Crise de migrantes. União Europeia rejeita intimidação de Erdogan e mostra solidariedade com Atenas

Líderes da UE deslocam-se na terça-feira à fronteira greco-turca em solidariedade com Atenas. O presidente turco ameaça com milhões de migrantes, no que é visto como uma chantagem para obter apoios no conflito com a Síria.

A União Europeia respondeu com firmeza à advertência do presidente turco Recep Tayyip Erdogan de que "milhões" de migrantes irão em breve para a Europa. A chanceler alemã Angela Merkel descreveu a iniciativa da Turquia como "inaceitável", enquanto o comissário de migração da UE, Margaritis Schinas, disse que "ninguém pode chantagear ou intimidar a UE".

Como prova da unidade europeia e de apoio a Atenas, Ursula von der Leyen, Charles Michel e David Sassoli, os dirigentes das três principais instituições da União Europeia (Comissão, Conselho e Parlamento), vão acompanhar o primeiro-ministro helénico Kyriakos Mitsotakis à fronteira com a Turquia. "Reconheço que a Turquia se encontra numa situação difícil em relação aos refugiados e migrantes, mas o que vemos agora não pode ser a resposta e a solução", disse Von der Leyen. "O desafio que a Grécia enfrenta neste momento é um desafio europeu", acrescentou.

Na sexta-feira a Turquia "abriu as portas" para os refugiados e migrantes se encaminharem para a União Europeia. Milhares reuniram-se na fronteira grega, provocando alarme de que ocorra uma crise migratória como a que se registou em 2015. Perante os acontecimentos, o governo conservador de Mitsotakis suspendeu os procedimentos de asilo para quem entre no país.

A Turquia, entre os cerca de quatro milhões de refugiados que alberga e as operações militares que leva a cabo em território sírio, na província de Idlib, tenta conter nova onda de refugiados oriundos dessa região.

"Depois de termos aberto as portas, recebemos várias chamadas a dizer 'fechem as portas'. Eu disse-lhes: "Está feito. Está resolvido. As portas estão agora abertas. Agora, vocês têm de assumir a vossa parte do ónus", disse. Erdogan afirmou que os números de migrantes na fronteira grega, que incluem afegãos, sírios e iraquianos, haviam chegado a "centenas de milhares". Concluiu: "Em breve, este número chegará aos milhões."

A chanceler alemã, Angela Merkel, que no fim do dia falou ao telefone com Erdogan, disse antesque a pressão turca é inaceitável. "Acho totalmente inaceitável que o presidente Erdogan e o seu governo não tenham demonstrado a sua insatisfação com a UE e, em vez disso, atiraram-na para as costas dos refugiados."

Também o comissário com a pasta da migração da UE, Margaritis Schinas, respondeu a Erdogan. "Ninguém pode chantagear ou intimidar a UE", disse em Berlim. "Cada vez que a UE é testada como está a ser agora, a unidade deve prevalecer", acrescentou Schinas.

Resposta grega

A Grécia está desde domingo em estado de alerta. O primeiro-ministro grego Kyriakos Mitsotakis reuniu-se de emergência com os responsáveis da defesa e dos negócios estrangeiros. Na segunda-feira conversou com o presidente dos EUA, Donald Trump. Segundo uma declaração do gabinete do primeiro-ministro grego, Trump "reconheceu o direito da Grécia de fazer cumprir a lei nas suas fronteiras".

Atenas disse que iria reforçar as patrulhas e suspendeu os pedidos de asilo para quem entrou no país de forma ilegal - uma medida que a agência de refugiados da ONU, a ACNUR, comentou ser desprovida de base legal.

A Grécia diz que impediu cerca de dez mil pessoas de entrar no país durante o fim de semana. Através de megafones, as patrulhas fronteiriças apelaram para que os migrantes permaneçam no lado turco. O governo grego também criou um sistema de mensagens de texto automáticas para telemóveis estrangeiros junto da fronteira, com a mensagem: "A Grécia está a maximizar a segurança na fronteira. Não tentem atravessar as fronteiras ilegalmente."

Uma parte dos migrantes tentou forçar a passagem e os confrontos eclodiram, com a polícia a disparar gás lacrimogéneo e os migrantes à pedrada. Para tornar a situação mais complicada, segundo o canal de TV búlgaro bTV, o lado turco cortou o arame farpado e enviou drones com gás lacrimogéneo. A estação privada alega que os municípios e empresários turcos financiaram os autocarros que têm levado os migrantes para as localidades fronteiriças.

Um vídeo mostra um bote com migrantes a ser alvo dos guardas costeiros gregos.

Mas outro vídeo mostra uma lancha turca a fazer escolta a outra embarcação com migrantes. Em meados de janeiro um vídeo de uma lancha da guarda costeira turca a abalroar uma embarcação com migrantes foi notícia.

