Premium Um futuro minguante

Nos últimos 30 anos mudámos a perceção sobre o futuro. A globalização, aberta pela implosão pacífica do império soviético, mobilizada pelo eclipse generalizado das ideias socialistas, incluindo no campo da social-democracia europeia (Blair e Schröder, por exemplo, enfraqueceram mais os direitos laborais do que os tories ou a CDU/CSU), e por uma vaga autoconfiante de neoliberalismo, provocou um triplo efeito: a) redução dos níveis globais de pobreza extrema, b) formação de "classes médias" nos países emergentes (sendo o caso da China o mais significativo); c) diminuição continuada e sistemática dos rendimentos do trabalho face aos rendimentos do capital no PIB dos países ocidentais.

Muito embora se tenham registado algumas melhorias no desempenho ambiental da indústria (diminuição da energia e das matérias-primas consumidas por unidade de riqueza produzida), a verdade é que o aumento do volume de produção anulou os benefícios ambientais líquidos. A economia mundial continua a seguir um modelo essencialmente extrativista, poluente, que coloca em causa a biodiversidade e o equilíbrio climático. A riqueza cresce, mas com um perfil generalizado de desigualdade crescente na sua distribuição. Se o facto de o índice de Gini para a desigualdade ser praticamente idêntico nos EUA e na Rússia não causa excessiva admiração, já o processo de maior desigualdade em muitos países da União Europeia é motivo de preocupação.

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Anselmo Crespo

E uma moção de censura à oposição?

Nos últimos três anos, o governo gozou de um privilégio raro em democracia: a ausência quase total de oposição. Primeiro foi Pedro Passos Coelho, que demorou a habituar-se à ideia de que já não era primeiro-ministro e decidiu comportar-se como se fosse um líder no exílio. Foram dois anos em que o principal partido da oposição gritou, esperneou e defendeu o indefensável, mesmo quando já tinha ficado sem discurso. E foi nas urnas que o país mostrou ao PSD quão errada estava a sua estratégia. Só aí é que o partido decidiu mudar de líder e de rumo.

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Henrique Burnay

A ameaça dos campeões europeus

No dia 6 de fevereiro, Margrethe Vestager, numa só decisão, fez várias coisas importantes para o futuro da Europa, mas (quase) só os jornais económicos repararam. A comissária europeia para a Concorrência, ao impedir a compra da Alstom pela Siemens, mostrou que, onde a Comissão manda, manda mais do que os Estados membros, mesmo os grandes; e, por isso mesmo, fez a Alemanha e a França dizerem que querem rever as regras do jogo; relançou o debate sobre se a Europa precisa, ou não (e em que condições), de campeões para competir na economia global; e arrasou com as suas possibilidades (se é que existiam) de vir a suceder a Jean-Claude Juncker.