"Soubemos da descida das propinas a um sábado"

O presidente do Conselho de Reitores, Fontainhas Fernandes, diz que a baixa das propinas não é panaceia para todos os males - e que há muito a fazer na ação social. As universidades reúnem em Lisboa, na Convenção Nacional do Ensino Superior.

Vamos falar um pouco dos 60% de jovens que podiam ir para a universidade e não vão. O que falta para que Portugal deixe de se dar a este luxo de ter estes jovens todos fora do ensino superior?
Em primeiro lugar é preciso dar uma nota de que houve um crescimento e que os indicadores comparativamente a outros países da Europa deram um salto qualitativo resultante da expansão do ensino superior. Hoje temos uma rede organizada a nível nacional dispersa por todo o território, o que eu considero importante. Simplesmente, a capacidade instalada permite podermos ir mais além, não pelos indicadores, mas pelos benefícios e pelo retorno económico que tem o ensino superior.


Então o que é que falta?
O que falta é juntar quem acredita que o futuro passa pelo ensino superior também com a ciência e com a inovação, e ver como é que poderemos criar mecanismos para aumentar a qualificação dos portugueses e, portanto, termos mais jovens a estudar no ensino superior. E não só os mais jovens, quando falamos de 40% estamos a falar de jovens até aos 20 anos que estão em formação, mas se formos até aos 35 anos esse número amplia para 50%, portanto há outros públicos. Curiosamente, são os grandes temas que na primeira sessão com que abre a Convenção no ISCTE vamos discutir: o acesso, as questões da política da ação social, as questões do financiamento e da inovação pedagógica. Ou seja, vamos ver como é que podemos dar uma nova fase ao ensino superior em termos de inovação pedagógica.

Mas do lado das universidades sente-se que o ensino superior - o conhecimento, a ciência, a investigação - não é a prioridade política?
Julgo que existe em Portugal a perceção de que tudo está bem no ensino superior. Sempre que acontece uma medida legislativa, as universidades contestam ou protestam, mostram a sua posição e só aparecem de uma forma reativa. Penso que aqui é necessária uma maior proatividade e julgo que é no final de ciclo político o momento certo para lançar esse debate nacional envolvendo toda a sociedade. Nos painéis da Convenção, os leitores aparecem como oradores e não como as pessoas que vão emitir a sua opinião. É preciso convidar a sociedade, os diferentes partidos políticos, os diferentes escalões etários, a sociedade em geral, para dar a sua opinião, para dizer o que é que acha sobre o papel do ensino superior, de forma a podermos contribuir para o desenvolvimento do país e até termos uma maior intervenção no sentido de termos um país mais coeso mais solidário, mais inclusivo e mais inovador.


Nesta convenção os governantes são convidados a retirar as conclusões daquilo que foi o debate moderado pelos reitores. Isso é prova de que é necessário convencer quem manda politicamente no país da importância que o ensino superior tem?
Nós convidámos os diferentes partidos políticos que estão atualmente representados no cenário parlamentar português a estarem presentes nas diversas sessões. Convidámos também os membros do Governo para assistirem. O papel do reitor é de moderar e tirar as suas conclusões para umas notas finais. Portanto, o papel do reitor aqui não será propriamente interventivo, mas sim o de ver de que forma pode concluir sobre o que os outros disseram, e criar algum pensamento independentemente da área política; o que interessa é ver de que forma podemos criar consensos alargados para criar acordos. Isto porque 2019 será marcado por um novo ciclo eleitoral, não só nacional como também europeu.