A Turquia também acusou a polícia grega de matar um migrante sírio na fronteira. Atenas rejeitou essa acusação como fake news. Por duas vezes o vice-ministro e porta-voz governamental Stelios Petsas desmentiu a veracidade da alegação. "Pedimos a todos que tenham cuidado a reportar notícias que promovam a propaganda turca", escreveu Petsas. Horas depois voltou à carga: "Nenhum tiro foi disparado pelas forças fronteiriças contra quaisquer indivíduos que tenham tentado entrar de forma ilegal na Grécia. Tudo o mais é desinformação grosseira e deliberada: fake news."

Facto é que uma criança morreu afogada na sequência de um bote ter virado no mar Egeu. Segundo a guarda costeira grega, a ação foi propositada e é típica dos "contrabandistas para desencadearem uma operação de salvamento". As outras 46 pessoas a bordo foram salvas. Nas últimas horas chegaram mais de 1300 pessoas às cinco ilhas do mar Egeu.

A maioria chegou a Lesbos, cujo campo para refugiados se encontra com cerca de 20 mil pessoas.

O campo de Moria foi construído para acolher entre 2500 e 3000 pessoas e tem sido palco de manifestações e confrontos com a polícia. Ao contrário de anos anteriores, os migrantes são agora recebidos com gritos em inglês a dizerem para dar meia volta: "Go away!".

A agência de proteção de fronteiras da UE, Frontex, disse que vai lançar uma operação na fronteira para ajudar a Grécia a lidar com milhares de imigrantes que tentam entrar no bloco europeu. A agência com sede em Varsóvia vai pedir aos membros da UE e do espaço Schengen que contribuam com funcionários e equipamento.

"Dada a rápida evolução da situação nas fronteiras externas da Grécia com a Turquia, a minha decisão é lançar a rápida intervenção fronteiriça solicitada pela Grécia", disse o diretor executivo da Frontex, Fabrice Leggeri, em comunicado. A intervenção consiste em convocar grupos de 1500 agentes e outro pessoal que a UE e os países Schengen devem disponibilizar no prazo de cinco dias, de acordo com o comunicado.

O espaço Schengen engloba 26 países europeus que aboliram os controlos nas suas fronteiras mútuas, quatro dos quais não são membros da UE.

A troco de seis mil milhões de euros, em 2016 a Turquia comprometeu-se em impedir a saída de refugiados e migrantes para a Europa. A UE reitera que Ancara tem de cumprir o acordo.

A questão dos migrantes surge na sequência do lançamento, pela Turquia, de uma operação militar em Idlib, no noroeste da Síria, numa tentativa de fazer recuar a ofensiva do regime. Desde dezembro que as forças de Bashar al-Assad, com a ajuda dos aliados russos e iranianos, têm ganho terreno na última província controlada pelos opositores. Em consequência, cerca de um milhão de pessoas fugiram, no que constitui o maior êxodo nos nove anos da guerra. No entanto, as autoridades de Ancara não estão a autorizar a sua entrar na Turquia.

Reunião em Moscovo

Erdogan viaja na quinta-feira para Moscovo, onde irá encontrar-se com o homólogo russo, Vladimir Putin. O líder turco disse que espera alcançar uma trégua na Síria. "Espero que Putin tome as medidas necessárias, como um cessar-fogo, e que encontremos uma solução para este caso", disse o presidente turco.

Apesar de estarem em lados opostos do conflito, ambos estão interessados em evitar uma confrontação direta, e que comprometeria as relações comerciais, de energia e de defesa.

O Kremlin disse que a cooperação com a Turquia era uma prioridade máxima. "As nossas forças armadas estão em contacto constante. O mais importante é concentrarmo-nos nas negociações entre Putin e Erdogan", disse um porta-voz russo.

A Turquia tem postos de observação em Idlib, resultado de um acordo de 2018 com a Rússia que deveria impedir um ataque total por parte do regime aos grupos islamistas que controlam a província e que recebem o apoio de Erdogan.

Na segunda-feira, Damasco retomou Saraqeb, cidade que havia perdido dias antes para os jihadistas. Saraqeb é de importância estratégica, uma vez que está no cruzamento entre duas vias rápidas que ligam Lataquia e Damasco com a segunda maior cidade, Aleppo.

​​As tensões entre a Turquia e a Síria atingiram novas proporções na semana passada, quando 34 soldados turcos foram mortos num ataque aéreo imputado a Damasco. "Os ataques aéreos foram provavelmente cometidos pela força aérea russa, uma vez que os caças sírios não conduzem ataques aéreos à noite", disse Anthony Skinner, analista da consultora Verisk Maplecroft. "E ainda assim, tanto Moscovo como Ancara decidiram apontar o dedo da culpa a al-Assad, o que reflete o pouco apetite de ambos os lados por um confronto mais direto."

A Turquia retaliou no domingo ao abater dois aviões de guerra sírios, e matou pelo menos 19 soldados sírios. Erdogan disse que foi "apenas o começo", a menos que as forças sírias se retirem para trás das fronteiras acordadas no âmbito do acordo de 2018. Damasco respondeu que estava "determinado a enfrentar a flagrante agressão turca".

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG