Desconfinamento eleitoral

Apostar tudo na campanha eleitoral parece ser o mote do governo nas decisões tomadas para a gestão da pandemia. Quando os médicos já afinam pelo diapasão da endemia, reconhecendo que o pico de casos de covid merece atenção mas não cuidados extremos, dado que a vacinação superior a 90% tem protegido a população de casos graves - e de consequentes ruturas na resposta dos serviços de saúde, fator que deveria ser prioritário na tomada de decisões -, o governo insiste numa semirreabertura com cautelas redobradas. Mas só para alguns.

Sabendo que a maioria dos pais não perdoaria um novo prolongamento das férias escolares - pelo que os miúdos se atrasam na aprendizagem que não têm a cada dia a mais passado em casa, mas também pela forma como ter de os acompanhar condiciona a vida de muitos pais -, a reabertura das escolas avança como previsto. No entanto, o teletrabalho mantém-se obrigatório. E as discotecas e bares ficam fechados também até dia 14 - prosseguindo a crença de que há negócios que são menos negócios do que outros -, obrigando a teste negativo na reabertura exceto para os inefáveis frequentadores de estabelecimentos noturnos que têm a terceira dose da vacina tomada há 14 dias, leia-se, os que têm mais de 60 anos.

Ou seja, as crianças voltam à escola, mas os pais (que podem) ficam a trabalhar em casa. Ir a restaurantes e esplanadas, dar passeios na praia ou passar os fins de semana fora é possível e até desejável (que a economia precisa de quem consuma) e só exige certificado de vacinação; mas ir beber um copo ou dançar depois do jantar não é ainda aceitável, mesmo com teste negativo.

Tudo isto, claro, até arrancar a campanha eleitoral e para nos preservar em segurança até que ela comece. Porque então há que sair à rua a convencer o povo. E votar é um dever de todos - e para garantir que esse dever é cumprido até se pondera a interrupção dos isolamentos obrigatórios, mesmo para quem tem covid, no dia das legislativas. Uma ponderação que traduz a ideia de que é legítimo arriscar espalhar o vírus não para aumentar a riqueza do país com trabalho regular, não pela sobrevivência de áreas de atividade inteiras, nem sequer pela sanidade mental dos portugueses, mas a bem do voto. Num país, veja-se bem, onde mesmo quando há saúde plena nem metade vai às urnas, seja para eleger o Presidente da República (abstenção de 60,8%% nas últimas presidenciais), seja para o presidente da câmara (46,4%), os representantes na Europa (69,3%) ou no parlamento nacional (51,4%).

Não é a questão das eleições que está em causa. Desejável seria até que os portugueses entendessem a importância da sua escolha, se reaproximassem da política e aumentassem em muito os níveis de participação e de exigência para com as instituições que os representam. O que não é compreensível nem aceitável é que um país com décadas de crescimento anémico continue a restringir a atividade e a pôr-se à frente de quem quer trabalhar, votando-nos a mais atraso, a mais pobreza, a mais dependências que não temos como pagar.

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