Ouvimos dizer com frequência, não só ao presidente do Conselho de Reitores como aos vários reitores, que faltam políticas efetivas de ação social. O que é que isto quer dizer? O que é que seria necessário mudar?
Eu costumo dar o exemplo da minha universidade. A UTAD tem cerca de 60% a 70% de alunos deslocados, é portanto, claramente, uma instituição que vai buscar estudantes a zonas com maior densidade populacional e, no final, liberta quadros formados para o país e para a Europa, e acabam por não se fixar na região. Mas grande parte deles - e nós estamos acima da média nacional - são bolseiros; ou seja, enquanto a nível nacional cerca de 23% dos estudantes recorrem a bolsas para obter o seu grau de licenciado, na Universidade de Trás-os-Montes esse número é muito superior, é de 40%. Uma parte significativa desse montante advém de fundos comunitários e eu pergunto: e se a Europa considerar que não será uma prioridade apoiar o ensino superior? Portugal e os diferentes partidos vão retirar uma parte do Orçamento do Estado (OE) - porque este não se pode esticar e o senhor ministro das Finanças já o mostrou - para investir mais em bolsas, o que é que vamos cortar no Orçamento para isso? Acho que é importante que o país tenha noção de que tem de investir, perante a condição das famílias, em ação social.


Mas não é isso que tem acontecido, aliás, agora, esta baixa generalizada do valor das propinas veio alterar essa situação de forma negativa.
Eu não costumo colocar uma carga negativa nas decisões políticas, não sou reativo de uma forma negativa. Eu acho que temos de analisar porque é que se baixaram as propinas, isso é que é o mais importante. Porque é uma estratégia duradoura? Porque o país vai apostar na diminuição das propinas com consequências na redução da receita das universidades e, portanto, terá de existir uma compensação por parte do Orçamento do Estado? Isto é para prosseguir ou é uma medida pontual? Esta é uma questão que eu coloco.


Para a qual não tem resposta?
Neste momento não temos resposta, mas acho que o país tem de pensar, até porque na Europa existem países que estão mais dependentes de propinas e outros que têm uma menor dependência de propinas nas receitas das próprias instituições. Há vários modelos e, portanto, acho que Portugal tem de pensar para que modelo quer caminhar. Quer caminhar no sentido de aumentar o número de estudantes reduzindo a carga das propinas? Aí, o Orçamento do Estado tem de suportar. Ou, pelo contrário, no sentido de ter maior participação das famílias? O modelo tem de ser proposto pelos partidos ao país e não propriamente uma medida pontual. Nós fomos confrontados com a redução das propinas num determinado sábado.


A descida generalizada das propinas é uma medida acertada, à luz até da ação social tão necessária de que falávamos antes? Não seria eventualmente mais eficaz, com essa mesma capacidade, beneficiar de facto quem mais precisasse?
Muito concretamente: se a descida das propinas tem como objetivo aumentar o número de estudantes do ensino superior, julgo que a medida é bem-vinda; agora, se é uma medida pontual, julgo que tem de surgir com uma justificação e com complementaridade e essa complementaridade é a ação social. Nós temos de resolver a curto prazo a questão do alojamento, também, porque é uma componente muito elevada na fatura de quem estuda, e garantir aos jovens que tenham a componente da bolsa social. É evidente que os jovens das classes mais desprotegidas já não pagam propinas à partida, portanto esta medida vai incidir sobre uma fatia da sociedade portuguesa.
Eu gostava de deixar aqui uma nota em relação à ação social: as universidades têm feito um percurso que não tem sido bem comunicado ao país. Por exemplo, recorrem a empresas privadas, ao abrigo do mecenato, para obter financiamento para reforçar o sistema de apoio social. Na minha universidade, o último Conselho Geral determinou que no último aumento de propinas que ocorreu na universidade, o montante resultante desse aumento se destinasse a fundos de apoio social, nomeadamente aos fundos de emergência. Por exemplo, alguém, no início do ano, inicia os estudos em setembro e o ano letivo corre bem, mas há um problema familiar, de saúde, uma separação na família, um problema grave em que o pai ou a mãe fica desempregado, nestes casos, a instituição tem de ter um fundo de maneio para acorrer a estas situações. É aí que a ação social tem de funcionar bem. Nós temos de ter um observatório em permanência para perceber de que forma podemos acorrer a uma situação de emergência. As próprias instituições têm feito isso e acho que é uma prática que deve ser generalizada e mais aprofundada de forma a evitarmos que algum estudante deixe de estudar por questões económicas.


