho. Eu ainda sou tímido, mas perco a timidez quando estou a atuar e a fazer as minhas cenas.

E os seus pais o que é que acharam da ideia?

Os meus pais eram professores e diziam-me que eu tinha de ter um curso. E obviamente nunca se diz a um pai "eu quero ser mágico quando for grande". Isso é algo que eu desaconselho vivamente. Então, para os manter tranquilos, eu tirava bons resultados. Não porque achasse importante estudar. Se eu tirasse boas notas, os meus pais não se importavam que eu estivesse sempre a ensaiar ou a ler livros de magia. Nunca esteve em risco o meu desempenho académico.

Como é que nessa altura, sem internet, aprendia os truques de magia?

Procurava abundantemente livros. Encomendava por correio, ia às livrarias, ia aos alfarrabistas. Foi aí que nasceu a minha paixão por livros antigos e hoje tenho uma coleção de cinco mil e tal livros, dos quais o mais antigo é de 1573, até ao que acabou de ser publicado na semana passada.

Todos sobre magia?

Todos sobre magia e em todas as línguas, incluindo latim. Essa busca constante por informação levou-me a construir esta coleção que hoje uso como ferramenta de trabalho. Não é uma biblioteca expositiva, é uma biblioteca de trabalho. Consulto-a diariamente.

E via espetáculos de magia?

Sempre que podia. E via truques na televisão e tentava imitá-los. Não sabia como eles faziam então inventava um outro sistema, seguramente pior, mas que já dava para conseguir aquilo que queria. Isso era muito estimulante. A magia estimula a criatividade e a descoberta.

Quando é que a magia se tornou uma coisa mesmo séria na sua vida?

Foi gradual. Comecei a fazer espetáculos de Natal, depois espetáculos de Natal em empresas, também fiz o circuito das discotecas em que nem sequer tinha idade para entrar. Aos 18 anos comecei a ter participações regulares no programa da manhã da RTP, daí passou para uma série e um concurso e outra série, e passei do sábado à tarde para o sábado à noite, e quando dei por isso já era a sério.

A televisão foi, portanto, fundamental no seu percurso?

Eu teria sido mágico na mesma, sem televisão. Aliás, depois das primeiras séries na televisão as pessoas ainda não me reconheciam pelo nome. Isso só passou a acontecer quando, em 1995, eu fiz uma coisa que teve impacto nacional: adivinhei os números do Totoloto. Esse foi o momento de viragem, em que as pessoas deixam de falar de mim como um miúdo que faz magia na televisão e passam a dizer o Luís de Matos.

Isso de adivinhar os números do Totoloto era o truque que todos queríamos saber fazer...

É verdade. E, aliás, já na altura foi feito como uma intensão altamente pedagógica. Eu sou uma pessoa extraordinariamente cética, precisamente por conhecer os meandros da ilusão e por conhecer um pouco do modo como o nosso cérebro funciona no que toca a belief system e perceção. E a verdade é que a magia funciona porque o nosso cérebro tem uma forma peculiar de percecionar e de dar protagonismo a determinadas coisas. A magia utiliza isto. A arma principal chama-se misdirection - o controlar e desviar da atenção. Ora, é fundamental perceber como isto funciona e também perceber o quão simples é sermos enganados. Nós abrimo-nos a isto. Ao longo da nossa vida somos mais enganados do que pensamos - seja pela maneira como os produtos estão postos no supermercado, seja na forma como nascem igrejas e cultos, seja na proliferação de videntes e tarólogos, seja na homeopatia, que é uma das maiores fraudes dos nossos tempos. Todas estas coisas dão resposta a uma ânsia que nós temos para não sermos responsabilizados pelas decisões que tomamos. Temos essa capacidade de acreditar em coisas que são mal feitinhas. Portanto, o que eu fiz foi dizer naquele momento: atenção, o que eu faço é uma ilusão, o que eu faço é mentira. E ainda assim ficou comprovado que, com um país todo atento, a tentar descortinar como é que eu ia fazer, é possível enganar todas as pessoas. Ninguém acabou aquela semana a descobrir como é que eu fiz aquilo. Obrigado por terem acreditado, isso é um mérito para a minha equipa. Mas isso também nos diz que provavelmente é mais fácil sermos enganados do que aquilo que achamos. As pessoas querem acreditar e isso abre uma janela de oportunidade à vigarice.

No nosso dia-a-dia, quando usamos a expressão ilusão referimo-nos a algo que sabemos que não é verdade. Mas quando usamos a palavra magia queremos dizer algo diferente, já estamos a referir-nos a algo inexplicável, não é?

