Afeganistão. Voando sobre um cemitério de impérios

Mala de viagem (1). Um retrato muito pessoal do Afeganistão.

A viagem constitui um espaço-tempo, onde se vivem experiências inolvidáveis e se obtém conhecimento. Porém, nem todos podem viajar para lá do seu pequeno mundo, porque a injustiça assim define o futuro de muitos de nós, lamentavelmente. O que a vida moderna nos trouxe recentemente é a ubiquidade da Internet e dos telemóveis, e assim as viagens não envolvem o mesmo nível de afastamento e de desligamento que em tempos implicaram. Por ordem alfabética, a partida desta rota pelo mundo faz-se, precisamente, sobre um dos povos que dificilmente tem do turismo uma pequena ideia. Não pisei o seu território, voei por cima dele, em viagem para outras paragens. Não conheço os jardins históricos, os bazares e os palácios de Cabul, nem senti os testemunhos que ficaram da segunda metade do século XX, quando a cidade ganhou o apelido de "Paris da Ásia Central". Este período de tranquilidade terminou quando Cabul foi ocupada pelos soviéticos. As guerras que se sucederam talvez tivessem apagado esses seus anos de glória até final da década de 1970. Sabia que, ir ao Afeganistão, só mesmo voando, porque por terra eu seria descauteloso. Durante esse percurso, simbolicamente, li parte do livro que à partida tinha preparado, "O Menino de Cabul", de Khaled Hosseini, que nos conta que, no inverno de 1975, tudo o que Amir mais desejava no mundo era ganhar um concurso de papagaios para poder impressionar o pai. Hassan, o seu amigo inseparável, esteve determinado a ajudá-lo. Porém, a família de Amir foi forçada a fugir do Afeganistão após a invasão soviética. Amir sabia que um dia teria de regressar à sua terra natal, em busca de redenção, apesar do cenário devastador contado pelo autor bestseller do "New York Times". Uma história admirável da cultura afegã. Uma história de guerra e de humildade que dá volta às entranhas. Não pisei o país, mas, sobrevoando-o e lendo este livro, senti-o e padeci, quase como se tivesse em cenário de guerra numa nação onde a mulher afegã é subjugada pelo poder masculino, onde os homens não se podem sentar ao lado das mulheres e não convém repetir, por uma questão de segurança, uma rua em passeio pela cidade. A logística é complicada. Nunca cheguei a provar os diversos pratos de arroz que dão fama à culinária afegã. Um deles tem um nome curioso, "Desafio", quando o arroz é mantido em água salgada e depois cozido em forno de barro ou tijolo, com óleo, manteiga e sal adicionado. Este método cria um arroz fofo, com cada grão separado, enquanto uma crosta de arroz caramelizada marrom-dourada (tahdig) se desenvolve no fundo da assadeira. Pratos de arroz são, culturalmente, as partes mais importantes de uma refeição e, portanto, muito tempo e esforço são gastos para os criar. As famílias mais ricas comem por dia. Casamentos e reuniões familiares geralmente apresentam vários pratos de arroz. Talvez, futuramente, o desafio passe do bodo para a vontade de pisar este país, quando conquistar a paz. Por ora, é um destino de alto risco, que só deve ser atravessado bem do alto, mas com lamento.

Jorge Mangorrinha, professor universitário e pós-doutorado em turismo, faz um ensaio de memória através de fragmentos de viagem realizadas por ar, mar e terra e por olhares, leituras e conversas, entre o sonho que se fez realidade e a realidade que se fez sonho. Viagens fascinantes que são descritas pelo único português que até à data colocou em palavras imaginativas o que sente por todos os países do mundo. Uma série para ler aqui, na edição digital do DN.

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