Há sexo na Web Summit e não é aquele de que falamos em bares

A indústria da tecnologia está a mudar o nosso dia-a-dia. E nem o sexo escapa. Nesta quarta-feira há um palco na Web Summit para os grandes inventores de startups que ligam as nossas relações, amorosas e sexuais, ao wi-fi.

No primeiro ano da conferência em Portugal já o CEO do Tinder, Sean Rad, marcava presença na lista de oradores. Nesta quarta-feira volta a marcar presença no palco principal, mas a cimeira tecnológica foi mais longe, trazendo aos cerca de 70 mil visitantes da Web Summit fundadores de marcas que decidiram ligar o prazer sexual à tecnologia, para quebrar todos os tabus. É o caso de Stephanie Alys, cofundadora da Mystery Vibes, uma startup que vende brinquedos sexuais inteligentes.

Nesta quarta-feira, o terceiro dia de Web Summit, vai subir ao palco com outras personalidades da área do sextech para falar de "tecnologia na cama" e como isso está a mudar a forma como olhamos para o sexo. Já tem o discurso preparado. Na verdade, desde bem cedo, porque para Stephanie este tema nunca foi um tabu.

"Vimos de uma sociedade que vê o sexo para trazer um bebé para a família. É uma coisa muito funcional"

Porque não falamos mais de sexo?

"Não só o sexo raramente é discutido nos modelos teóricos de bem-estar como é verdadeiramente ignorado em muitos artigos científicos." Assim o explicava Todd Kashdan, professor de Psicologia e um dos autores de um estudo publicado neste ano no jornal científico Emotionsobre o impacto que uma vida sexual saudável tem na saúde e no bem-estar do ser humano.

Das compras online à inteligência artificial, que há poucos anos parecia ficção científica e que é hoje uma realidade e presença habitual no nosso dia-a-dia, o mundo já não é o mesmo e todos os anos parece mudar. Contudo, ainda não discutimos o suficiente sobre uma das necessidades mais básicas da vida humana: o sexo. Stephanie Alys deu a volta ao mundo para descobrir como é que pessoas de diferentes culturas falam sobre este tema e chegou à conclusão de que, afinal, ainda há muito trabalho a fazer.

"Acho que é um resultado de centenas de anos de estigma e tabu. Vimos de uma sociedade que vê o sexo para trazer um bebé para a família. É uma coisa muito funcional", explica em entrevista ao DN.

Como especialista e estudiosa nesta área, a representante da Mystery Vibes diz saber exatamente onde começa o problema e quais as suas consequências. "O tabu cria vergonha. E a vergonha tem um enorme impacto negativo na nossa vida pessoal, nos nossos relacionamentos. Até na relação com os nossos pais: se somos adolescentes e não podemos falar com eles sobre a nossa vida sexual ou sobre o nosso período menstrual, a vergonha pode ser um grande problema", diz. Contudo, diz que sabe onde poderá estar a solução para erradicar os estigmas à volta do tema. E considera que "o prazer é o antídoto para a vergonha, porque se nos sentirmos bem connosco, com o nosso corpo e com o corpo do parceiro, com o relacionamento que temos a nível íntimo e sexual, então este é o antídoto para toda essa vergonha".

E quando os estigmas são uma barreira para uma comunicação livre e sem preconceitos, podemos estar a um passo do fim da relação. "Uma das principais razões para o fim de muitos casamentos é o sexo, a falta dele, porque as pessoas nem sequer falam sobre o tema. Para a grande maioria é difícil falar sobre sexo mesmo com a pessoa com quem o fazemos. E isto é bizarro."

Stephanie acredita que nenhuma área da existência humana seja tão cercada pelo constrangimento e até culpa. O que, explica, não deixar de ser irónico, quando falamos de algo tão "fundamentalmente importante" para a espécie humana. Num contexto mais amplo, acredita, a generalizada falta de discussão aberta sobre sexo pode ser o fio condutor para males maiores, como os abusos sexuais, a intolerância social, as doenças sexualmente transmissíveis e até gravidezes indesejadas.

Na tecnologia pode, contudo, estar a solução.

O sextech pode estar a mudar o mundo

Não é porno nem é só sobre sexo, avisa a oradora da Web Summit. É sextech e pode ser o caminho para uma vida mais saudável. Pelo menos, longe dos velhos tabus, defende Stephanie Alys.

Quando o conceito surge junto de um público ainda não familiarizado com o assunto, podem ser muitos os mal-entendidos e há até ideias repetidas. "As pessoas pensam que é tudo sobre robôs. É um tópico com o qual toda a gente está obcecada. Dá um bom filme, uma boa série e uma grande história. Estamos obcecados com a ideia de sermos substituídos por robôs. Por isso, as pessoas acham que o sextech é apenas sobre isso. E não é", explica.

