Premium Tancos e a degradação das instituições

Um assalto a um paiol que estava guardado como se lá estivesse papelada inútil; responsáveis que desconheciam o inventário; um chefe do Estado-Maior do Exército que não percebe que foi no turno dele que tudo aconteceu; um ministro que diz graçolas do género "nem sei se houve assalto"; agentes de autoridade que acham que ter um mandato lhes permite definir a cada momento o que é o interesse nacional; e gente que mente com quantos dentes tem na boca.

A história parece complicada, mas não é. Também podia ser um conjunto de acontecimentos excecionais, mas tudo indica que também não é o caso. O que temos perante nós é um sinal avançado de uma perigosa degradação de algumas instituições.

A primeira é das Forças Armadas, designadamente do Exército. Quando um pilar da soberania tem um chefe que não tem a noção do lugar que ocupa, quando este não entende a responsabilidade direta que tem em todos os acontecimentos, é lícito concluir que quem está ao comando não tem consciência do papel institucional do próprio exército. É que a honra, a noção do dever e o sacrifício pessoal são parte importante da alma das Forças Armadas. Repito, se o CEME não percebe que era ele que estava na guarita não tem a mínima condição para continuar no cargo.

O governo, na pessoa, do ministro Azeredo Lopes, também ainda não entendeu bem as suas responsabilidades. Deixemos, neste momento, de parte a questão de saber se quem está a mentir é ele, o major Vasco Brazão ou o chefe de gabinete - alguém está. A sua reação aos acontecimentos iniciais, as várias tentativas de alijar culpas e, sobretudo, a incapacidade de liderar e responsabilizar-se pelo processo em curso foi deprimente. Mas, se o ministro não percebeu que tinha falhado redondamente, teria de ser o primeiro-ministro a tomar uma atitude que desse um sinal claro de que nada podia ficar como antes, de que algo de muito grave se tinha passado - aplicando-se o mesmo ao CEME. Havia que preservar o bom nome do Exército e mostrar claramente que, apesar da autonomia especial, o poder político comandava.

A falta de noção sobre o papel das instituições tem o melhor exemplo no famoso telefonema - que como quase tudo neste imbróglio carece de confirmação - em que alguém informava do local onde estavam as armas com o objetivo de defender o interesse nacional. Quando alguém com responsabilidades, por muito limitadas que possam ser, se acha capaz de definir o que é do interesse nacional ou não, estamos no território da discricionariedade mais absoluta. Despreza-se a forma como este se define, despreza-se a cadeia de comando, despreza-se a lei, que é o supremo valor de qualquer instituição.

Poder-se-ia afirmar que esta clara degradação do papel das instituições referidas está circunscrito. Mas não é verdade. Temos assistido, e ainda recentemente, a alguns sinais preocupantes. A forma , por exemplo, como alguns responsáveis políticos atuaram durante o processo de escolha do procurador-geralda República e reações posteriores faz que pensemos que há algo que está profundamente errado. Também aí se trocaram meros interesses partidários ou, tão-simplesmente, de agenda pessoal pela salvaguarda de outra instituição fundamental. A desfaçatez com que se disse que a partir de agora temos razões para duvidar das motivações de quem exerce a ação penal mostra bem a falta de consciência de gente que devia ser a primeira a defender as instituições. E, claro, quando pessoas com muito respaldo nas opiniões dos portugueses e que tiveram os mais altos cargos políticos as atacam aquelas ficam, por definição, fragilizadas.

Não é novidade para ninguém que as nações adoecem (nem vale a pena invocar o livro Why Nations Fail, de James Robinson e Daron Acelmogl) quando as suas instituições falham. São elas que mantêm as referências da comunidade, que são a salvaguarda dos nossos valores. Quanto mais sólidas mais estamos protegidos dos erros de homens e mulheres que conjunturalmente as servem e mesmo dos que tentam destruí-las. É tarefa de todos preservá-las e temos um problema grave quando são os nossos representantes - ou seus delegados - que se esquecem dessa essencial missão.

Os Bolsonaros estão no meio de nós

Não falta quem olhe para as eleições brasileiras e pense que o fenómeno Bolsonaro é algo de distante, próprio de uma sociedade em que as instituições colapsaram, roído até ao tutano pela corrupção, impossível de acontecer num país como o nosso. Nas circunstâncias atuais, parece-me evidente que uma candidatura em Portugal do género da do escroque fascista brasileiro estaria condenada a pouco mais do que o ridículo. Mas que há pulsões na nossa comunidade do mesmo género - racistas, homofóbicas, justiceiras, misóginas, autoritárias - que apenas estão à espera de um protagonista, que ninguém duvide. Por isso é que não fiquei nada surpreendido ao ler uma entrevista de André Ventura a elogiar a frescura de pensamento de Bolsonaro - espanta-me, porém, como o PSD mantém nas suas fileiras um indivíduo que tem um discurso de extrema-direita. Como não me surpreendeu um texto de um administrador do Observador, Rui Ramos, em que relativizava até ao limite as posições do brasileiro. Algo do género "ele não é assim tão mau, os outros é que são uns malandros". O vírus anda aí e tem ideólogos, só espera um portador.

A coutada dos machos

"Mas se a pessoa tem um decote até ao umbigo e uma racha até cá cima e o outro não faz amor há não sei quanto tempo, o que é que a pessoa está a fazer senão assédio ao homem que tem à frente?" Quem disse isto foi a Dra. Maria do Céu Santo, ginecologista e obstetra, em entrevista à RTP3. Basta andar pelas redes sociais para ver este tipo de comentário com variantes mais ou menos grunhas a propósito do caso Cristiano Ronaldo/Kathryn Mayorga. É um retrato fiel de uma sociedade que continua a ser profundamente machista, misógina, em que as mulheres continuam a ser vistas como cidadãs de segunda categoria, em que a sua liberdade é coartada em função dos desejos do homem, que não passam de alvos de caça na coutada do macho, neste caso, lusitano. É possível que existam exageros no movimento #MeToo, mas por muito que isso aconteça ainda ficam a milhares de anos-luz dos abusos de que as mulheres são vítimas. Com a complacência de muitos, de muitas mulheres também.

Gestor

Ler mais

Exclusivos

Premium

Opinião

Os irados e o PAN

A TVI fez uma reportagem sobre um grupo de nome IRA, Intervenção e Resgate Animal. Retirados alguns erros na peça, como, por exemplo, tomar por sério um vídeo claramente satírico, mostra-se que estamos perante uma organização de justiceiros. Basta, aliás, ir à página deste grupo - que tem 136 000 seguidores - no Facebook para ter a confirmação inequívoca de que é um grupo de gente que despreza a lei e as instituições democráticas e que decidiu fazer aquilo que acha que é justiça pelas suas próprias mãos.

Premium

Margarida Balseiro Lopes

Falta (transparência) de financiamento na ciência

No início de 2018 foi apresentado em Portugal um relatório da OCDE sobre Ensino Superior e a Ciência. No diagnóstico feito à situação portuguesa conclui-se que é imperativa a necessidade de reformar e reorganizar a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), de aumentar a sua capacidade de gestão estratégica e de afastar o risco de captura de financiamento por áreas ou grupos. Quase um ano depois, relativamente a estas medidas que se impunham, o governo nada fez.