Bomba nuclear. Uns têm, uns escondem, outros querem e alguns desistiram dela

O Irão é neste momento o mais forte candidato a juntar-se aos nove países que possuem a arma nuclear - EUA, Rússia, Reino Unido, França, China, Índia, Paquistão, Israel e Coreia do Norte. Mas também há quem, como a África do Sul, tenha desistido da bomba já depois de a ter desenvolvido.

"Tínhamos de convencer o mundo de que não estávamos a jogar jogos, que destruímos aquelas bombas, que podemos dar conta de cada miligrama de matéria que havia nelas", contava Frederik De Klerk em 2012 em Washington, recordando a sua decisão, quase duas décadas antes, de destruir as bombas atómicas que a África do Sul tinha desenvolvido. Em 1993 era uma África do Sul mergulhada em tensões e ódio que via De Klerk negociar com um recém-libertado Nelson Mandela o fim do apartheid e o início de um regime multirracial. E foi esse país que viu o presidente anunciar na televisão que tinham construído seis bombas atómicas em segredo, mas que as tinham desmantelado e acabado com o programa nuclear.

Até hoje, a África do Sul é o único país a ter desenvolvido a sua própria bomba atómica, desistindo dela de livre vontade.

Ucrânia, Bielorrússia e Cazaquistão, antigas repúblicas soviéticas, que herdaram algumas ogivas da URSS após o seu desmantelamento em 1991, também optaram por desistir delas.

Foi precisamente em Semipalatinsk, no atual Cazaquistão, que a 29 de agosto de 1949 a União Soviética fazia explodir a sua primeira bomba atómica. Nesse dia desaparecia o monopólio dos Estados Unidos sobre uma arma devastadora que até agora só foi usada por duas vezes num conflito. Pelos americanos a 6 e 9 de agosto de 1945, contra as cidades de Hiroxima e Nagasáqui, forçando o Japão a render-se e pondo fim à Segunda Guerra Mundial no Pacífico, meses depois de ter terminado na Europa.

Ora o teste em Semipalatinsk veio criar o que ficaria conhecido como o equilíbrio do terror, levando as duas superpotências a entrar numa longa Guerra Fria, mas impedindo que a tensão se transformasse numa Guerra Quente que podia ter levado à destruição do planeta.

Foi a recusa do Cazaquistão, hoje nono maior país do mundo, da Ucrânia e da Bielorrússia em ficarem com as ogivas soviéticas que se encontravam no seu território, transferindo todo o arsenal para a Rússia, que permitiu a este país ainda hoje possuir mais de 6300 ogivas, mais do que os Estados Unidos, com as suas 5800.

E os cazaques tornaram-se mesmo dos mais ativos adversários da proliferação nuclear, nada de tão estranho assim se pensarmos que há populações no nordeste do país, em redor de Semei, a antiga Semipalatinsk soviética, e não só, que sofrem os efeitos da radioatividade deixada por centenas de testes.

Momento positivo nesta história do nuclear deu-se também no final dos anos 1970, quando as ditaduras militares brasileira e argentina se esforçaram por obter armas nucleares, mas sem lá chegarem. Tendo os seus programas sido desmantelados quando os países se democratizaram

Mas passados 75 anos sobre o lançamento das bombas americanas sobre Hiroxima e Nagasáqui, a arma desenvolvida por Robert Oppenheimer e por toda a equipa do Projeto Manhattan continua a atrair vários países - com o Irão a ser o mais forte candidato a ter a bomba graças a um programa nuclear que lhe tem valido críticas e sanções.

O motivo parece simples. Basta olhar um pouco para a história. Teriam o iraquiano Saddam Hussein ou o líbio Muammar Kadhafi sido derrubados se tivessem chegado a alcançar o poder nuclear? Sabe-se que Kim Jong-un não quer correr riscos e que por muito que faça cimeiras com Trump não se vê a Coreia do Norte a abandonar a tão poderosa arma. Ou os ayatollahs do Irão a desistir de a obter, apesar dos tratados, das inspeções ou das sanções a que o país está sujeito.

Teriam o iraquiano Saddam Hussein ou o líbio Muammar Kadhafi sido derrubados se tivessem chegado a alcançar o poder nuclear?

E se não podemos ainda contar os iranianos no clube dos que têm a bomba atómica, há mesmo assim nove países que a possuem. Além de Estados Unidos e Rússia, o Reino Unido e a França tornaram-se potências nucleares logo nos anos 1950, seguindo-se a China, em 1964. São estes os cinco países que já possuíam armas nucleares aquando da entrada em vigor do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) em 1970. E não será um acaso que estejamos a falar dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Mas há ainda quatro outras potências nucleares. Em 1998, Índia e Paquistão, os irmãos inimigos que já travaram três guerras, realizaram testes nucleares quase simultâneos, numa espécie de desafios. A Índia confirmava assim o que se suspeitava desde um teste detetado no deserto do Rajastão em 1974 e o Paquistão provava que não estava disposto a ficar para trás na comparação com a vizinha.