Tem-se sentido que essa fuga aumentou com as dificuldades cada vez maiores de alojamento nas zonas mais urbanas, nomeadamente de Lisboa e Porto?
Eu julgo que esta questão assume contornos mais delicados nas grandes áreas do Porto e Lisboa porque também está associada à questão do turismo. Hoje em dia temos de reconhecer que toda a recuperação económica do país advém um pouco das receitas do turismo, e isto tem impacto nos grandes centros urbanos. Falta saber se é um impacto duradouro ou se é temporário, portanto não importa aqui dizer de uma forma acelerada que vamos agora criar um conjunto de investimentos para meia dúzia de anos. É importante ver isso, mas o que é certo é que esta questão do alojamento já se generalizou pelo país, portanto isto tem efeito noutras cidades de média dimensão e temos de acorrer à situação. E isto porquê? Porque nos últimos anos, aquando da preparação dos quadros comunitários estes não previam verbas para a ação social, ou melhor, para o alojamento e para a reconstrução e requalificação de espaços. Parece-me que este seria o momento em que Portugal, perante a negociação do próximo quadro europeu, devia ver quais são as necessidades efetivas do país. Em meu entender, seria claramente requalificar espaços que já existem - o Governo está a trabalhar nesse sentido e parece-me que bem -, aproveitar o património público muito vasto por todo o país e que pode ser requalificado e reaproveitado para estas funções e, também, pensar o próximo quadro em função da forma como poderemos modernizar as instituições do ponto de vista físico. Não estamos a falar apenas de recursos humanos, do ponto de vista físico as universidades paralisaram muito no tempo e era necessária uma intervenção desse género. Ou seja, nós não precisamos de aumentar o parque edificado, mas sim modernizá-lo.


Em 1995 havia cerca de 80 000 candidatos ao ensino superior; em 2018 cerca de 50 000. Isto está a ter um efeito claro na sustentabilidade financeira das universidades?
Esses números são claros e eu até podia complementar com números muito claros também, mas de outro ponto de vista. Em 1995, quando iniciei a minha carreira universitária, existiam 400 000 jovens com 18 anos, este ano existiam cento e tal mil, e vamos baixar para 85 000 nos próximos 15 anos. Ou seja, passando de uma média etária de 400 000 com 18 anos, para 85 000, que futuro temos no país? Eu acho que mais do que do ensino superior, este é um problema nacional que tem de ser inscrito na agenda do próximo ciclo político, de mais de uma década, diria eu. É a questão da natalidade, do envelhecimento, e que está associada a outra questão que é a da fuga de talentos para o exterior.


Ainda dentro desta questão da sustentabilidade e do futuro, o senhor consegue antecipar, de alguma forma, os efeitos da integração dos precários da função pública, e também, porque também tem relevância, da valorização salarial a que os professores terão eventualmente direito, não só pelo descongelamento das carreiras, mas também pela contagem, não sabemos ainda se total ou parcial, dos anos em que essas carreiras estiveram congeladas? Isto vai ter um efeito direto nas contas das próprias universidades ou não?
São duas questões que vou tratar de forma diferenciada. Em relação à questão das carreiras dos professores não se aplica a regra geral da função pública, a dos dez anos, remete-se para a autonomia das universidades e, portanto, só aqueles que foram avaliados com dois períodos de excelente é que serão valorizados. Isto já está em curso, no caso dos não docentes desde o início do ano e, ao longo do ano, todas as universidades implementaram essa valorização.


Tem sido um processo pacífico a regularização dessa situação?
É um processo em que hoje, na sociedade do imediato, as coisas não acontecem no dia a seguir. É necessária toda uma tramitação entre as universidades e as Finanças, comprovar qual é o montante - há sempre diferenças consoante as instituições, porque o número de excelentes na minha universidade será diferente da universidade do vizinho -, porque as universidades são diferentes e, portanto, isto tem de ser tratado caso a caso e gera alguma entropia na comunicação. Esse assunto está previsto e o próprio plafond do Orçamento do Estado prevê para 2019 um aumento nas instituições que se aplica apenas a esse montante. Será discutível se é suficiente para todas as instituições, mas de uma forma geral ele está lá inscrito.
A questão da precariedade é uma situação diferente. Há uma comissão bipartida onde estão presentes os diferentes elementos que estão previstos na lei e que vão determinar e definir quais são os casos que são na realidade considerados de vínculo precário. Nós não podemos partir do pressuposto de que, à partida, as instituições terão que os assumir como quadros de pleno direito sem qualquer reforço orçamental, porque entre o montante que eles recebem agora com o atual vínculo e o que passarão a receber com outro vínculo há uma diferença significativa.


