Nobel da Paz. O prémio que foi uma surpresa para Obama e que Trump diz merecer

A semana dos Nobel começa na segunda com o anúncio do vencedor do prémio da Medicina. O da Paz sabe-se na sexta-feira. Organização Mundial da Saúde, Jacinda Ardern ou Greta Thunberg são os favoritos. Uma vitória de Donald Trump antes das presidenciais seria mais uma "surpresa de outubro", após o teste positivo à covid-19.

"Acho que vou receber um prémio Nobel por muitas coisas. Se o dessem de forma justa, que não fazem. Eles deram um ao [Barack] Obama, imediatamente depois de ter chegado à presidência e ele não fazia ideia porque é que o tinha ganho. Sabem, foi a única coisa com a qual concordei com ele."

As declarações são de Donald Trump e foram proferidas numa conferência de imprensa em setembro de 2019, mais de um ano depois de o presidente norte-americano ter sido nomeado pela primeira vez para o Nobel da Paz por causa dos esforços de normalização das relações com a Coreia do Norte e da sua cimeira histórica com o líder Kim Jong-un.

Desde então, a sua administração negociou um acordo de paz com os talibãs no Afeganistão, permitindo retirar os militares norte-americanos do país (como está a fazer com o Iraque), e a Casa Branca foi palco da assinatura dos históricos Acordos de Abraão, que permitem a normalização das relações entre Israel e dois países árabes, Emirados Árabes Unidos e Bahrein. Além disso, os EUA ajudaram também Sérvia e Kosovo a assinar um acordo económico, apesar de Belgrado ficar aquém do reconhecimento oficial da república que declarou a sua independência em fevereiro de 2008.

Obama foi galardoado em 2009 "pelos seus esforços extraordinários em reforçar a diplomacia internacional e a cooperação entre os povos", apesar de ser responsável por expandir o programa de bombardeamentos com drones no Afeganistão e no Iraque. E a vitória não é algo que mencione muitas vezes - o próprio ficou surpreendido e estudou a hipótese de não viajar até Oslo para receber o prémio.

O antigo líder do comité, Geir Lundestad, expressou o seu arrependimento pela escolha em 2015. "Até os apoiantes de Obama acreditavam que o prémio tinha sido um erro", escreveu no seu livro de memórias. "Nesse aspeto, o comité não conseguiu o que esperava", referiu, indicando que a ideia era reforçar o presidente norte-americano.

Mas entregar outro Nobel da Paz a mais um presidente dos EUA - Obama foi o quarto, depois de Theodore Roosevelt, Woodrow Wilson e Jimmy Carter (já depois de deixar a Casa Branca) - não parece provável. Ainda mais porque estamos a um mês das presidenciais de 3 de novembro.

Seria mais uma "surpresa de outubro", depois de o candidato republicano testar positivo para a covid-19, não sendo ainda claro qual o impacto que isso terá na campanha. No jargão político norte-americano, a "surpresa de outubro" é um evento inesperado (alguns podem ser planeados) que pode influenciar a forma como os eleitores votam.

Três nomeações

Trump foi nomeado pelo menos três vezes para o Nobel - por dois deputados de extrema-direita, um norueguês e outro sueco, e um grupo de professores de Direito australianos. O primeiro, Christian Tybring-Gjedde, que já tinha nomeado o presidente norte-americano em 2018, comparou o impacto do acordo entre Israel e os Emirados Árabes Unidos (a notícia veio antes de ser conhecido o acordo também com o Bahrein) à queda do Muro de Berlim.

O deputado sueco, Magnus Jacobssson, não nomeou diretamente Trump, mas a sua administração e os governos do Kosovo e da Sérvia, pelo acordo económico que assinaram. Já os professores australianos alegaram que Trump "está verdadeiramente a produzir a paz no mundo de uma forma como nenhum dos seus predecessores fez e que merece verdadeiramente o Nobel da Paz".

Um grupo de eurodeputados da extrema-direita holandesa também submeteu recentemente uma resolução a pedir para a União Europeia nomear Trump, alegando que um "olhar mais atento" ao seu registo "só pode levar à conclusão de que ele devotou a sua presidência à paz mundial e com um sucesso considerável".

