Cinemínimo

Agora, obrigados que estamos ao isolamento, o cinema é uma boa forma de passar o tempo, mesmo que ver grandes filmes num ecrã pequeno não seja o ideal. E, porém, como Ruy Castro confessava aqui há umas semanas, também eu já não sou a papa-filmes que fui durante boa parte da minha vida. Não só pelas pipocas - o cheiro é insuportável e nisso Ruy Castro tem absoluta razão -, mas também porque o cinema que hoje se faz é muitas vezes previsível e mal escrito e, ainda que as técnicas tenham evoluído para tornar tudo tão verosímil como fantástico, saio frequentemente de um filme sem que ele me tenha deixado qualquer marca. Falo, claro, das produções que passam na maioria dos cinemas, porque há uma filmografia de qualidade que raramente cá chega e, se chega, fica apenas uns dias numa sala escolhida e num horário estrambólico. Deve ser por isso, aliás, que as séries conquistaram os novos cinéfilos que, habituados aos ecrãs pequenos, as vêem onde e quando lhe apetece.

Eu comecei a ver cinema em criança nas férias de Verão, nos Bombeiros do Estoril, ainda com meia sala ao ar livre; os cortes da censura ainda eram visíveis como bainhas mal costuradas, mas toda a gente entrava, independentemente da idade. Foi lá que vi, por exemplo, Blow-Up ou Os Cavalos também Se Abatem com 9 ou 10 anos, embora aos 14, já em Lisboa, a minha mãe me tenha proibido de ir ver Amarcord com rapazes... Depois do 25 de Abril vinguei-me e, com a cumplicidade do meu irmão, trocámos as produções tipo Ben-Hur ou Torre do Inferno no Monumental e no Tivoli por filmes atrevidos (e maus) com Joe Dalessandro ou obras-primas como Dr. Strangelove nas salas-estúdio; depressa, porém, ganhámos maturidade e fidelizámo-nos ao cinema imortal de Visconti, Hitchcock, Jacques Demy ou Bergman, descobrindo também as pérolas de Tod Browning, Nicholas Ray ou Charles Laughton em peregrinações à Gulbenkian, à Cinemateca e ao saudoso Quarteto, quantas vezes assistindo a dois filmes por dia. Porém, enquanto o cinema se ia tornando tecnicamente perfeito, as ideias iam ficando cada vez mais banais; os filmes cheios de efeitos mas muito básicos, a merecerem realmente um ecrã pequeno e... pipocas. Ou são hoje outros os seus espectadores?

Spike Lee é um fã incondicional das grandes produções de David Lean, como Doutor Jivago e Lawrence da Arábia, e perguntou aos seus alunos se já as tinham visto. A maioria não. Os restantes disseram que sim, mas... no telemóvel. Adeus, futuro.


Editora e escritora. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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