EUA: Democratas vislumbram reviravolta após conquistas inesperadas

Vitórias legislativas, manobras internacionais e primárias marcadas por candidatos extremistas mudaram o cenário. Republicanos ainda são favoritos a tomarem controlo da Câmara dos Representantes, mas projeções do Senado viraram para os democratas.

Ana Rita Guerra, Los Angeles
A três meses das intercalares, marcadas para 8 de novembro, as expectativas de que os democratas sofreriam uma hecatombe estão a ser repensadas.© Sean Rayford/Getty Images/AFP

Se em junho alguém tivesse previsto que Joe Biden e os democratas acabariam o verão com nota positiva, ninguém teria acreditado. Mas eis a diferença que dois meses fazem. Depois de uma primeira metade do ano muito negativa para o partido no poder, com inflação galopante, recorde de preços nas bombas de gasolina, popularidade de Biden em mínimos e nem vislumbre de conquistas legislativas, as nuvens começaram a dissipar-se.

A três meses das eleições intercalares, marcadas para 8 de novembro, as expectativas de que os democratas sofreriam uma hecatombe estão a ser repensadas. Ao mesmo tempo, as perspetivas risonhas para os republicanos, que estavam muito bem posicionados para recuperar o controlo total do Congresso, começaram a ensombrar-se.

Isso tornou-se palpável na alteração das projeções. A plataforma FiveThirtyEight, que tem um modelo de simulação de resultados baseado em sondagens e outros pontos de informação, apontava os republicanos como favoritos para ganharem a Câmara dos Representantes e o Senado no início de junho. Na câmara baixa, a probabilidade era de 87 contra 13; na câmara alta, de 60 contra 40.

Só que uma sucessão de acontecimentos desde então mudou o cenário. O Supremo Tribunal revogou o direito ao aborto e os legisladores republicanos começaram a falar de proibições nacionais, apesar de dois terços do eleitorado ser pró-escolha. A comissão parlamentar que investiga o 6 de janeiro organizou oito audiências públicas com testemunhos acusatórios sobre a conduta de Donald Trump e da sua cúpula no ataque ao Capitólio. Biden viajou até ao Médio Oriente e o preço dos combustíveis inverteu a tendência de subida. O congresso passou a primeira legislação bipartidária com algumas restrições às armas em trinta anos. Aprovou também o CHIPS Act, para fortalecer a produção de semicondutores nos Estados Unidos após dois anos com escassez crónica.

Mais surpreendente que tudo, o líder da maioria democrata no Senado, Chuck Schumer, anunciou um acordo com o senador moderado Joe Manchin para aprovar um pacote legislativo de 739 mil milhões de dólares, Inflation Reduction Act, com várias conquistas da agenda de Biden - redução dos custos de fármacos e expansão dos subsídios aos seguros de saúde, imposto mínimo de 15% para as maiores empresas e iniciativas de combate à crise climática. O pacote começou a ser votado ontem e não vai precisar de apoio dos republicanos para passar. E isso tudo antes de Biden aparecer frente às câmaras de televisão a anunciar ao mundo que os Estados Unidos encontraram e mataram o líder da organização terrorista Al-Qaeda, Ayman al-Zawahiri, vinte anos depois de este ter sido um dos organizadores do 11 de setembro.

"É uma vitória", disse ao DN o cientista político Everett Vieira III. "Está a ser apresentado como evidência que os democratas não são fracos em questões de defesa, são anti-terroristas e apoiam a perseguição de criminosos."

Também a visita da presidente da Câmara dos Representantes Nancy Pelosi a Taiwan pode ser vista como posição de força, apesar das críticas. "Compreendo que o presidente Xi diga que isto é uma provocação, mas qual é a alternativa?", questionou Vieira. "Ela fica em casa e o governo americano aceita que o governo chinês lhe diga que não pode ir a um estado livre e democrático?"