Sim, mas eu gosto da palavra magia. Encontrei uma definição que funciona bem. Para mim, truques são os sistemas - o fio fininho que não se vê, o espelho, o íman, o comando à distância, o alçapão, são as técnicas. Com truques faço ilusões, que posso fazer sozinho, no estúdio, com a minha equipa. Como o compositor compõe, o pintor pinta, o escritor escreve. Magia é quando eu pego na ilusão que eu fiz e ponho-a num palco ou num programa de televisão. Eu partilho a minha ilusão e a forma como o espectador a perceciona pode convertê-la num momento mágico sempre que me confie a sua capacidade de sonhar, que me permite que eu desafie a sua imaginação. É como o cinema, quando estamos a ver um filme e acreditamos e nos emocionamos. A história ganha vida. E é quando acontece a magia.

Temos de nos deixar levar...

Mas não podemos perder a noção de que aquilo que estamos a ver não é real, porque se fosse real não tinha piada nenhuma. Se existisse o Homem-Aranha eu não ia vê-lo ao cinema, esperava que ele me viesse salvar quando estivesse em apuros. Se eu de facto conseguisse prever os números do Totoloto eu não fazia disso um espetáculo, queria era ganhar todas as semanas e comprava uma ilha. A arte está em criar um universo ilusório, que não existe, e no âmbito do qual se desenrola uma narrativa.

E nos espetáculos não há sempre alguém que aparece a dizer: vamos lá desmascarar este charlatão?

Eu não me importo que o façam, só não admito que me chamem charlatão. Eu digo que vou mentir e minto. Não estou a enganar ninguém. Eu não quero que acreditem que sou capaz de voar. Esta é a profissão mais honesta do mundo. Outra coisa: se quiserem saber como se faz eu explico, mas é uma seca. O que é melhor: ver a Missão Impossível ou ver um filme que mostra como se fez a Missão Impossível? Como se faz é pouco importante, apreciem o resultado final ou critiquem. Mas tem é de ser belo e deslumbrante. Tem de deixar de ser um puzzle que se tenta resolver.

Preparar um espetáculo destes exige imenso trabalho. Há quanto tempo é que está a trabalhar neste Impossível?

Eu decidi fazer este espetáculo há um ano. Mas não demorou um ano a ser feito. Levei uma vida inteira. Toda a minha experiência, as coisas boas e más, tudo vai estar ali. Vai estar toda a carne no assador. É por isso que eu costumo dizer que nós somos tão bons quanto o nosso último espetáculo. Quando olhamos para a obra de um escritor podemos dizer que a obra é magnífica, mesmo se tem ali um ou dois títulos mais fracos. Ou a carreira de um médico: um cirurgião pode já ter perdido doentes, mas continua a ser um ótimo cirurgião. No mundo do espetáculo, as falhas são fatais. Porque as pessoas esquecem-se facilmente do bom que fomos. E por isso temos de ser sempre bons. Cada espetáculo pode ser o último.

Por onde é que começa: sonha com uma coisa e só fica satisfeito quando consegue realizá-la?

Há dois caminhos: um é começar no efeito final, outro é começar na técnica. Por exemplo, deparamo-nos com um determinado objeto ou material e percebemos que ele tem algumas características que se o descontextualizássemos poderíamos usá-lo para conseguir produzir outro efeito. Mas pode ser: não era lindo se eu agora fosse por aqui a passear no jardim, tirasse o casaco e fizesse aparecer uma bailarina? E depois vou trabalhar para que isto seja possível. O Totoloto foi assim: havia imensa gente a dizer-me "ai és mágico, então porque é que não adivinhas os números do Totoloto?". E eu pus me a pensar como é que poderia fazê-lo.

Depois é tentativa e erro?

Tentativa e erro. Por cada ilusão que vê a luz do dia, há 19 que vão para o lixo. Às vezes eu gostava que as pessoas soubessem mais sobre o meu trabalho para poderem apreciá-lo melhor. Os mágicos escondem-se atrás de um segredo. Isso faz que a magia seja a única arte em que é possível mentir sobre o nosso talento (há mágicos de sucesso que não têm talento, só sabem o segredo). Por isso acho importante que as pessoas saibam como as ilusões são feitas, até para perceberem o trabalho a que a gente se dá para fazer algo que às vezes parece tão simples.

Não há limites, pois não?

A primeira descrição de um espetáculo de magia é de 2500 anos antes de Cristo, no Egito. Um dos truques do mágico era fazer o seu tigre sentar-se. Nessa altura, não se imaginava que seria possível amestrar um tigre. A verdade é que o trabalho da magia tem sido sempre prototipar o futuro. Os mágicos conseguem antes dos outros porque não têm de fazer de verdade, só têm de pegar na intenção e imaginar como seria torná-la real. Por exemplo: o sonho era chegarmos à Lua e há um mágico, Georges Méliès, que faz a chegada à Lua, no âmbito da ilusão. Nós hoje não conseguimos teletransportarmo-nos. Então, eu crio a ilusão de que me teletransporto: desapareço do palco e apareço por trás da plateia, instantaneamente. Os mágicos tornam possível o que é impossível. E nesse sentido estão sempre à frente do seu tempo.

Impossível ao Vivo
De Luís de Matos
Teatro Tivoli BBVA, Lisboa
De 12 de dezembro a 1 de janeiro
Bilhetes entre 10 e 24 euros

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