Tradições originais

Se o Natal foi inventado para saírem da toca os esquisitinhos do bacalhau, o fim de ano serve para os dos pinhões e das passas. Eu até gosto de contar as badaladas, mas tem de ser com uvas, ou amendoins, ou m&ms, ou amêndoas da Páscoa se já as houver, mas amêndoas de amêndoa não, que aquela pelezinha fica nos dentes, tem de ser de chocolate. Finezas francesas de quem gosta de ser tradicional mas à sua maneira.

Gostar de tradições sem gostar de tradições deve ser uma existência complicada, como fazer desporto sem fazer exercício, uma posição inconciliável com a integridade moral neste mundo da pós-verdade. Por falar em pós-verdade e outros chavões da contemporaneidade, os fins e inícios de ano são muito dados a clichés.

Neste campo há aquela outra tradição das tradições que é a de os jornais, e os amigos também, perguntarem previsões para o ano que vem, que é este em que já estamos. Mas nessa a mim já não me apanham, previsões de fim de ano só no fim do ano, nunca ninguém a disse tão certo como o João Pinto, o do Porto, que é feito dele? Com Trumps, e Brexits, e festivais da Eurovisão, e mesmo geringonças, era mesmo eu que ia arriscar banalidades ainda por cima erradas. É que uma banalidade errada é daquelas que não têm perdão. Ou então uma generalidade: 2019 vai ser o ano dos populismos (vai mas Trump ganhou em 2016 e Bolsonaro em 2018 e o Brexit já lá vão dois anos dele). O ano do não, e outras generalidades, também não ajuda. Basta dizer, não, não faço ideia, mas ninguém diz.

Pior do que previsões são resoluções. Desde logo pelo nome, uma resolução é coisa de burocrata a fingir de político, lei sem dentes, formulário com pretensões, coisa que ao contrário do nome nunca resolve nada. As outras resoluções, as do ano, são uma forma de cada um se confrontar com o seu falhanço que está ali mesmo, naqueles minutos a começar. Há um momento na vida de todos nós em que as badaladas passam de marcar desejos para ditar resoluções. É um momento triste, em que abandonamos o pensamento mágico do que nos pode ser dado de cima, de surpresa, uma visão da vida enformada pela graça (como na música dos U2 "Grace. She takes the blame. She covers the shame. Removes the stain. It could be her name (...) Because Grace makes beauty. Out of ugly things. Grace finds beauty. In everything. Grace finds goodness in everything". Saímos da esfera da graça para a da nossa desgraça da nossa incapacidade de fazer - daí resolver mudar - para a nossa incapacidade de mudar. Ginásios, fidelidades, mais leituras, menos doces, deixar o carro em casa, não berrar com os miúdos, acabar o curso de Office, ter a casa mais arrumada, visitar a mãe no lar todas as semanas (mesmo), levar os miúdos à Disney. Há quem suba para cadeiras, quem vista roupa nova, cueca azul ou outra peça, mas passas e pinhões é que não. Uns e outros não cumprem nada do que resolvem cumprir.

É claro que não fui imune ao missmundismo e lá na Renascença (jingle, terças e quintas às nove e vinte, em debate com Francisco Assis, jingle) fiz uns votos de Natal e de ano novo, uma declaração curta, que por acaso não encontro online, e que pode nem ter passado, em que, no fundo e se bem me lembro, desejava para o que aí vinha um olhar colocado na perspetiva do outro no momento da decisão política, empresarial, pessoal. É bonito, fica bem. E é verdade. Podia ter citado o Velho Ateu, cantado pela Beth Carvalho, só para explicar que ninguém quer muito ouvir palavras de bem, que quando o velho ateu cantava, bêbedo de madrugada que "Se eu fosse Deus, daria aos que não têm nada", e as janelas fechavam-se para os versos que aquele poeta cantava.

O ano começou da melhor maneira em termos de versos cantados. Logo no dia 1, Estraca, um dos mais novos e melhores cantores de rap portugueses, lançou a música - ia escrever single, mas não sei se ainda se diz single - BoomBap, uma referência ao som original do hip hop, à batida de raiz. E a minha resolução é por aí, voltar cada vez mais às raízes sem perder a originalidade. O que não é nada original. Mas é sincero. Bom ano.

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