Afinal, o que é isto de sextech e porque pode mudar a nossa vida? Stephanie define-o como "qualquer tecnologia e ferramenta com impacto na maneira como experimentamos o sexo", e não tem dúvidas de que está a tornar "mais fácil a conversa sobre sexo". No caso da Mistery Vibes são brinquedos sexuais que ligados à internet e carregados com as nossas informações pretendem dar experiências mais ricas aos utilizadores - a luz na intensidade certa, a temperatura ideal, entre outras coisas.

Stephanie Alys fala nesta quarta-feira, às 13.25, no Talk Robot acompanhada de outra mulher que fez do sexo um negócio, Polly Rodriguez, presidente da Unbound Babes, Grant Langston da eHarmony, uma aplicação de encontros, e JP Mangalindan, da Yahoo. De que falam? Inteligência artificial e algoritmos e como eles também estão a mudar o que se passa no quarto. A Web Summit apresenta os convidados com uma pergunta provocatória: as aplicações de encontros sabem mais sobre o nosso parceiro ideal do que nós. Como estão a mudar a forma como nos relacionamos e fazemos sexo? Na quinta-feira, às 11.30, as mulheres voltam a encontrar-se e juntam-se a outra CEO da indústria da sextech, Alexandra Fine, da Dame Products, para a falar sobre orgasmo e das etapas que a tecnologia queima.

Stephanie Alys só pode falar do seu trabalho. "Fornece-nos outro ângulo de abordagem e outra maneira de começar a conversa - a parte mais difícil", conta. "Eu falo com muitas pessoas de diversas culturas e origens no que diz respeito à educação sexual. E é engraçado ver como as pessoas ficam felizes a falar sobre sexo. A coisa mais difícil é começar a conversa, é ser a primeira pessoa a falar sobre sexo. Se puder providenciar esse começo, a conversa continua." E esse início, acredita, pode mesmo começar "aqui, num lugar como a Web Summit, em conferências sobre tecnologia até mesmo escrevendo algo sobre educação sexual nas escolas e em casa".

O conceito não é novo, ainda que só agora tenha conhecido um nome. E quase cinco anos após a ideia que levou Stephanie e os atuais colegas de trabalho a criar a Mystery Vibes, o sextech já viu as suas primeiras marcas sociais. "Está a tornar-se muito claro para mim que as novas gerações são muito mais abertas", conta.

Recorda onde tudo começou a ser pensado: "Se olharmos para a história da ligação entre sexo e tecnologia, pode variar entre planeamento familiar, informação sobre contracetivos e pornografia. Esta última é a razão pela qual escolhemos algumas tecnologias em vez de outras, a razão por que criamos o streaming e criamos pagamentos pela internet. A pornografia é uma das poucas coisas que estão realmente a ganhar dinheiro com a realidade virtual."

Em Alabama, vender brinquedos sexuais é ilegal. Na Ásia, surpreende-lhe o espírito aberto dos cidadãos. No Reino Unido, sabe que em muitas escolas até se ensina a abstenção. "Dizem: não faças sexo até casar"

Apesar de ter entrado na área há cerca de cinco anos, foi há dez que a ideia pela qual hoje Stephanie trabalha diariamente começou a ser desenvolvida. Partiu de conversas de café entre amigos e da consciência de que a sociedade está cada vez menos paciente e criativa no que toca a sexo, principalmente quando falamos de relacionamentos de longa data. Num mundo onde "o casamento foi criado como uma instituição" há já vários anos, hoje "ter um parceiro e um só por esse período de tempo está a tornar-se difícil de sustentar". Foi com base nesta premissa e na atenção sobre as novas tecnologias que iam sendo divulgadas ao mundo, com os telemóveis a tornaram-se cada vez mais dispositivos inteligentes e adaptados, que nasceu a empresa de Alys.

Para a cofundadora desta startup tecnológica, o objetivo é devolver o foco às pessoas sem as obrigar a largar o dispositivo predileto, o telemóvel. "As pessoas começaram a levá-lo para o quarto, e quando tens o teu trabalho no telemóvel ou no tablet e o levas para o quarto, torna-se muito distrativo, e isso significa que o teu foco vai estar na tua agenda, no que tens para fazer, no teu trabalho, e não no teu parceiro. Para muitos de nós, o telemóvel é a última coisa em que tocamos quando vamos dormir e primeira em que tocamos logo pela manhã", explica. Percebeu logo como poderia agir criando "uma tecnologia que ligue as pessoas em vez de as distrair". "Não seria incrível se um produto pudesse moldar-se e adaptar-se ao nosso próprio corpo para vibrar em qualquer lugar que queiramos, ou deixando que o nosso parceiro o controlasse para nós? Ninguém ainda tinha pensado em fazer isto, por isso nós avançamos."

