Mais sanções e isolamento: a prenda europeia para os 70 anos de Putin

Nova iniciativa junta líderes dos 27 Estados-membros da União Europeia com os dos outros 17 países europeus, tendo Rússia e Bielorrússia ficado de fora do encontro em Praga. Presidente russo festeja aniversário em São Petersburgo.

Susana Salvador
Os líderes de 43 dos 44 países da nova Comunidade Política Europeia estiveram em Praga (a dinamarquesa esteve ausente devido à crise política no país). | foto EPA/FILIP SINGER
Três pessoas morreram num ataque com mísseis russos em Zaporíjia. | foto EPA/Serviços de Emergência Ucranianos

O presidente russo, Vladimir Putin, faz 70 anos esta sexta-feira, mas não tem muitas razões para festejar, por causa dos contínuos recuos das forças de Moscovo na Ucrânia e o aumento das críticas contra a chefia militar. Na véspera do aniversário, o presente da União Europeia (UE) foram novas sanções e o primeiro encontro da Comunidade Política Europeia, que reuniu os líderes dos 27 Estados-membros aos de outros 17 países da Europa. A iniciativa do francês Emmanuel Macron só deixou de fora Putin e o seu principal aliado, o bielorrusso Alexander Lukashenko.

Mais do que comunicados conjuntos e uma vez que não havia uma agenda oficial, o importante era a foto de família do encontro dos líderes de 43 países europeus em Praga - a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, esteve ausente devido à crise política no seu país, que a levou a convocar eleições antecipadas. À entrada para o evento na República Checa, Macron disse que o projeto - que propôs em maio durante a presidência francesa da UE - tinha como objetivo enviar uma mensagem de "unidade" e de "intimidade estratégica". Isto apesar de várias divisões no continente.

"Este encontro é uma forma de olhar para uma nova ordem sem a Rússia", disse o chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, indicando que Putin "não tem um lugar" mas isso não significa que Moscovo esteja excluído para sempre do grupo. A ideia é haver encontros a cada seis meses, devendo o próximo ocorrer na Moldávia e o outro em Espanha.

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, fez uma intervenção por videoconferência, destacando precisamente a ausência da Rússia - "um estado que geograficamente parece pertencer à Europa, mas em temos dos seus valores e comportamentos, é o Estado mais antieuropeu do mundo". Zelensky disse ainda que a Ucrânia tem que continuar a lutar contra a invasão "para que os tanques russos não avancem sobre Varsóvia ou de novo sobre Praga", pedindo mais armas para o seu exército e que sejam aplicadas mais sanções "para castigar o agressor".

Mais sanções

O oitavo pacote de sanções europeu entrou em vigor e inclui novas proibições às importações e exportações para a Rússia, além de visar indivíduos que estão ligados à anexação das quatro regiões ucranianas - após os "falsos" referendos realizados em Donetsk, Lugansk, Kherson e Zaporíjia na semana passada. A ideia dos 27 é também avançar para um teto ao preço do petróleo russo que é transportado em navios por todo o mundo, mas os pormenores terão que ser discutidos dentro do G7.

Numa reunião bilateral à margem do encontro em Praga, o presidente francês pediu ao homólogo turco, Recep Tayyip Erdogan, que faça mais para evitar que o seu país seja usado pela Rússia para contornar as sanções ocidentais. Ancara não impôs quaisquer sanções a Moscovo, tendo o comércio entre os dois países aumentado substancialmente - para irritação tanto dos europeus como dos norte-americanos.

A presença da Turquia também não agradou aos gregos e cipriotas, com quem Ancara tem disputas há anos, mas a primeira-ministra sueca, Magdalena Andersson, disse ter tido um "bom diálogo" com Erdogan - que ameaça travar a entrada da Suécia e da Finlândia na NATO. Os países que há anos querem entrar na União Europeia, como a Geórgia ou os países dos Balcãs, avisam que este fórum não pode ser uma alternativa à adesão. A primeira-ministra britânica, Liz Truss, sob pressão em Londres por causa da sua política fiscal, aproveitou para fazer as pazes com França, depois de na campanha ter dito que não sabia se Macron era um amigo ou não, dizendo que ambos os países têm claro que o inimigo é Putin.