Tem uma estimativa para essa diferença?
Podia-lhe dizer no caso da minha instituição, porque aqui há diferentes velocidades - há instituições que já terminaram o processo, o trabalho com as comissões bipartidas já está concluído e umas já têm os resultados homologados e outras aguardam homologação. Agora é evidente que numa instituição de maior dimensão, como é o caso do Porto e de Lisboa, o processo ainda está atrasado e portanto não podemos estar aqui a quantificar, teríamos de fazer o somatório dos casos em todas as instituições. O que devo dizer é que o acordo que assumimos com o Governo - não foi propriamente com o Ministério, foi com o Governo na presença do primeiro-ministro -, é que qualquer alteração legislativa e o seu impacto financeiro deveriam ser compensados às instituições. As instituições querem resolver os problemas, simplesmente eu para abrir um concurso para o número de pessoas que forem elegíveis nas discussões em sede da comissão bipartida tenho de inscrever o diferencial e não há nada na lei do Orçamento do Estado que preveja isso. Como é que se vai discutir essa questão? Caso a caso? Com que interlocutor? Com as Finanças? Este é o assunto que falta agora esclarecer, mas da parte das instituições é nosso entendimento que vamos resolver os assuntos. Agora, é necessária a dotação financeira respetiva.


Dito dessa forma até parece fácil... Ainda sobre a questão financeira e as queixas de subfinanciamento crónico do próprio ensino superior, no fundo é disso que temos estado a falar: isso pode levar as universidades a atingirem um ponto de rutura?
Nós estamos a alertar o sistema para o seguinte: as instituições nas décadas de 1980 e 1990 integraram um conjunto de jovens que lhes deram um novo impulso. A partir daí, com crise, antes da crise ou depois da crise, se compararmos na última década percentagem do Orçamento do Estado da dotação do ensino superior relativamente ao PIB vemos que se mantém. Portanto, estamos na cauda da Europa e é claro que existem duas Europas, o norte e centro, e o sul um bocado ligado ao leste que é outra realidade. Que Europa é que nós queremos? Se queremos mais coesão entre a Europa do norte e centro e a do sul acho que devemos dar um sinal claro de que o sul da Europa deve investir mais em ensino superior, deve aumentar essa dotação.
É evidente que não é passado um ano que se vai do oito para o oitenta, mas devemos dar um sinal ao país de que esta terá de ser uma prioridade. Isso passaria por aumentar o financiamento das instituições. Até ao momento, as instituições chegam ao final do ano com equilíbrio financeiro e, portanto, nunca se viu uma situação de rutura em nenhuma instituição. De uma forma ou de outra, as instituições têm vindo a diminuir a sua despesa e cada uma tem de encontrar os ajustamentos mais adequados, mas isso traz sempre as suas consequências.

Em Portugal, as universidades atraem até mais alunos do estrangeiro do que alguns países europeus, nomeadamente do norte da Europa. Não faria sentido, por exemplo, que as universidades portuguesas olhassem para o mundo da língua portuguesa também nesse sentido do financiamento?
Faz todo o sentido. Eu, curiosamente, acho que um dos programas que a Europa lançou nos últimos tempos é muito interessante, o chamado programa PRIMA de cooperação com a bacia do Mediterrâneo. Este vai dar um espaço de oportunidades ao sul da Europa com o norte de África. Nós estamos muito próximos de África e, ao mesmo tempo, muito distantes e olhamos para África sob o aspeto dos problemas das migrações. Aqui temos Portugal, Espanha, Itália e Grécia, mas também França e Alemanha - a Alemanha integra este programa -, o que permite uma cooperação muito grande com o Norte de África. Em meu entender, a Europa devia estender no futuro este programa de cooperação a toda a África, e aí Portugal teria uma grande vantagem porque temos um posicionamento histórico e de bom relacionamento.
Se alargarmos a lusofonia ao espaço ibero-americano, aí a dimensão é maior porque independentemente de existir uma ligação histórica maior por parte de Espanha relativamente ao espaço ibero-americano, os portugueses têm um grande entendimento seja com o Chile, a Colômbia, o México e aí há um espaço de oportunidades porque nos entendemos, falamos a mesma língua, há uma grande proximidade. Julgo que aqui há dois espaços de oportunidade para as instituições portuguesas e para o próprio posicionamento de Portugal e de Espanha na Ibéria. Por isso é que ultimamente o Conselho de Reitores tem defendido claramente e tem feito encontros sistemáticos anuais - existem grupos de trabalho - entre Portugal e Espanha, e tem defendido posições conjuntas da Ibéria na União Europeia. Acho que aqui há um espaço de oportunidade para o sul da Europa.


