Os fundamentais e a falsa sensação de segurança

Austeridade. Ninguém quer ouvir falar dela, mas à medida que a crise se agudiza regressam nuvens sombrias dos tempos da troika, em Portugal. Na noite passada, mas há dez anos, o primeiro-ministro falava ao país. Primeiro vimos José Sócrates a aparecer nos ecrãs de televisão e a ajeitar a gravata, depois a testar o teleponto e, cerca de meia hora mais tarde, a anunciar ao país o pedido de resgate financeiro.

A 7 de abril, também há uma década, o ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, Guido Westerwelle, considerava a solicitação do resgate uma atitude "responsável". O governo passava palavra de que este só teria acontecido devido às dificuldades dos bancos, risco de falta de liquidez e de levantamento de depósitos, e não por dificuldades de financiamento do Estado. Mas já se sabia, pelo ministro das Finanças (Teixeira dos Santos), das dificuldades de acesso a dinheiro nos mercados e de uma emissão de dívida com custos altíssimos, tendo o governante admitido a inevitabilidade de um pedido de resgaste. No final desse mês, o primeiro-ministro negou as divergências com o seu ministro das Finanças, considerando um amigo para a vida. Mas o afastamento já era público.

Na prática, o país estava à beira da bancarrota. A fragilidade dos fundamentais - défice e dívida - ajudou a ditar o destino da nação. Hoje, com uma nova crise mas desta vez provocada pela pandemia de covid-19, podemos teorizar e extremar argumentos ora mais para a esquerda ora mais para a direita, mas a verdade dos números já mostra que esses mesmos fundamentais estão num estado de debilidade que nos faz recordar esses tempos sombrios de há dez anos.

Austeridade - ninguém quer sequer ouvir esta palavra. Mas se não quisermos cair de novo num cenário que coloca em causa a saúde e a sustentabilidade financeira do país, é preciso focar as políticas públicas no crescimento e numa rápida saída da crise. Os fundamentais - défice e dívida - não poderão ficar descontrolados, até porque a política de flexibilização de Bruxelas é temporária e o Pacto de Estabilidade voltará a ditar as regras de gestão da União Europeia.

Se à crise sanitária se juntar a crise da banca - que poderá ameaçar após o fim das moratórias em setembro - a bomba-relógio torna-se ainda maior. Para recuperar o país vai ser preciso preparar o futuro do sistema financeiro, antecipando soluções e alternativas para prevenir o crédito malparado. Vai ser ainda necessário dar mais atenção à economia comportamental (que estuda os efeitos de fatores psicológicos, sociais, cognitivos, emocionais e económicos nas decisões). Essa poderá fazer a diferença entre uma retoma mais ou menos rápida.

O primeiro ministro, António Costa, pediu ontem ao país "disciplina" para não ter de se "marcar passo" no desconfinamento. A nós, cidadãos, cabe-nos não nos iludirmos com a falsa sensação de segurança desta nova etapa de desconfinamento, que começou na segunda-feira, e a manter comportamentos prudentes. Só salvando vidas se salva a economia.

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