Putin na cidade natal

Procurando mostrar que não está tão isolado como os europeus querem fazer parecer, Putin tem na agenda do dia de anos um "encontro informal" com os líderes da Comunidade dos Estados Independentes, na sua cidade natal de São Petersburgo. Não é contudo claro se todos os responsáveis dos nove países que fazem parte deste grupo, formado após a dissolução da União Soviética, estarão presentes. Dois deles, da Arménia e do Azerbaijão, estiveram também no encontro em Praga, apesar da tensão que tem existido entre ambos devido a confrontos na fronteira.

Há dez anos, Putin também passou o aniversário com "a família e os amigos" em São Petersburgo, e houve homenagens por todo o país e na televisão. Mas os seus opositores também já punham em causa a imagem de "macho" que diziam que o presidente insistia em passar, numa altura em que o Kremlin ainda estava a lidar os protestos desencadeados pelas denúncias de fraude nas legislativas de 2011. No dia em que o presidente festejou os 65 anos, milhares de apoiantes do opositor Alexei Navalny saíram às ruas em várias cidades, no que este disse ser um "presente de aniversário" para Putin.

Em plena guerra na Ucrânia, as críticas públicas ainda não chegam a Putin, mas já atingem os seus principais generais. Face ao recuo das tropas russas dos últimos dias, um dos líderes instalados pelo Kremlin numa das regiões ucranianas anexadas sugeriu que o ministro da Defesa russo, Sergei Shoigu, que já passou férias com Putin, devia matar-se por causa das suas falhas militares. "Muitos dizem que se fossem um ministro da Defesa que permitiu este estado das coisas, eles podiam, como oficiais, disparar contra eles próprios", indicou o vice-responsável de Kherson, Kirill Stremousov. "Mas sabem que a palavra "oficiais" é uma palavra incompreensível para muitos", concluiu.

Recuos

A Ucrânia anunciou que recuperou mais de 400 quilómetros quadrados da região de Kherson (no sul) em menos de uma semana, já depois de Moscovo ter reclamado a anexação do território. No nordeste, desde 21 de setembro já terão sido libertadas 93 localidades, com as Forças Armadas ucranianas a avançar 55 quilómetros para dentro do território ocupado e recuperado 2400 quilómetros.

Três pessoas morreram num ataque com mísseis russos em Zaporíjia.© EPA/Serviços de Emergência Ucranianos

O caos é tal que sete mísseis russos destruíram um bloco de apartamentos em Zaporíjia, que Moscovo diz ter anexado mas que não controla. Pelo menos três pessoas morreram e 12 ficaram feridas no ataque, com o governador regional, Oleksandr Starukh, a dizer que esta é uma prova da capacidade de Moscovo atacar mesmo enquanto as suas forças estão a ser obrigadas a recuar. O chefe da diplomacia ucraniana, Dmytro Kuleba, acusou os russos de "atingir deliberadamente civis para semear o medo", numa mensagem no Twitter. "O terror russo tem que ser parado - pela força das armas, sanções e isolamento total", acrescentou.

O chefe da Agência Internacional de Energia Atómica, Rafael Grossi, visitou ontem Kiev deixando claro que a central nuclear de Zaporíjia - atualmente sob controlo russo - pertence à Ucrânia. "Para nós é óbvio que sendo uma instalação ucraniana, pertence à Energoatom", disse, referindo-se à empresa estatal de energia nuclear.

Putin, que assinou na quarta-feira o decreto da anexação das quatro regiões ucranianas, deu ordens ao seu governo para que assuma o controlo das operações naquela que é a maior central nuclear da Europa. Grossi, que disse temer um acidente nuclear quando foram registados combates no local, tem previsto viajar para Moscovo após a passagem por Kiev.

susana.f.salvador@dn.pt