Outra área de progressão também é a ligação às empresas. O que é que ainda falta fazer, ou seja, as universidades ainda vivem muito longe das empresas tanto do ponto de vista do fornecimento do material humano e de conhecimento como também do financiamento do outro lado?
Julgo que aqui o caminho já foi iniciado, aquele isolamento das instituições e o próprio isolamento do tecido empresarial foram quebrados. Agora, é preciso criar formatos de maior cooperação.


Mas as empresas não estão muito para aí viradas, não há grande tradição de mecenato, por exemplo?
No mecenato já existem bons exemplos e existem potenciais exemplos que abrem uma porta a explorar. Mas há outros formatos, por exemplo, ao nível do ensino pós-graduado. Nós não podemos ver o ensino pós-graduado da mesma forma que vemos o primeiro ciclo em que o estudante compra um curso - uma propina dá-lhe direito a X unidades curriculares com um formato fixo. No caso das pós-graduações, uma parte delas podem ser feitas em contexto de empresa e ser esta a financiar o estudo do seu recurso humano, a requalificação do seu recurso humano que vai desenvolver uma investigação de acordo com os interesses da empresa, mas aí a instituição também tem de inovar, ou seja, não pode ter uma carga letiva presencial tão elevada nos cursos de doutoramento, por exemplo, como num curso do primeiro ciclo. Embora no primeiro ciclo existam já recursos de aproximação às empresas, e aí é algo que se insere naquilo de que já falámos na primeira sessão, na matéria de inovação pedagógica. Também em matéria de ensino não podemos olhar para as empresas só como mecenato ou como parceiro para a indústria, para a transferência do conhecimento, mas também a nível do ensino.


Olhando só para a UTAD: quantos desafios do mundo empresarial recebem para ajudar a resolver problemas práticos que as empresas tenham?
Muitas das vezes, o problema está em nós não comunicarmos bem com a sociedade. Falou no caso da minha universidade, mas repare, o Orçamento do Estado suporta 80% dos salários, não do funcionamento, e a UTAD é uma das instituições onde existe uma maior dependência do OE, mas o plafond que é atribuído pelo Governo cobre apenas 80% dos salários e não do funcionamento. O resto vem da prestação de serviços especializados, vem de projetos europeus. Portanto, as instituições, quando viram que Portugal tem um investimento bastante baixo em matéria de ensino superior - o tal subfinanciamento crónico de que falávamos - alteraram o seu paradigma.
Agora chegamos à questão a sustentabilidade, porquê? Porque nós temos uma média de 55 anos e daqui a uns anos? Nós precisamos de renovar as academias...


Está a falar do corpo docente?
Do corpo docente e de todos os recursos humanos da instituição. A questão dos funcionários não docentes parece ser algo que nunca vem à discussão pública, mas também precisamos de recursos humanos qualificados para dar resposta aos novos desafios. O sistema de serviços que as instituições têm para assegurar o seu funcionamento tem hoje exigências que não tinha no passado, ao abrigo da modernização administrativa, do ponto de vista das assessorias, etc. Portanto é necessário renovar as instituições para sermos competitivos, não só na atração de financiamento europeu, mas também das próprias empresas.