Da Ásia à Europa, todos diferentes e todos iguais

Falar ou não abertamente sobre sexo está, muitas vezes, nas mãos da educação e da cultura em que nos inserimos. Ou na sorte. Stephanie diz ter crescido com essa mesma sorte, rodeada por uns pais com uma mente aberta, sempre com respostas para as curiosas e intermináveis perguntas de uma pequena adolescente. E isso está no cerne daquilo que é hoje, "uma adulta confortável com a vida e as suas opções".

Vive em São Francisco, nos Estados Unidos, e conhece bem a realidade de diferentes países e diferentes continentes. Às vezes, a realidade discrepante dentro de um mesmo país, como é o caso dos EUA. No estado onde reside, a vida e as ferramentas sexuais já não parecem ser um tabu, mas no Alabama, como conta, vender brinquedos sexuais é ilegal. Na Ásia, surpreende-lhe o espírito aberto dos cidadãos. No Reino Unido, sabe que em muitas escolas até se ensina a abstenção. "Dizem: não faças sexo até casar." Sobre Portugal, não sabe muito, mas confessa-se curiosa.

Elogia a maneira como muitos países têm evoluído na educação sexual, mas preocupa-a a forma como a informação é exposta. "Algumas plataformas falam sobre o tema de uma forma muito superficial, o que pode dar a ideia de que o sexo é realmente uma coisa supérflua." Pede discussões mais profundas e mais seriedade sobre o assunto.

A falta de explicações e de comunicação não mata a curiosidade e, quando ignorada, pode levar os curiosos a procurar nos sítios menos acertados. Stephanie gostaria de ver esta responsabilidade partilhada entre organismos sociais. "Se nós, como adultos, como governo, como sociedade, somos capazes de dar uma boa educação sexual, as pessoas não precisam de querer aprender através da pornografia - que pode ser uma visão muito unilateral: diz-nos o que é sexo e o que deveria ser. É importante quebrarmos estes estigmas e tabus, porque precisamos de educar os nossos filhos e a próxima geração sobre como podem ter uma vida sexual saudável e como isso pode influenciar todas as outras parcelas da nossa vida."

"Fomos oprimidas por muito tempo no que toca à nossa sexualidade. Até mesmo em coisas como a nossa biologia básica"

Sexo no feminino

"Olhando para a questão do prazer sexual, a sexualidade feminina como mulher pode ser um tema difícil", recorda a norte-americana.

Sextech já é mais um vocabulário feminino do que masculino. "Há imensas mulheres fundadoras nesta indústria. Querem criar coisas que adorariam ver, aprender e usar." Stephanie explica que o fenómeno se deve a um simples fator histórico: "Fomos oprimidas durante muito tempo no que respeita à nossa sexualidade. Até mesmo em coisas como a nossa biologia básica."

O silêncio atrasou a ciência e os estudos sobre a sexualidade feminina. "O clitóris, por exemplo, que é o centro do prazer feminino, foi descoberto apenas no final dos anos 1980, início dos anos 1990. É inacreditável, não é?"

É uma otimista no que toca ao futuro, ainda que olhe para o presente como um capítulo em atraso. Para as mulheres, principalmente. O público feminino ainda demonstra algum pudor em conhecer o seu corpo. Isso deve-se, de acordo com a especialista, ao desconhecimento e à limitação daquilo que já se conhece.

"Posso garantir que, se formos à rua perguntar às pessoas o que é sexo, a maioria delas vai dizer 'pénis e vagina'. E para a maioria a definição de sexo em si é um ato no qual as mulheres não são parte do prazer", remata. Por isso mesmo também são as principais queixosas quando o tema é pornografia. "Muitas das mulheres com quem falo reclamam que a pornografia ainda está maioritariamente feita para os homens."

O futuro da tecnologia e do sexo como um só é algo que entusiasma Stephanie como estudiosa da indústria. "Há muito espaço para inovação. Temos dados muito interessantes sobre o tema e é incrível o quão poderosa essa informação pode ser. Contudo, ainda não sabemos muito sobre este tópico e mais pesquisas podem ser benéficas para todos nós. O site Pornhub, por exemplo, publica estatísticas todos os anos, e nas últimas podemos concluir que há muito mais mulheres a procurar pornografia. A cada ano que passa, aumenta. É um ótimo sinal, porque começam a perceber que não há que ter vergonha em procurar pornografia no computador."

Sobre o que nos espera neste pequeno canto plantado à beira-mar, a empresária não hesita: "Adoraria ver estas indústrias crescer em Portugal."