Vieira também apontou que congressistas republicanos estiveram em Taiwan no início do ano e não houve controvérsia nessa altura. Tendo em conta o interesse do Ocidente em Taiwan, o principal produtor de semicondutores num mundo dominado pelo software e eletrónica, a visita de Pelosi pode ser justificada, indicou o analista. São eventos internacionais que jogam a favor do partido de Biden.

"Estas questões ajudam a reforçar as credenciais e o apelo dos democratas junto dos moderados, até daqueles que estão no centro direita", considerou Vieira. "O que vemos aqui são democratas firmes com o terror e a defenderem aliados democráticos em Taiwan."

O cientista político Thomas Holyoke não tem tanta certeza que a visita de Pelosi traga benefícios, mas considera que a morte de Zawahiri em Cabul sim.

"Faz parte de uma série mais abrangente de coisas que estão a favorecer a imagem de Biden", disse o especialista ao DN. Além de mostrar firmeza contra o terrorismo, um ano depois da retirada desastrosa das tropas americanas do Afeganistão, o feito "junta-se a outras coisas importantes que estão a acontecer".

O Inflation Reduction Act, o CHIPS Act e o PACT Act (para ajudar veteranos de guerra) fazem parte de "uma série de grandes vitórias" recentes para Biden, salientou Holyoke. "Os preços da gasolina estão a baixar", notou. "Se ele conseguir que a inflação caia, vai estar em boa forma".

O presidente continua a ser impopular, mas depois dos mínimos atingidos a 25 de julho, com apenas 37,7% de aprovação, a sua imagem melhorou e a popularidade situa-se agora nos 39,3%.

Quem vai controlar o Congresso

É neste contexto de forças contraditórias que se vai desenrolar a campanha para as eleições intercalares, que irão ditar o controlo do Congresso. As projeções apontam para que os republicanos se tornem maioritários na Câmara dos Representantes, embora as probabilidades tenham descido de 87 contra 13 para 80 contra 20. É uma descida pequena mas que pode tornar-se relevante, disse Holyoke.

"Mesmo com os republicanos a retomarem o controlo da Câmara dos Representantes, isto sugere que a sua margem de controlo será mais pequena do que o que era inicialmente antecipado", notou. "Isso pode originar uma dinâmica muito estranha".

O líder minoritário desta câmara baixa, Kevin McCarthy, não é propriamente consensual dentro do seu próprio partido. "Há muitos republicanos que não gostam de Kevin McCarthy, tanto moderados como super conservadores, e ele pode ter dificuldades em manter a união", apontou Holyoke. "Aliás, pode ter dificuldade em ser eleito presidente da Câmara dos Representantes. A situação pode acabar por se tornar muito disfuncional."

A quantidade de candidatos extremistas que venceram as primárias republicanas também pode ser um elemento desestabilizador, em especial no Senado. É aqui que se encontra a alteração mais relevante nas sondagens. As probabilidades passaram de 60-40 em favor dos republicanos para 59-41 a favor dos democratas em menos de dois meses. E a inversão da tendência aconteceu no dia seguinte à última audiência pública da comissão parlamentar que investiga o assalto ao Capitólio, 22 de julho.

Se for eleito, Blake Masters será a figura central na supervisão das eleições presidenciais de 2024. Extremistas como ele também são candidatos pelos republicanos noutros estados-chave, como Nevada, Pensilvânia e Michigan.

"A forma como a comissão e em particular Liz Cheney posicionaram as investigações foi dentro da segurança nacional", explicou Everett Vieira. "Foi por isso que levaram veteranos do exército a testemunhar na última audiência", continuou. "Para mostrar que Trump violou o seu juramento, é alguém sem honra e uma ameaça à segurança nacional".

Ainda assim, o domínio que Donald Trump exerce sobre o Partido Republicano ficou claro nas primárias desta semana no Arizona, Michigan, Kansas, Washington e Missouri.