Numa sociedade cada vez mais digital, as universidades não continuam a ser instituições razoavelmente analógicas?
Eu acho que há uma simpatia no "razoavelmente"[risos]. Quando falei na modernização e que o próximo quadro comunitário poderia pensar nesse sentido, foi porque nós não podemos ter uma estratégia de expansão, de aumentar a instituição, mas de capacitá-la e a modernização passa por isso, não só pela inovação pedagógica, mas essencialmente também pela componente tecnológica. Hoje em dia, as novas tecnologias estão presentes em todo o lado, e nós recebemos logo no início estudantes que são ativos digitais e não podemos ter um ensino meramente presencial. Não queria avançar muito e fazer grandes previsões do que será o futuro da instituição daqui a 50 anos, mas acho que já num curto prazo era preciso forçosamente repensar esta questão. Os métodos de ensino têm de ser alterados.

Isso é mais difícil com um corpo docente que tem uma média etária de 50 anos ou mais?
É evidente que é preciso adaptar o atual corpo docente, mas também é preciso não só renovar do ponto de vista dos recursos humanos, mas sim capacitar do ponto de vista físico as instituições, prepará-las para o mundo digital.


Há aqui uma questão que se prende também com a da natalidade de que falámos, mas também com a desertificação do país, com a coesão territorial, com a questão e que se falou aqui há uns meses das universidades dos grandes centros urbanos versus as universidades de polos mais interiores. Se por um lado há cidades que só vivem ou sobrevivem com os alunos das universidades que lá estão, por outro lado, as universidades também devem ter um sentido de especialização, de excelência. Com esta quebra da natalidade o que é que pode acontecer? Pode acontecer que só sobrevivam as grandes universidades dos grandes centros urbanos, tem esse receio?
Eu acho que Portugal não se pode permitir a esse luxo. Seria um desastre nacional se quiséssemos centralizar o ensino e fizéssemos uma política de racionalização de custos nos grandes polos urbanos. Porque é que seria um desastre para o país? Porque hoje no interior, tão grave como o problema da queda da natalidade e do envelhecimento, é o de não haver massa crítica. Portanto, as instituições constituem âncoras de esperança para essas regiões para captar não só jovens, mas também massa crítica que permita gerar novos negócios, novas oportunidades para fixar população. Nós, para fixarmos população temos obrigatoriamente de trazer emprego. Se o país apostar numa estratégia de internacionalização das instituições, pode ser uma oportunidade de atrair gente de outros países que possa dinamizar estas regiões.


O que é que as próprias universidades que não estão nos grandes centros urbanos devem fazer para aumentar o poder de atração desses estudantes?
Em primeiro lugar acho que uma instituição que esteja localizada numa região de menor pressão demográfica pode, em termos de ensino, ter todas as valências nas áreas do conhecimento, mas tem de se focalizar, tem de ter uma estratégia.

Ou seja, defende a especialização?
Defendo.


Por exemplo, a UTAD devia especializar-se em quê?
Posso falar da estratégia da UTAD que é claramente uma universidade que tem um foco que é o setor agroalimentar. Nós hoje não podemos olhar para a agricultura dos anos oitenta, temos de saber que a agricultura de hoje exige tecnologias. Nós temos uma boa escola de engenharia, pois não é possível desenvolvermos a agricultura portuguesa ou mundial - hoje fala-se muito na agricultura inteligente (smart farming) -, mas também as humanidades são fundamentais. Não são só as questões da economia e da gestão ligada ao território, hoje em dia, complementarmente à agricultura, por exemplo no setor do vinho, o turismo é fundamental e não se pode ter uma proposta turística sem se manter a identidade. Nisto, as áreas da cultura, das humanidades, são fundamentais.


Ou seja, não há especialização possível?
Há. Há em termos de oferta educativa, só que quando se oferece uma determinada formação, por exemplo em agricultura inteligente, terão que estar as pessoas da área das ciências e das tecnologias, as pessoas centrais da agricultura, mas sem as humanidades, sem as pessoas da economia, há algo que fica a faltar.