Ora terá sido, como veio a saber-se mais tarde, o cientista chefe paquistanês, Abdul Qadeer Khan, quem esteve envolvido no tráfico de informações, ajudando o projeto da Coreia do Norte. Em 2006, Pyongyang realizava o primeiro de seis testes nucleares, ainda com Kim Jong-il no poder. Os três últimos, em 2013, 2016 e 2017, foram já ordenados pelo seu filho e sucessor, Kim Jong-un. Foi também ele quem lançou dezenas de mísseis balísticos, num esforço para ultrapassar aquela que parece ser a maior dificuldade do arsenal norte-coreano: com 30 a 40 ogivas disponíveis, os cientistas têm trabalhado para as reduzir de tamanho, de forma a serem transportáveis por mísseis com capacidade para atingir alvos a definir por Pyongyang.

Esta série de ensaios e a ameaça de que os mísseis balísticos norte-coreanos já teriam capacidade para atingir a costa leste dos EUA, onde ficam cidades como Nova Iorque ou Washington, fizeram subir o tom entre Kim e Donald Trump, com o presidente americano a ameaçar lançar "o fogo e a fúria" contra a Coreia do Norte. Um tom que baixou em 2018, com os dois líderes a já se terem encontrado por duas vezes desde então. Mas a ameaça permanece real.

Negar com pouca convicção

E depois há Israel. Que o Estado hebraico possui a bomba atómica é dos segredos mais mal guardados da diplomacia mundial. Mas se os israelitas têm por política manter o silêncio quando o assunto é o seu programa nuclear, em 2006 o então primeiro-ministro Ehud Olmert assumiu o estatuto nuclear do país numa entrevista a um canal televisivo alemão. Uma monumental gafe quando comentava as ambições nucleares do Irão.

E a verdade é que o país, embora negue a posse com escassa convicção, possui armas nucleares no mínimo desde 1986, quando o jornal britânico The Sunday Times revelou os segredos das instalações de Dimona, no deserto do Neguev, com base nas informações de Mordechai Vanunu, um cientista nuclear mais tarde capturado e levado de volta ao país pela Mossad.

Ao todo, estes nove países possuem cerca de 13 500 ogivas, com os EUA e a Rússia perto das 6000 cada, China e França perto das 300, o Reino Unido com pouco mais de 200, Índia e Paquistão andam pelas 150, Israel com 90 e a Coreia do Norte tem 30 a 40, segundo dados da Campanha Internacional para a Abolição das Armas Nucleares (ICAN, Nobel da Paz em 2017).

Mais do que a preocupação com a capacidade destrutiva que a bomba atómica dá a um país, a ambição nuclear de uma Coreia do Norte - com um líder imprevisível e uma retórica bélica sobretudo em relação à vizinha Coreia do Sul e ao Japão, mas também em relação aos EUA - e de um Irão levanta questões sobre a proliferação de armas nucleares. É que se Pyongyang - que já fez vários testes - e Teerão desrespeitarem o TNP, outros poderão ter a tentação de seguir o seu exemplo.

Este tratado, que só proíbe novos membros do clube nuclear, é mesmo assim um fracasso. E a presidência de Donald Trump, com a sua aposta no isolacionismo, não veio melhorar as coisas. Em finais de maio, surgiu mesmo a notícia de que o presidente americano estaria a ponderar realizar um novo teste nuclear. O último efetuado pelos EUA foi em 1992, tendo o então presidente George W. Bush instaurado uma moratória. Trump anunciou ainda a intenção de retirar os EUA do Tratado dos Céus Abertos, depois de acusar a Rússia de violá-lo. O tratado, que entrou em vigor em 2002, autoriza os países signatários a realizar voos de observação sobre os territórios de outros estados para verificar movimentos militares.

É o terceiro acordo internacional de defesa de que o presidente Trump decide retirar os Estados Unidos, depois do abandono do acordo nuclear com o Irão, denunciado em 2018, e o INF, Tratado sobre Armas Nucleares de Alcance Intermédio, com a Rússia, que deixou em 2019.

"A não violência é a única coisa que a bomba atómica não consegue destruir"

Uma posição que não tranquiliza. É que se há 75 anos que nenhum país se atreve a recorrer à bomba atómica, o facto de haver mais de 13 mil ogivas espalhadas pelo mundo, qualquer uma delas bem mais poderosa do que as que foram lançadas sobre o Japão e algumas delas nas mãos de líderes imprevisíveis, é suficiente para nos fazer pensar no enorme risco de devastação que isso implica.

"A não violência é a única coisa que a bomba atómica não consegue destruir", afirmava o Mahatma Gandhi pouco depois das bombas de Hiroxima e Nagasáqui. Vamos ver se o efeito dissuasor de a possuir continua a ser mais forte do que a vontade de a usar.

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