Vários candidatos de extrema-direita apoiados pelo ex-presidente avançaram nas primárias republicanas e conquistaram as nomeações às eleições intercalares, alguns dos quais em posições de alto nível. No Arizona, isso aconteceu com Kari Lake na corrida a governadora, Mark Finchem para secretário de Estado, Blake Masters para o Senado e Paul Gosar para congressista do 9.º distrito. Todos são extremistas que negam a legitimidade da eleição de Joe Biden e dois deles (Finchem e Masters) aderem às teorias do movimento QAnon. Se for eleito, Masters será a figura central na supervisão das eleições presidenciais de 2024. Extremistas como ele também são candidatos pelos republicanos noutros estados-chave, como Nevada, Pensilvânia e Michigan.

Nesta ronda de primárias, alguns congressistas que votaram a favor do impeachment de Trump foram arrasados pelos eleitores republicanos, como aconteceu com Peter Meijer no 3.º distrito do Arizona, derrotado por John Gibbs.

Já no Michigan a ultra-MAGA Tudor Dixon conseguiu a nomeação para candidata a governadora e no Kansas Derek Schmidt será o candidato a governador.

O que está por saber é se a estratégia é ganhadora. A base de Trump continua fiel, mas há sondagens que mostram um esfriamento do eleitorado em relação ao ex-presidente. Isso parece estar a refletir-se também no partido. Em julho, uma sondagem da SSRS e CNN mostrou que as intenções de voto nos republicanos junto dos eleitores acima dos 65 anos caiu de 62% para 47% em dois meses. Everett Vieira salienta como isto é importante: "Os eleitores jovens não votam. Os mais velhos sim", sintetizou. "Perder apoio nesta faixa etária é terrível."

Os temas quentes das intercalares

Tradicionalmente, as eleições intercalares penalizam o partido do presidente, mesmo quando este é mais popular que Joe Biden. Mas uma série de eventos recentes podem abrir espaço a outros temas que sejam influentes nas eleições a favor dos democratas.© EPA/Evan Vucci

Tradicionalmente, as eleições intercalares penalizam o partido do presidente, mesmo quando este é mais popular que Joe Biden. Além disso, a situação económica tal como sentida pelos eleitores é o elemento mais importante, sobretudo num momento com tanta incerteza como este - inflação elevada, gasolina cara, medo de recessão e alguma contração económica, apesar da situação de pleno emprego.

No entanto, os eventos recentes podem abrir espaço a que outros temas sejam influentes nas eleições. É o que explica Thomas Holyoke. "Os preços da gasolina estão a descer e se a inflação reduzir, vai abrir-se espaço político para outros temas, como o aborto", afirmou. "Neste momento, parece que esse será um tema vencedor para os democratas."

Foi precisamente isso que se viu esta semana no Kansas, que protagonizou uma das maiores surpresas do ano quando os eleitores rejeitaram uma emenda constitucional que permitiria proibir o aborto. Sendo este um dos estados mais conservadores do país, a vitória esmagadora do "Não" à proposta (59% contra 41%) surpreendeu até os democratas e ativistas pró-escolha.

"Foi um choque. Não conheço ninguém que não tenha ficado chocado com o resultado", sublinhou Holyoke. Para o professor de ciência política, a chave esteve na forma como a campanha do "Não" foi moldada.

"O movimento pró-escolha que liderou a campanha no Kansas abordou-a de uma forma interessante e provavelmente criou uma fórmula que pode ser replicada noutros lados em futuras eleições", indicou. "Lançaram-na de uma forma muito libertária, basicamente pedindo às pessoas que não deixassem o governo controlar o que elas fazem com os seus corpos." Este é, referiu, um argumento muito libertário que ressoa num estado conservador. "Muitos eleitores do Kansas simplesmente não queriam o governo a dizer o que é que podem ou não podem fazer com o seu corpo."

Os resultados galvanizaram os democratas, que se sentem apoiados no facto de a maioria dos eleitores norte-americanos favorecerem o direito de escolha no que toca ao aborto. Os resultados no Kansas também serviram de aviso aos republicanos. "Alguns outros estados poderão dar um passo atrás e olhar para o que aconteceu no Kansas, porque mostra que pode haver retaliação contra os pró-vida."

dnot@dn.pt