Foram os próprios a anunciar as nomeações, que oficialmente ficam em segredo durante meio século, mas, uma vez que se prendem com acontecimentos que ocorreram já na segunda metade do ano, não devem chegar a tempo do prémio de 2020 (as nomeações têm de entrar até 31 de janeiro), podendo apenas contar para 2021. Ainda assim, a Casa Branca congratulou-se quando a primeira nomeação foi conhecida, com a assessora de imprensa de Trump, Kayleigh McEnany, a falar de uma "honra merecida" para o presidente.

Mas, mesmo que haja nomeações para Trump para o Nobel deste ano, isso não significa que ele vá ser distinguido pelo Comité Nobel norueguês. Especialmente tão próximo das presidenciais norte-americanas, apesar de Trump ser o quarto favorito segundo as casas de apostas. O ex-vice-presidente Joe Biden, candidato democrata à Casa Branca, também foi nomeado, mas mais uma vez só será a tempo do galardão de 2021. Foi o deputado trabalhista britânico Chris Bryant que propôs o nome, destacando "a sua dedicação ao argumento político e ao debate num período conturbado da política nos EUA".

Favoritos

Os candidatos para o Nobel da Paz podem ser nomeados por deputados, professores universitários, anteriores galardoados ou chefes de Estado, entre outros. Segundo a lista oficial do Comité Nobel, para o prémio que será anunciado na sexta-feira há 318 candidatos, sendo que 211 são indivíduos e 107 organizações. Já por 19 vezes não houve galardoado - nomeadamente durante as duas guerras mundiais -, tendo em 1972 sido o último ano em que o prémio não foi entregue.

Em ano de pandemia de covid-19, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lidera a lista de favoritos das casas de apostas. A agência das Nações Unidas, que foi criada em 1948 para melhorar a saúde mundial, é atualmente liderada pelo etíope Tedros Adhanom Ghebreyesus. Contudo, as acusações de que a OMS falhou na resposta à pandemia que foi detetada na China e de que é demasiado próxima de Pequim - algumas das razões que levaram os EUA a anunciar que pretendem sair da agência - podem prejudicá-la.

Quem tem recebido elogios pela forma como lidou com a covid-19 é a primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern. Junto com o que se considera uma liderança inspiradora, especialmente depois dos atentados de 2019 contra as mesquitas em Christchurch, fazem dela uma forte candidata a vencer o Nobel da Paz deste ano. Contudo, o facto de as eleições neozelandesas terem sido adiadas - inicialmente estavam previstas para 17 de setembro, mas a pandemia obrigou a adiá-las para o próximo dia 17 de outubro - também pode não jogar a seu favor. As eleições não são tão disputadas como as dos EUA (as sondagens colocam-na confortavelmente na liderança), mas ainda assim o prémio podia não ser bem visto pela proximidade com a ida às urnas.

Outra das favoritas - como também já tinha sido no ano passado - é a jovem ativista sueca pelo clima Greta Thunberg. Apesar de o tema parecer ter ficado para segundo plano por causa da covid-19, marcou o ano de 2019 e as nomeações terminaram a 31 de janeiro, pelo que a adolescente de 17 anos que lançou as greves às aulas pelo clima poderá estar entre os nomeados. Os especialistas acreditam que, se ganhar, o fará junto com outros ativistas, também para chamar a atenção para o facto de o problema ser mundial.

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), que já ganhou em 1954 e 1981, é outro que está bem colocado nas listas de apostas. Outras duas organizações estão no top 10: a União Europeia, que seria estranho em ano de Brexit, e os Repórteres sem Fronteiras. O movimento Black Lives Matter (as vidas negras contam) também entra neste ranking, mas a escolha do movimento antirracismo, que tem o seu principal foco nos EUA, também poderia ser considerado demasiado político em vésperas das presidenciais norte-americanas.

O presidente sul-coreano, Moon Jae-in, pelos seus esforços de diálogo com a Coreia do Norte, também está na lista dos favoritos, que termina com o ex-patrão da Microsoft, Bill Gates, transformado em filantropo.

No ano passado, o Nobel da Paz foi para o primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed Ali, distinguido "pelos seus esforços para alcançar a paz e a cooperação internacional e particularmente pela sua iniciativa decisiva para resolver o conflito fronteiriço com a vizinha Eritreia".

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