Tem conhecimento se cada uma das universidades está a fazer um caminho desse género?
O que eu acho é que cada instituição tem de definir uma estratégia de acordo com o seu território e com as suas competências instaladas. No caso da UTAD, essa estratégia resulta da identidade: nós nascemos do setor agrário, fomos ganhar competências nas outras áreas porque o mundo é diferente, o mundo é mais digital, é mais tecnológico e estamos a especializar-nos nesse sentido. Nunca esquecendo que há uma quarta dimensão além do ensino, da investigação, da transferência do conhecimento, há o território. Não faz sentido desenvolver investigação que não seja transferida para esse território e que permita o desenvolvimento dessas populações.

Ou seja, não faz sentido ter engenharia civil em todas as universidades do país?
Pode existir de forma partilhada. Eu não sei até que ponto no primeiro ciclo de engenharia civil, os estudantes por exemplo no caso da UTAD, que têm uma formação básica nos três primeiros anos, não podem depois fazer a formação pós-graduada noutra escola. Acho que tem de existir mais partilha. Esta questão que foi muito colocada, a dos cortes, vai-se cortar num lado para aumentar noutro e depois os transvases podem existir, não no meu caso pois na UTAD cresceu claramente o número de estudantes, abre novas oportunidades e é preciso criar novos espaços de cooperação. Desde logo, o Porto, Lisboa e os grandes centros têm uma capacidade de internacionalização porque são cidades de renome internacional sob o ponto de vista do turismo e portanto têm grandes marcas, mas também na pós-graduação. Jugo que se podem criar espaços de cooperação regional em que os estudantes de uma determinada instituição podem ter uma formação e primeiro ciclo nestas instituições e depois, complementarmente, transitar para outras. É evidente é que convém que estas instituições não repitam as formações que nós fazemos em pós-graduações na nossa área de especialização.

Diz que deve existir, porque essa cooperação entre universidades não existe?
Existe e deve ser potenciada. Dou-lhe o exemplo a norte: nós criámos um consórcio entre as três universidades - Minho, Porto e UTAD -, cada uma com a sua dimensão, com a sua diferenciação e sentamo-nos à mesma mesa para encontrarmos as melhores soluções. Agora, este é um espaço que tem de ser dinamizado.


Mas reconhece que o valor económico de um curso superior é hoje menos reconhecido pela sociedade portuguesa?
Não tenho essa noção, porque a noção que tenho é que o jovem que tem formação superior tem mais facilidade de integração no mercado, com maior reconhecimento e também, maior recompensação económica. Agora, no entanto aqui não costumo utilizar muitos indicadores porque há muita variabilidade, há áreas de formação com maior atratividade, com maior recompensação económica relativamente a outras e, portanto, essas assimetrias que existem entre áreas de formação é que importa regular.

A ideia de um jovem com formação superior que trabalha em profissões das mais variadas, por exemplo sem nenhum acinte, como caixa de supermercado, está um pouco generalizada hoje em Portugal, não é verdade? Ou seja, o facto de o curso não adicionar à vida de cada um de nós um acrescento económico que seja visível.
Eu não queria fugir à questão, mas neste momento estou mais preocupado com os jovens que saem da universidade e que vão trabalhar para a Europa e para as grandes empresas europeias e que não ficam no país.

Há alguma percentagem concreta?
Eu não tenho números concretos, mas isso preocupa-me muito, sinceramente. Porque um jovem aqui, em Portugal, licenciado a ganhar 700 €, e não falo em qualquer área do conhecimento, mas são áreas que todos nós sabemos, vai para a Alemanha e ganha 5000 €, ou na Suíça ou no Luxemburgo, e é esse capital humano que nós estamos a perder e que a mim me preocupa muito.


Ser presidente do CRUP sendo reitor da UTAD é diferente de ser presidente do CRUP e ser reitor de uma universidade em Lisboa ou no Porto ou em Coimbra?
Nunca vi qualquer diferença nesse sentido. Hoje, Portugal é um país tão próximo que estar aqui em Lisboa ou estar em Vila Real é de uma proximidade tão grande, com os meios de comunicação que temos, que não vejo qualquer problema. Quando assumi as funções vi apenas um sentido de missão em prol de criar pontes e ver de que forma podemos unir pessoas e juntar portugueses em prol de projetos comuns, independentemente da origem.

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